Nº 4627 de maio de 202041:56resposta a ouvintes
Por que foram os judeus expulsos de Portugal?
O episódio explora a expulsão e conversão forçada dos judeus sefarditas em Portugal no final do século XV, contextualizando as razões religiosas e políticas desta perseguição. Aborda também a distinção entre judeus sefarditas e ashkenazis, a abolição da pena de morte em Portugal no século XIX, e a breve presença portuguesa nas Maldivas no século XVI. Rui Ramos argumenta que a intolerância religiosa do século XV reflectia uma nova religiosidade intensa e a procura de homogeneidade confessional nos estados europeus.
Ideias principais
- Os judeus sefarditas constituíram a maior comunidade judaica do mundo na Idade Média, estabelecidos na Península Ibérica, enquanto os ashkenazis representam hoje 80% dos judeus mundiais após migrações para a Europa Central e de Leste.
- A expulsão de 1496 por D. Manuel I não foi uma expulsão tradicional mas uma conversão forçada, sendo os judeus que não saíssem até determinada data automaticamente considerados cristãos, criando o problema dos cristãos-novos e do cripto-judaísmo.
- A perseguição aos judeus no século XV deveu-se a uma nova religiosidade intensa e individual que antecipou as reformas protestante e católica, e à tentativa dos estados criarem homogeneidade religiosa nas suas populações, não apenas homogeneidade nacional ou étnica.
- Portugal aboliu a pena de morte gradualmente desde 1846 (última execução) até 1867 (abolição legal civil), sendo pioneiro na Europa, ao contrário de Inglaterra onde era popular e só foi abolida em 1969, tendo sido aplicada a 200 crimes diferentes no século XVIII.
- A presença portuguesa nas Maldivas (1558-1573) foi breve e motivada pelo controlo de rotas marítimas no Índico, terminando com uma revolta da população muçulmana contra o sultão convertido ao cristianismo, reflectindo a natureza itinerante e flexível do império oriental português.
Resumo do episódio
Este episódio de *E o Resto é História* parte de um debate então em curso sobre as alterações à lei da nacionalidade portuguesa e o direito dos descendentes de judeus sefarditas a obter cidadania, para explorar a questão histórica de fundo: quem eram estes judeus e por que razão foram perseguidos e expulsos da Península Ibérica nos séculos XV e XVI?
Rui Ramos começa por explicar o significado do termo "sefardita": provém de *Sefarad*, palavra hebraica medieval para a Península Ibérica, tal como *Ashkenaz* designava a Alemanha e dava nome aos judeus da Europa Central e do Leste, e *Mizrahi* se referia ao Oriente Médio e Norte de África. Estas não são meras etiquetas geográficas - correspondem a culturas distintas, visíveis na língua (os sefarditas falavam ladino, próximo do castelhano e do português; os ashkenazis falavam ídiche, próximo do alemão), nos ritos e nos costumes. Na Idade Média, os sefarditas constituíam a maior comunidade judaica do mundo, sinal de que a Península Ibérica albergou durante séculos um judaísmo florescente. A posterior inversão demográfica, com os ashkenazis a tornarem-se maioria, reflecte exactamente as vagas de perseguição e diáspora que forçaram estas populações a deslocar-se para leste. Um pormenor evocativo ilustra a força desta memória: famílias sefarditas da Turquia terão guardado, durante séculos, a chave das casas de que foram expulsas na Península Ibérica.
Quanto à expulsão de Portugal, os apresentadores sublinham que o decreto de D. Manuel I, em 1496, não foi tecnicamente uma expulsão, mas uma conversão forçada - quem não saísse até ao prazo fixado seria considerado cristão. Este tipo de medida não era inédito: os judeus tinham já sido expulsos de Inglaterra em 1290 e de França no século XIV, e tinham sofrido perseguições na Península Ibérica tanto no período visigótico como sob os Almorávidas. O que importa perceber é o que tornou o século XV um ponto de viragem. Rui Ramos aponta duas razões principais. A primeira é uma nova e intensa religiosidade que percorre toda a Europa e antecipa as reformas protestante e católica do século XVI: os europeus deixam de se contentar com um cristianismo exterior e formal e passam a exigir uma fé individual e vivida, com dimensão milenarista - a ideia de que é preciso purificar a comunidade cristã antes do fim dos tempos. Esta lógica não visava apenas os judeus; após a Reforma, os próprios cristãos se perseguiram entre si com violência comparável ou superior, como demonstra o massacre de São Bartolomeu em França, em 1572. A segunda razão é política: os monarcas começam a procurar uma homogeneidade nas comunidades sobre as quais exercem a soberania - não ainda uma homogeneidade étnica ou nacional, mas religiosa. Um rei católico quer ser rei de católicos. Antes do século XV, os reis aragoneses chegavam a jurar que não forçariam ninguém a converter-se; agora, a lógica inverte-se. O problema imediato não era tanto os judeus declarados, mas os *cristãos-novos*, suspeitos de praticar criptojudaísmo, e a presença das comunidades judaicas era vista como factor de "contaminação" desta conversão frágil.
O episódio inclui ainda dois blocos temáticos mais breves em resposta a perguntas de ouvintes. O primeiro aborda a eventual cumplicidade de Salazar na fuga de nazis para a América do Sul após 1945: Rui Ramos reconhece que Lisboa foi um ponto de passagem, mas considera que o seu papel foi menor do que o das rotas pela Espanha, Áustria e Itália, e sublinha que nenhum dos grandes dirigentes nazis escapou, sendo o destino final - nomeadamente a Argentina de Perón - mais relevante do que os países de trânsito. O segundo bloco responde a uma pergunta sobre a última execução civil em Portugal e a crueldade dos métodos de enforcamento, o que serve de mote para uma comparação alargada entre Portugal e Inglaterra: enquanto em Inglaterra a pena de morte foi aplicada a centenas de crimes até ao século XIX e só abolida em 1969, Portugal suspendeu as execuções em 1846 e aboliu a pena de morte em 1867, numa transição facilitada pelo facto de a pena nunca ter sido particularmente popular nem frequente no país. O episódio
Personagens
- D. Manuel I
- Martin Borbem
- Juan Perón
- Pierre Laval
- Adolf Eichmann
- Klaus Barbie
- Almirante Horthy
- D. Maria I
- José Joaquim (José Grande)
- Diogo Alves
- D. João VI
- Marquês de Pombal
- D. José I
- Vitor Hugo
- Hassan IX (Dom Manuel)
- Mestre de Avis
- Andeiro
- Fernanda Olival
- Irico Fratini e Salvoeiro
- Tânia Pereirinha
- Tristão da Cunha
- Salazar
Lugares/Países
- Portugal
- Espanha
- Inglaterra
- França
- Alemanha
- Turquia
- Norte de África
- Polónia
- Ucrânia
- Israel
- Sacro Império Romano-Germânico
- Al-Andalus
- Médio Oriente
- Argentina
- Bolívia
- Áustria
- Itália
- Hungria
- Goa
- Brasil
- Maldivas
- Índia
- África
- Jerusalém
- Constantinopla
Épocas
- Idade Média
- século XV
- século XVI
- século XI
- século XVIII
- século XIX
- século XX
- Idade Moderna
- século VI
- século VII
- século XII
- Revolução Francesa
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Fria
- Estado Novo
- época dos Descobrimentos
Temas
- religião
- intolerância religiosa
- expulsão
- conversão forçada
- Inquisição
- cripto-judaísmo
- perseguição
- diáspora
- tolerância
- nacionalidade
- cristianismo
- islamismo
- judaísmo
- reforma protestante
- milenarismo
- pena de morte
- abolicionismo
- execução
- enforcamento
- guilhotina
- deportação
- evangelização
- império marítimo
- rotas marítimas
- colonização
Eventos
- expulsão dos judeus de Portugal (1496)
- expulsão dos judeus de Inglaterra (1290)
- perseguições na Península Ibérica
- conversão forçada de judeus
- revolta de Lisboa (1383)
- Cruzadas (1096)
- Massacre de São Bartolomeu (1572)
- conquista de Constantinopla (1453)
- atentado contra D. José (1758)
- processo dos Távoras (1759)
- revolta do Porto (1757)
- execução de José Joaquim (1846)
- execução de Diogo Alves (1841)
- abolição da pena de morte em Portugal (1867)
- estabelecimento português nas Maldivas (1558)
- expulsão das Maldivas (1573)
Guerras e conflitos
- Cruzadas
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Fria
- Guerrilha do Remexido
Livros citados
- livro sobre a execução de Diogo Alves
- livro de Irico Fratini e Salvoeiro sobre a fuga dos nazis