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Nº 30804 de junho de 202555:08resposta a ouvintes

Por que não houve uma guerra fria após 1918?

O episódio responde à pergunta de um ouvinte sobre por que razão não se formou uma Guerra Fria após a Primeira Guerra Mundial, como aconteceu depois da Segunda. Rui Ramos explica que a União Soviética em 1918-1920 estava enfraquecida, isolada e derrotada militarmente pela Polónia, enquanto as potências ocidentais (França, Reino Unido e EUA) saíram financeira e demograficamente devastadas da guerra, sem interesse nem recursos para grande envolvimento continental. A desagregação dos impérios centrais criou um vazio geopolítico, não uma ameaça bipolar.

Ideias principais

  1. A Primeira Guerra Mundial enfraqueceu irreversivelmente as potências europeias: o Reino Unido passou de grande credor mundial a devedor, a França perdeu um quarto dos homens entre 18 e 27 anos, e ambos ficaram dependentes dos Estados Unidos
  2. A União Soviética em 1918-1920 não representava ameaça comparável à de 1945: estava isolada, empobrecida, com produção industrial 80% inferior a 1914, e foi militarmente destruída pela Polónia em 1920, impedindo expansão para o Ocidente
  3. Os Impérios Centrais (Alemanha, Áustria-Hungria, Otomano e Rússia) desintegraram-se, criando dez novos estados instáveis, com fronteiras disputadas, grandes minorias étnicas e uma cultura de violência generalizada que não distinguia civis de militares
  4. As tentativas revolucionárias comunistas na Europa (Alemanha, Áustria, Hungria, Itália) falharam todas em 1919-1920, sufocadas com grande violência, enquanto o fascismo italiano emergiu como reação mas sem parecer ameaçador fora de Itália até aos anos 30
  5. Os Estados Unidos, embora grande vencedor económico da guerra, adoptaram postura isolacionista por ideologia (manter governo federal pequeno) e confiança no poder financeiro, julgando poder controlar o mundo através de Wall Street sem compromissos militares diretos

Resumo do episódio

Este episódio do podcast *E o Resto é História* parte de uma pergunta enviada por um ouvinte - João Maria Barreto Guimarães - que se interroga sobre por que razão não emergiu uma guerra fria na Europa logo após o fim da Primeira Guerra Mundial, em 1918, ao contrário do que aconteceu depois de 1945. Rui Ramos e João Miguel Tavares tomam a questão como ponto de partida para uma análise comparativa das duas situações, identificando as razões estruturais que tornaram impossível, ou pelo menos improvável, a formação de dois blocos antagónicos no rescaldo da Grande Guerra.

A primeira grande explicação prende-se com o estado de exaustão das potências vencedoras. A França e o Reino Unido saíram da guerra demograficamente dizimadas e financeiramente arruinadas. O Reino Unido, que em 1914 era o maior credor mundial, tornara-se devedor; a libra perdera 60% do seu valor; e 40% das despesas do Estado iam para o pagamento de juros. A França perdera um quarto dos seus homens jovens. A isso somou-se a epidemia de gripe de 1918, que agravou ainda mais as perdas humanas. Nestas circunstâncias, havia um profundo desejo de retirada e não de projecção de poder. O Reino Unido viu ainda os seus domínios - Canadá, Austrália, Nova Zelândia, África do Sul - consolidarem a independência, e o Partido Trabalhista, de tendência pacifista, emergiu como alternativa de governo.

A segunda razão é a ausência de uma ameaça credível a leste. Em 1945, a União Soviética ocupava metade da Europa com um exército gigantesco. Em 1918-1919, o quadro era radicalmente diferente: os grandes impérios inimigos - alemão, austro-húngaro, otomano e russo - tinham desmoronado em revoluções e convulsões. A Alemanha estava sujeita a um bloqueio aliado que provocou fome e mortalidade excessiva. O regime bolchevique de Lenin, instalado com apoio alemão em 1917, enfrentava uma guerra civil devastadora: a produção industrial na área sob controlo soviético caíra 80% e a população diminuíra cerca de dez milhões de pessoas. Quando o Exército Vermelho tentou expandir-se para ocidente em 1920, foi esmagado pela Polónia recém-independente, que capturou ou eliminou mais de 120 mil soldados soviéticos. Esta derrota confinava a União Soviética muito longe do centro da Europa. Nos países da Europa Central, as tentativas de revolução de tipo soviético - em Berlim, Munique, Viena, Budapeste - foram todas sufocadas militarmente em 1919, muitas vezes com enorme violência.

Quanto aos Estados Unidos, os apresentadores sublinham que, ao contrário de 1945, não existia em 1919 uma ameaça percepcionada que justificasse manter uma presença activa na Europa. O presidente Wilson, o político mais internacionalista, ficou incapacitado por doença. Os Estados Unidos promoveram a Sociedade das Nações e depois recusaram aderir a ela. Prevaleceu uma lógica segundo a qual o poder financeiro americano - a dependência europeia do crédito de Wall Street - era suficiente para exercer influência sem necessidade de compromissos militares ou diplomáticos directos. Tratava-se também de uma opção ideológica: envolver-se demasiado no mundo implicaria expandir o governo federal, o que contrariava o modelo republicano americano.

Os apresentadores descrevem ainda o caos que se instalou no espaço dos impérios desaparecidos: dez novos Estados com fronteiras disputadas, minorias étnicas enormes, guerras locais como a greco-turca de 1919-1922, perseguições de judeus, ditaduras militares e uma cultura generalizada de violência em que a distinção entre combatentes e civis desapareceu. A isto acrescentou-se uma crise financeira profunda, com hiperinflação na Alemanha nos anos 20 e o empobrecimento das classes médias, que as tornaram receptivas ao comunismo e ao fascismo. Só a partir de 1923-1924, com políticas de austeridade e investimento americano, se alcançou uma estabilidade frágil - a prosperidade dos "Roaring Twenties" -, que o colapso de Wall Street em 1929 viria a destruir, abrindo caminho para os anos 30 e para a Segunda Guerra Mundial.

Personagens

  • Winston Churchill
  • Lenin
  • Trotsky
  • Stalin
  • Benito Mussolini
  • Woodrow Wilson
  • Harry Truman
  • F. Scott Fitzgerald

Lugares/Países

  • Alemanha
  • França
  • Reino Unido
  • Inglaterra
  • Rússia
  • União Soviética
  • Estados Unidos
  • Polónia
  • Áustria
  • Hungria
  • Império Austro-Húngaro
  • Império Otomano
  • Turquia
  • Itália
  • Checoslováquia
  • Finlândia
  • Estónia
  • Letónia
  • Lituânia
  • Jugoslávia
  • Sérvia
  • Roménia
  • Grécia
  • Ucrânia
  • Bielorrússia
  • Irlanda
  • Canadá
  • Austrália
  • Nova Zelândia
  • África do Sul
  • Palestina
  • Transjordânia
  • Iraque
  • Síria
  • Líbano
  • Sibéria
  • Cáucaso
  • Baviera
  • Báltico
  • Vladivostok
  • Médio Oriente
  • Europa Ocidental
  • Europa Oriental
  • Ásia Menor
  • Portugal

Épocas

  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Fria
  • anos 20
  • anos 30
  • século XIX
  • século XVIII
  • 1918
  • 1919
  • 1920
  • 1921
  • 1922
  • 1923
  • 1924
  • 1925
  • 1929
  • 1931
  • 1933
  • 1939
  • 1945
  • 1914
  • 1917
  • Roaring Twenties

Temas

  • guerra
  • diplomacia
  • revolução
  • comunismo
  • fascismo
  • economia
  • finanças internacionais
  • hiperinflação
  • colonialismo
  • imperialismo
  • autodeterminação nacional
  • minorias étnicas
  • conflitos étnicos
  • massacres
  • limpeza étnica
  • bloqueio naval
  • fome
  • epidemia
  • desmobilização
  • reparações de guerra
  • pacifismo
  • isolacionismo

Eventos

  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Fria
  • Conferência de Paz de Paris
  • Tratado de Paz de Versalhes
  • Guerra Civil Russa
  • Revolução Russa
  • Revolução Bolchevique
  • Guerra Greco-Turca
  • Gripe Espanhola
  • Grande Depressão
  • Crise de Wall Street
  • Cortina de Ferro

Guerras e conflitos

  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Civil Russa
  • Guerra Civil Finlandesa
  • Guerra Greco-Turca
  • Guerra Húngaro-Romena
  • Guerra Civil Alemã
  • Guerra Fria

Livros citados

  • The Great Gatsby