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Nº 19505 de abril de 202354:48efeméride

Plano Marshall: a salvação da Europa no pós-Guerra

Análise dos 75 anos do Plano Marshall (1948-1952), programa americano de ajuda económica a 16 países europeus no pós-Segunda Guerra Mundial. O episódio explica como os 13 mil milhões de dólares injetados na Europa tinham como objetivo não apenas reconstruir as economias devastadas, mas sobretudo criar integração económica, liberalizar o comércio e impedir o avanço comunista. Discute-se o papel central do General George Marshall, a transformação política e económica que o plano representou, e a participação de Portugal apesar da neutralidade durante a guerra.

Ideias principais

  1. O Plano Marshall foi mais importante como instrumento político de integração europeia do que como simples auxílio financeiro, obrigando os países a coordenarem-se economicamente e a derrubar barreiras alfandegárias.
  2. O General George Marshall era um dos oito 'General of the Army' na história americana, um general organizador e não de terreno, reflectindo a natureza logística e planeadora do exército dos EUA.
  3. Portugal hesitou inicialmente em aderir ao Plano Marshall por desconfiança de Salazar em relação à influência americana e às suas posições anticolonialistas, só aceitando em 1948 quando as reservas cambiais se esgotaram.
  4. A Espanha ficou de fora do Plano Marshall por ser considerada um Estado párea devido ao apoio de Franco aos nazis durante a guerra, incluindo o envio de 50 mil homens da Divisão Azul para a frente de Leningrado.
  5. A adesão de Portugal ao Plano Marshall em 1948 marcou o início de um processo de integração europeia que duraria 40 anos até à adesão à CEE, mostrando que até a ditadura salazarista percebeu que precisava de legitimação externa.

Resumo do episódio

O episódio 195 do podcast *E o Resto é História* é dedicado ao Plano Marshall, o programa de ajuda económica norte-americana que entrou em vigor a 3 de abril de 1948, há então 75 anos. Rui Ramos e João Miguel Tavares exploram as causas, a arquitectura e as consequências de um dos maiores projectos de reconstrução da história moderna, com especial atenção ao papel de Portugal.

Rui Ramos começa por situar a figura de George Marshall, general de cinco estrelas e Secretário de Estado de Harry Truman entre 1947 e 1949. Marshall pertencia à elite dos maiores generais da história americana - apenas oito atingiram o seu posto - e era, sobretudo, um general organizador, representativo de um exército assente na logística e no planeamento, mais do que no comando directo no terreno. A sua experiência como enviado especial à China entre 1945 e 1947, onde assistiu à queda progressiva do país nas mãos dos comunistas de Mao Tse-Tung, tornou-o particularmente sensível ao risco de um cenário semelhante na Europa Ocidental devastada.

Os apresentadores desenvolvem o contexto do isolacionismo histórico norte-americano, enraizado numa concepção republicana do Estado que desconfiava dos compromissos externos por os considerar corruptores da liberdade interna. Os erros cometidos após a Primeira Guerra Mundial - a retirada americana da Europa, os empréstimos privados à Alemanha que se evaporaram com a crise de 1929 e contribuíram para a ascensão de Hitler - eram lições bem presentes em 1945. Havia, porém, dois argumentos fortes para romper com essa tradição: a interdependência económica, que tornava a recuperação europeia vantajosa para os próprios Estados Unidos, e a ameaça soviética, com o Exército Vermelho estacionado às portas da Europa Ocidental e partidos comunistas poderosos em França e na Itália. O golpe comunista na Checoslováquia em fevereiro de 1948 acabaria por convencer o Congresso americano a aprovar o plano.

Rui Ramos sublinha que o essencial do Plano Marshall não foi o montante financeiro em si - os Estados Unidos já despendiam somas equivalentes desde 1945, sobretudo em créditos para a compra de produtos americanos -, mas a condição que lhe estava associada: os países beneficiários tinham de se coordenar entre si. Criou-se assim a Organização Europeia de Cooperação Económica, precursora da actual OCDE, que impôs o fim das barreiras alfandegárias, o equilíbrio orçamental e a modernização das economias. Cerca de 24 mil engenheiros e empresários europeus foram enviados para os Estados Unidos para aprender métodos produtivos americanos. Houve também uma transição energética do carvão para o petróleo e uma profunda americanização cultural, visível no cinema, na música e nos electrodomésticos que passaram a circular na Europa dos anos cinquenta. O plano coincidiu ainda com o Congresso de Haia de 1948 e a criação do Conselho da Europa, apontando para o processo de integração europeia que viria a culminar na União Europeia.

Quanto à posição de Portugal, os apresentadores destacam o seu carácter paradoxal: ao contrário da Espanha, o regime de Salazar foi convidado a participar apesar de também ser uma ditadura. A diferença residia na neutralidade portuguesa durante a guerra e, sobretudo, na cedência das bases dos Açores aos Aliados em 1943, o que contrastava com a posição do franquismo, cujos vínculos ao nazismo e ao fascismo o tornavam um Estado pária. Ainda assim, Salazar hesitou: num Conselho de Ministros de Janeiro de 1948, o governo recusou a ajuda, desconfiando da influência americana sobre as colónias e convicto de que as reservas cambiais acumuladas durante a guerra bastariam. A realidade desfez essa ilusão em poucos meses: a balança de pagamentos inverteu-se rapidamente e Portugal acabou por aderir ao plano em Agosto de 1948, recebendo cerca de 70 milhões de dólares. Rui Ramos conclui que a adesão ao Plano Marshall foi, para a própria ditadura salazarista, o primeiro passo de uma integração europeia que, quase quarenta anos depois, conduziria Portugal à adesão à Comunidade Económica Europeia.

Personagens

  • George Marshall
  • Harry Truman
  • Douglas MacArthur
  • Dwight Eisenhower
  • Omar Bradley
  • Ulysses Grant
  • William Sherman
  • Philip Sheridan
  • George Washington
  • George Patton
  • Joseph Stalin
  • Woodrow Wilson
  • Mao Tsé-Tung
  • Chiang Kai-shek
  • Adolf Hitler
  • Francisco Franco
  • Winston Churchill
  • António de Oliveira Salazar
  • Jacques Tati

Lugares/Países

  • Estados Unidos
  • Portugal
  • Espanha
  • França
  • Itália
  • Alemanha
  • Grã-Bretanha
  • Grécia
  • Polónia
  • União Soviética
  • China
  • Japão
  • Checoslováquia
  • Finlândia
  • Holanda
  • Indonésia
  • Irlanda
  • Dinamarca
  • Angola
  • Moçambique
  • Taiwan

Épocas

  • Segunda Guerra Mundial
  • Pós-Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Civil Americana
  • Primeira Guerra Mundial
  • Pós-Primeira Guerra Mundial
  • Grande Depressão
  • Guerra Fria
  • Anos 30
  • Anos 40
  • Anos 50
  • Estado Novo

Temas

  • diplomacia
  • economia
  • guerra
  • integração europeia
  • política externa
  • auxílio internacional
  • industrialização
  • livre comércio
  • comunismo
  • imperialismo
  • colonialismo
  • neutralidade
  • ditadura
  • americanização

Eventos

  • Plano Marshall
  • ataque de Pearl Harbor
  • Guerra Civil Chinesa
  • golpe comunista na Checoslováquia
  • Congresso de Haia
  • Guerra Civil de Espanha
  • cerco de Leningrado
  • cessão de bases nos Açores

Guerras e conflitos

  • Segunda Guerra Mundial
  • Primeira Guerra Mundial
  • Guerra Civil Americana
  • Guerra Civil Chinesa
  • Guerra Civil de Espanha
  • Guerra Fria