Nº 35528 de abril de 2026análise histórica
Podemos comparar as prisões da ditadura e do PREC?
O episódio analisa as prisões políticas em Portugal após o 25 de Abril de 1974, durante o período do PREC, comparando-as com o Estado Novo. Rui Ramos documenta centenas de detenções arbitrárias, torturas e violações de direitos humanos executadas por fações da esquerda militar aliadas ao PCP, tanto na metrópole como nas ex-colónias. O episódio demonstra como estas práticas, apesar de não definirem o regime democrático nascente, representaram uma tentativa de subversão autoritária até à sua derrota em 25 de Novembro de 1975.
Ideias principais
- Entre 1974 e 1975 houve centenas de prisões políticas em Portugal continental executadas por fações militares ligadas ao PCP e extrema-esquerda, a maioria sem mandatos válidos, com tortura documentada e períodos prolongados de incomunicabilidade.
- As prisões no ultramar durante o mesmo período foram ainda mais numerosas e serviram para reprimir a oposição aos movimentos independentistas a quem o MFA entregou o poder, incluindo a entrega de prisioneiros portugueses à FRELIMO e ao PAIGC.
- As autoridades militares revolucionárias operaram completamente à margem da legalidade, com o comandante do COPCON Otelo Saraiva de Carvalho a afirmar explicitamente que 'a lei somos nós' e que o COPCON funcionava 'como uma polícia política'.
- A Comissão de Averiguações criada em 1976 pelo Conselho da Revolução, já controlado pelo Grupo dos Nove, documentou exaustivamente os abusos e comparou o sistema de justiça militar português com o do Chile de Pinochet, classificando o período como de 'terrorismo' e 'não direito'.
- Ao contrário do Estado Novo, onde as prisões políticas definiam o regime, no pós-25 de Abril elas resultaram de uma tentativa de tomada de poder por minorias políticas que foi derrotada, sendo as próprias autoridades democráticas que investigaram e condenaram os abusos, ainda que seguidos de anistia geral.
Resumo do episódio
Este episódio de «E o Resto é História» é a segunda parte de uma conversa dedicada às prisões políticas ocorridas em Portugal após o 25 de Abril de 1974, durante o período revolucionário conhecido como PREC. Rui Ramos e João Miguel Tavares retomam o tema onde o tinham deixado na semana anterior, aprofundando agora a dimensão ultramarina das detenções e as condições em que os presos foram mantidos.
Rui Ramos começa por esclarecer que o número de presos políticos não se limitava ao Portugal metropolitano. Nas então chamadas províncias ultramarinas existiam cerca de dois mil presos - número que outras fontes elevam a mais de quatro mil -, muitos dos quais eram guerrilheiros capturados em operações militares, tratando-se portanto de prisioneiros de guerra. Mais significativo ainda é o facto de, após o 25 de Abril, as autoridades militares portuguesas terem continuado e até intensificado as detenções em África. Em Cabo Verde, 58 pessoas foram presas e enviadas para o campo do Tarrafal em dezembro de 1974, sob a acusação de ligações à PIDE, mas na realidade eram políticos que se opunham à entrega do território ao PAIGC. Em Moçambique, a líder independentista Joana Simeão foi presa pelas autoridades portuguesas e entregue à FRELIMO, que a submeteu a torturas e a um julgamento popular, vindo a ser assassinada algures entre 1977 e 1980. O objetivo destas prisões em África era, segundo Rui Ramos, desmobilizar a oposição aos movimentos a quem o MFA entregou o poder local.
Na metrópole, as detenções eram ordenadas por múltiplas entidades - o COPCON, o gabinete do primeiro-ministro, a Assembleia do MFA, o Conselho da Revolução e comandantes militares regionais -, frequentemente a pedido do PCP e de partidos de extrema-esquerda, que chegaram a apresentar listas de pessoas a deter com base nas suas «ideias reacionárias». Os presos eram detidos sem mandato regular, à noite, por militares à civil com armas de guerra, sem lhes ser comunicada a acusação, sujeitos a longos períodos de incomunicabilidade e sem acesso a advogados. No Regimento de Artilharia de Lisboa registaram-se espancamentos, choques elétricos, tortura da estátua e abusos sexuais. Houve pelo menos uma morte por falta de assistência médica, a do engenheiro José Joaquim Pedroso Santos, falecido em Caxias em dezembro de 1974. De centenas de presos, apenas 44 chegaram a ser formalmente processados.
O episódio documenta ainda as declarações do comandante do COPCON, Otelo Saraiva de Carvalho, que em janeiro de 1975 admitiu abertamente que o COPCON funcionava como uma polícia política e que a lei eram eles próprios. A partir de meados de 1975, a contestação cresceu: o episcopado protestou, o deputado socialista António Arnaut censurou na Assembleia Constituinte a violação dos direitos fundamentais, e a jornalista Oriana Fallaci confrontou Álvaro Cunhal com o tema, obtendo a resposta de que havia menos presos do que «deveria haver». Após o 25 de Novembro de 1975 e a derrota da esquerda militar, os presos foram libertados e o Conselho da Revolução criou, em janeiro de 1976, uma Comissão de Averiguações que reconheceu formalmente a existência de um «quadro histórico de terror» e de uma «situação de não direito». O relatório foi publicado em novembro de 1976, mas nunca deu origem a procedimentos penais, por força de uma amnistia entretanto decretada.
Na parte final, os apresentadores discutem o alcance e os limites da comparação entre as prisões do Estado Novo e as do PREC. Rui Ramos reconhece semelhanças - desrespeito das garantias processuais, torturas, tribunais especiais -, mas sublinha diferenças estruturais decisivas: no Estado Novo, as prisões políticas eram constitutivas do regime; no período revolucionário, representavam a tentativa de algumas fações minoritárias de subverter uma democracia que estava simultaneamente a funcionar, com eleições livres e partidos em atividade. A prova mais eloquente desta diferença, conclui Rui Ramos, é que foram as próprias autoridades militares - depois de afastados os sectores conotados com o PCP e a extrema-
Personagens
- Rui Moreira
- Tomás Moreira
- António de Spínola
- Vasco Gonçalves
- Otelo Saraiva de Carvalho
- Álvaro Cunhal
- Mário Soares
- Salgado Zenha
- Magalhães Mota
- Costa Gomes
- Ramalho Eanes
- Rosa Coutinho
- Manuel Monge
- Joana Simeão
- Urias Simango
- Lázaro Cavandame
- Oriana Fallaci
- António Arnaut
- Artur Agostinho
- António Maria Pereira
- Manuel Castelo Branco
- Pedro Jorge Castro
- Sandra Inês da Cruz
- Marcelino Mata
- José Joaquim Pedroso Santos
- Francisco Sá Carneiro
- Francisco Pinto Balsemão
- Augusto Pinochet
Lugares/Países
- Portugal
- Angola
- Moçambique
- Guiné-Bissau
- Cabo Verde
- Brasil
- Chile
- Itália
Épocas
- Estado Novo
- Revolução de 25 de Abril
- PREC
- Guerra Colonial
- Terceira República
Temas
- prisões políticas
- tortura
- direitos humanos
- revolução
- descolonização
- democracia
- ditadura
- repressão política
- legalidade revolucionária
- justiça militar
- movimentos independentistas
Eventos
- 25 de Abril de 1974
- 28 de Setembro de 1974
- 11 de Março de 1975
- 25 de Novembro de 1975
- 7 de Setembro de 1974
Guerras e conflitos
- Guerra Colonial Portuguesa
Livros recomendados
- Tarrafal 1975: O Campo do Silêncio
- O Terramoto de 1975
- Até na Prisão Fui Roubado
- A Burla do 28 de Setembro
- Cinco Meses Mudaram Portugal
Livros citados
- Relatório da Comissão de Averiguação de Violências sobre Presos