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Nº 21630 de agosto de 202359:59análise histórica

Pedro Theotónio Pereira, o delfim de Salazar

O episódio analisa a biografia de Pedro Teotónio Pereira, figura central mas pouco conhecida do Estado Novo português. A conversa percorre o seu papel na implementação do corporativismo nos anos 1930, a sua atuação como embaixador em Espanha durante a Guerra Civil, e a sua missão de integrar Portugal no "mundo livre" ocidental após a Segunda Guerra Mundial. Discute-se ainda a dinâmica interna do regime salazarista e como a historiografia privilegiou a história da oposição em detrimento da política interna do Estado Novo.

Ideias principais

  1. Pedro Teotónio Pereira foi uma figura fundamental do Estado Novo, atuando como "bombeiro" de Salazar em momentos críticos de adaptação do regime a diferentes ambientes políticos e ideológicos.
  2. A historiografia do Estado Novo tem sido excessivamente centrada na oposição ao regime, negligenciando a importância das lutas internas, facções e dinâmicas políticas dentro do próprio salazarismo.
  3. Teotónio Pereira conseguiu adaptar-se a contextos políticos opostos: defendeu o corporativismo e a ligação a Franco nos anos 1930, mas tornou-se crítico de Espanha e artífice da integração de Portugal na NATO e aliança ocidental no pós-guerra.
  4. Américo Tomás considerava Pedro Teotónio Pereira a escolha óbvia para suceder a Salazar em 1968, mas a doença de Parkinson diagnosticada em 1963 impediu essa possibilidade, levando à nomeação de Marcelo Caetano.
  5. A escassez de fontes documentais em Portugal, comparada com outros países, dificulta a produção de biografias completas de figuras políticas, sendo a correspondência Salazar-Teotónio Pereira uma exceção que permitiu esta investigação.

Resumo do episódio

Este episódio de *E o Resto é História* conta com a presença do historiador Fernando Martins, autor de uma biografia monumental sobre Pedro Teotónio Pereira, uma das figuras centrais do Estado Novo mas ainda hoje pouco conhecida do grande público. A conversa parte precisamente dessa paradoxo: como é possível que alguém que esteve tão próximo de Salazar durante décadas, tendo desempenhado funções decisivas no regime, permaneça na sombra? Fernando Martins explica que os regimes autoritários tendem a ser narrados a partir das suas lideranças máximas, e que o próprio mercado editorial favorece o nome de Salazar nas capas dos livros. Ainda assim, reconhece que outras figuras do Estado Novo, como Duarte Pacheco, António Ferro, Adriano Moreira ou Franco Nogueira, conseguiram maior visibilidade, em parte por terem continuado activos após o 25 de Abril ou pelo tipo de trabalho que realizaram.

A discussão centra-se depois na trajectória de Teotónio Pereira ao longo de três décadas de Estado Novo. Nos anos 30, ele é nomeado subsecretário de Estado das Corporações com a missão de construir o aparato corporativo português, mas rapidamente entra em tensão com Salazar, que trava sistematicamente o ritmo das reformas. Ao mesmo tempo, Teotónio Pereira desempenha uma função política subtil mas essencial: usar a máquina corporativa que está a criar para absorver e neutralizar o movimento nacional-sindicalista de Rolão Preto, esvaziando-o antes que o Estado Novo o confrontasse directamente em 1934. É aqui que João Miguel Tavares lança a expressão de "bombeiro de Salazar", que o próprio Fernando Martins considera feliz para descrever o papel recorrente de Teotónio Pereira: ser chamado nos momentos críticos para debelar crises e negociar passagens difíceis.

Esta função repete-se em contextos muito diferentes. Em 1938, Teotório Pereira é enviado como agente especial para junto da junta governativa de Franco, tornando-se depois embaixador em Espanha até 1945. A sua partida da estação do Rossio é descrita como um acontecimento de rua extraordinário, com milhares de apoiantes a despedi-lo, o que revela que ele era, dentro do regime, uma figura com base de apoio própria e não apenas um executor de Salazar. Com o tempo, porém, Teotório Pereira vai desenvolvendo uma visão cada vez mais crítica da Espanha franquista, considerando que a diplomacia espanhola traía sistematicamente os interesses portugueses e reescrevia a sua própria história para se aproximar dos aliados ocidentais depois de 1942. Já no pós-guerra, é ele o principal responsável por reposicionar Portugal junto dos Estados Unidos, apoiando entusiasticamente a adesão à NATO quando Salazar hesitava, e voltando mais tarde a Washington nos anos 60 para reparar os danos causados à imagem do regime durante a presidência Kennedy.

Fernando Martins conclui o livro com uma reflexão contrafactual: se Teotório Pereira não tivesse sido diagnosticado com doença de Parkinson em 1963, seria provavelmente ele o sucessor de Salazar em 1968, e não Marcelo Caetano. O próprio Américo Tomás regista essa avaliação nos seus diários da época, não nas memórias escritas a posteriori, o que lhe confere maior credibilidade. Teotório Pereira teria trazido mais experiência internacional e teria estado menos associado às lutas de facções internas dos anos 50, o que poderia ter evitado a cisão que acabou por marcar e fragilizar o marcelismo.

A conversa termina numa reflexão mais ampla sobre a historiografia do Estado Novo. Fernando Martins e Rui Ramos concordam que durante décadas se escreveu a história do regime sobretudo a partir da perspectiva da oposição, subestimando as dinâmicas internas do salazarismo, as lutas de correntes, as contradições e as capacidades de adaptação que explicam, em grande medida, a longevidade do regime. A biografia de Teotório Pereira surge assim não apenas como o retrato de uma figura esquecida, mas como uma porta de entrada para compreender o Estado Novo a partir de dentro.

Personagens

  • Pedro Teotónio Pereira
  • António de Oliveira Salazar
  • Marcelo Caetano
  • Óscar Carmona
  • Américo Tomás
  • Adriano Moreira
  • Franco Nogueira
  • António de Spínola
  • Costa Gomes
  • Armindo Monteiro
  • Duarte Pacheco
  • António Ferro
  • Rolão Preto
  • Francisco Franco
  • Serrano Súñer
  • Adolf Hitler
  • Benito Mussolini
  • Philippe Pétain
  • Craveiro Lopes
  • Humberto Delgado
  • Santos Costa
  • Leite Faria
  • Caeiro da Mata
  • Isabel II
  • John F. Kennedy
  • Ferreira do Amaral
  • Fernando Rosas
  • Luís Nuno Rodrigues
  • Pedro Oliveira

Lugares/Países

  • Portugal
  • Espanha
  • Inglaterra
  • Brasil
  • Estados Unidos
  • Alemanha
  • Itália
  • França
  • Cuba
  • União Soviética
  • Guiné
  • Angola
  • Moçambique
  • Açores

Épocas

  • Estado Novo
  • século XX
  • anos 1930
  • anos 1950
  • anos 1960
  • Segunda Guerra Mundial
  • pós-Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Civil Espanhola
  • Guerra Colonial

Temas

  • diplomacia
  • corporativismo
  • fascismo
  • política interna
  • relações internacionais
  • autoritarismo
  • guerra
  • colonialismo
  • anticomunismo
  • nacionalismo

Eventos

  • Guerra Civil Espanhola
  • Segunda Guerra Mundial
  • 25 de Abril
  • criação da NATO
  • Plano Marshall
  • eleições de 1958
  • atentado contra Salazar
  • crise do Suez
  • queda do Muro de Berlim

Guerras e conflitos

  • Guerra Civil Espanhola
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Colonial

Livros recomendados

  • Pedro Teotónio Pereira, o outro Delfim de Salazar

Livros citados

  • Pedro Teotónio Pereira, o outro Delfim de Salazar