Nº 31018 de junho de 202540:14análise histórica
Pol Pot, a maior máquina de matar do século XX
O episódio analisa a tomada do poder pelos Khmer Vermelhos no Camboja em abril de 1975 e o subsequente genocídio perpetrado por Pol Pot entre 1975 e 1979. Rui Ramos explica como um pequeno grupo de intelectuais comunistas formados em Paris conseguiu, aproveitando o contexto da Guerra do Vietname, instaurar um regime totalitário que eliminou cerca de um quarto da população cambodjana através de massacres, trabalhos forçados, fome e destruição sistemática da sociedade. O episódio termina com a invasão vietnamita de 1978 e as complexas consequências políticas até aos julgamentos do século XXI.
Ideias principais
- Os Khmer Vermelhos eram inicialmente apenas 2 mil pessoas em 1965, mas aproveitaram a Guerra do Vietname e a aliança com o príncipe Sihanouk para chegarem ao poder em 1975, contando sobretudo com o apoio militar vietnamita e a retirada americana.
- O regime de Pol Pot implementou o 'Ano Zero', transformando o Camboja num Estado esclavagista onde toda a população foi forçada a trabalhos rurais sem salário, famílias foram destruídas, crianças separadas dos pais e qualquer pessoa com educação ou qualificações foi sistematicamente eliminada.
- Entre 1975 e 1979, cerca de um quarto da população cambodjana morreu: meio milhão a um milhão em massacres diretos e outro milhão de fome, exaustão e maus-tratos, com mais de 20 mil valas comuns descobertas até hoje.
- A comunidade internacional não condenou fortemente o genocídio porque o Ocidente tendia a desculpar regimes comunistas pós-coloniais como reação ao imperialismo americano, e porque a invasão vietnamita de 1978 colocou a questão geopolítica da influência soviética acima da denúncia humanitária.
- Os antigos Khmer Vermelhos pró-vietnamitas continuam a dominar o Camboja até hoje através do Partido do Povo, com Hun Sen no poder de 1985 a 2023 e sucedido pelo filho, enquanto os julgamentos pelos massacres só começaram em 2006 e terminaram em 2022.
Resumo do episódio
Este episódio de "E o Resto é História" conclui uma série de dois episódios dedicados ao Camboja, centrando-se na ascensão ao poder dos Khmer Vermelhos e no regime de Pol Pot, que eliminou cerca de um quarto da população cambojana entre 1975 e 1979. Rui Ramos e João Miguel Tavares partem de uma questão simples mas perturbante: como é que um punhado de intelectuais marxistas formados em Paris, com apenas dois mil apoiantes em meados dos anos 1960, conseguiu tomar o poder numa nação inteira dez anos depois?
A resposta está, em grande medida, na Guerra do Vietname. O Vietname do Norte usava o território cambojano como corredor de infiltração para atacar o Sul, o que arrastou o Camboja para o conflito. O príncipe Sihanouk, que governava o país como chefe de Estado de uma monarquia singular - tendo abdicado do título de rei para assumir este papel -, tentou equilibrar-se entre os dois lados, tolerando ora os norte-vietnamitas ora os americanos. Esse jogo duplo irritou os militares conservadores cambojanos, que o derrubaram em 1970 com apoio dos Estados Unidos, instaurando a República do Camboja. Em resposta, Sihanouk exilou-se e aliou-se precisamente aos Khmer Vermelhos que antes procurara cooptar, formando uma Frente de Unidade Nacional. Pol Pot aproveitou esta frente para expandir o seu movimento, passando de dois mil para quarenta mil combatentes em poucos anos, sendo que a maioria destes lutava na crença de que estava a defender o regresso do príncipe, ignorando os objetivos comunistas da liderança. O colapso militar da República do Camboja - precipitado pelo corte do apoio americano e pelo reforço soviético e chinês ao Vietname do Norte - abriu caminho para a tomada de Phnom Penh em abril de 1975.
Uma vez no poder, o regime manteve inicialmente a ficção da frente nacional, com Sihanouk como chefe de Estado. Mas em 1976, Pol Pot descartou essa fachada e o Partido Comunista assumiu o controlo total. Seguiu-se aquilo que os apresentadores descrevem como um Estado esclavagista: toda a população foi forçada a trabalhar na agricultura, o dinheiro foi abolido, as pessoas recebiam apenas rações de arroz, não podiam deslocar-se, eram submetidas a sessões diárias de autocrítica coletiva, e as crianças a partir dos sete anos eram separadas das famílias e entregues a orfanatos do partido. As cidades foram esvaziadas - incluindo os hospitais -, e Phnom Penh ficou com menos de trinta mil habitantes. O objetivo declarado era a autossuficiência agrícola como ponto de partida para uma eventual industrialização, mas a prática traduziu-se num massacre sistemático: pessoas com qualificações académicas, funcionários, membros de famílias abastadas foram selecionados e executados. Mais de vinte mil valas comuns já foram identificadas no país. Estima-se que entre meio milhão e um milhão de pessoas foram abatidas, e outro milhão terá morrido de fome, exaustão e maus-tratos.
A ausência de uma condenação internacional robusta explica-se por vários fatores. O Camboja tornou-se um país fechado, sem jornalistas nem cobertura mediática. Além disso, no Ocidente, muita gente atribuía os males da Indochina exclusivamente à intervenção americana, e qualquer denúncia proveniente de Washington era descartada como propaganda. Em Portugal, a queda de Phnom Penh foi inclusivamente celebrada por sectores da esquerda em 1975. A invasão vietnamita de dezembro de 1978, que derrubou Pol Pot em duas semanas, foi paradoxalmente condenada pela China e pelos Estados Unidos, pois o Vietname era aliado soviético - tornando a geopolítica da Guerra Fria mais importante do que o reconhecimento do massacre.
Pol Pot refugiou-se na Tailândia, lançou uma nova guerrilha com apoio chinês e até 1981 continuou a liderar os Khmer Vermelhos, antes de declarar o abandono do marxismo-leninismo em favor de um nacionalismo anticomunista. Morreu em 1998, sem ter sido julgado. Os julgamentos dos últimos dirigentes só começaram em 2006, sob pressão internacional, e prolongaram-se até 2022. Entretanto, o Camboja foi sendo governado por Hun Sen - ele próprio um antigo Khmer Verm
Personagens
- Pol Pot
- Norodom Sihanouk
- Khieu Samphan
- Ho Chi Minh
- Hun Sen
- Mao Tsé-Tung
- Joseph Stalin
Lugares/Países
- Camboja
- Vietname
- Vietname do Norte
- Vietname do Sul
- China
- França
- Estados Unidos
- União Soviética
- Tailândia
- Grã-Bretanha
- Portugal
- Indochina
Épocas
- século XX
- anos 60
- anos 70
- anos 80
- anos 90
- século XXI
Temas
- comunismo
- genocídio
- revolução
- guerra civil
- ditadura
- trabalhos forçados
- escravatura
- guerrilha
- ocupação militar
- purgas políticas
- fome
- coletivização
- propaganda
- exílio
- conflito ideológico
Eventos
- tomada do poder dos Khmer Vermelhos
- evacuação de Phnom Penh
- Ano Zero
- invasão vietnamita do Camboja
- queda do muro de Berlim
- restauração da monarquia cambodjana
- julgamentos dos Khmer Vermelhos
Guerras e conflitos
- Guerra do Vietname
- Guerra Civil Cambodjana