Nº 24810 de abril de 202443:37resposta a ouvintes
Porque é que a cultura francesa dominava Portugal?
O episódio responde à pergunta de um ouvinte sobre a famosa frase de Eça de Queiroz de que Portugal era "um país traduzido do francês". Rui Ramos traça a evolução das línguas estrangeiras em Portugal desde o latim medieval, passando pelo castelhano, até à hegemonia do francês entre os séculos XVII e XX, explicando que esta influência não era única de Portugal mas comum a toda a Europa. O francês foi substituído pelo inglês apenas na segunda metade do século XX, não devido à Inglaterra, mas à influência cultural e tecnológica dos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial.
Ideias principais
- Até ao século XX, o francês era a língua franca de toda a Europa culta, não apenas de Portugal, sendo a língua da diplomacia, da aristocracia e da vida intelectual desde o século XVII.
- A hegemonia do francês explica-se pelo peso demográfico, militar e cultural da França, sendo Paris o centro intelectual europeu onde se faziam e desfaziam reputações, como evidenciado pelos casos de Kant e Nietzsche que só se tornaram conhecidos quando traduzidos em francês.
- A aliança política e comercial de Portugal com a Inglaterra desde o século XVII não se traduziu em influência cultural anglófona, demonstrando que poder económico e militar não implica automaticamente hegemonia cultural.
- A substituição do francês pelo inglês na segunda metade do século XX deve-se aos Estados Unidos e não à Inglaterra, através do Plano Marshall, da indústria do entretenimento, da ciência e tecnologia, e da globalização económica.
- Portugal teve vantagem na aprendizagem do inglês por não dobrar filmes e séries, ao contrário de Espanha e Itália, criando uma exposição precoce à língua que facilitou a transição cultural quando o inglês se tornou dominante nos anos 1980-90.
Resumo do episódio
Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares respondem à pergunta de um ouvinte, o Vasco Jacinto, que queria perceber como se explica a dominância cultural francesa em Portugal ao longo dos séculos, sobretudo tendo em conta a aliança política e comercial histórica do país com a Inglaterra. A questão parte de uma célebre frase de Eça de Queirós, segundo a qual Portugal era "um país traduzido do francês", e serve de pretexto para uma longa viagem pela história das línguas estrangeiras em Portugal.
Os apresentadores começam por recuar até à Idade Média para traçar a evolução das línguas de prestígio em Portugal. O latim foi durante séculos a língua da escrita, do ensino e do culto religioso, funcionando como verdadeira língua franca da Europa erudita - o equivalente ao inglês de hoje. A língua estrangeira mais próxima dos portugueses era, porém, o castelhano, com o qual existia uma intensa circulação cultural e humana: rainhas castelhanas na corte portuguesa, nobres a circular entre os dois reinos, e autores como Camões e Gil Vicente a escreverem em castelhano. O facto de António Ferreira ter ficado conhecido precisamente por se recusar a escrever em castelhano diz muito sobre o quão comum era fazê-lo. A união dinástica entre Portugal e Castela, entre 1580 e 1640, reforçou ainda mais esta proximidade, embora de forma assimétrica e favorável a Portugal.
A mudança de orientação cultural ocorre a partir de meados do século XVII, quando a Restauração e a guerra com Espanha afastam Portugal do eixo ibérico e o aproximam das potências inimigas de Madrid - a Holanda, a Inglaterra e a França. Contudo, apesar desta aliança com Inglaterra, é o francês que se impõe como língua de prestígio, tanto em Portugal como em toda a Europa. Os apresentadores explicam porquê: a França era a maior potência militar e demográfica da Europa Ocidental, com cerca de 30 milhões de habitantes por volta de 1800, e Luís XIV havia tornado Versalhes o modelo de vida aristocrática que todas as outras cortes imitavam. Paris era a maior cidade do continente, sede das academias, dos teatros, das editoras e, no século XIX, o grande centro intelectual europeu, donde irradiavam as modas em literatura, filosofia, ciência, cozinha e vestuário. A aristocracia russa falava francês entre si - como Tolstói documenta em Guerra e Paz -, escritores alemães como Kant e Nietzsche tornavam-se conhecidos na Europa quando eram traduzidos e comentados em Paris, e o francês era a língua oficial da diplomacia europeia desde os inícios do século XVIII. Portugal não era, portanto, um caso singular: era um país como quase todos os outros.
Rui Ramos sublinha que esta hegemonia francesa se manteve em Portugal até bem tarde. Em 1974, o francês ainda era a língua estrangeira obrigatória no ensino secundário, e a vida intelectual portuguesa acompanhava o ritmo de Paris: políticos como Mitterrand, Marchais ou Rocard eram nomes familiares para os leitores de jornais portugueses. Fernando Pessoa era uma excepção curiosa, com uma formação anglófona fruto dos anos passados na África do Sul. A substituição do francês pelo inglês começa na década de 1980, mas não por causa da Inglaterra - deve-se aos Estados Unidos, que após a Segunda Guerra Mundial se tornaram o grande centro mundial de ciência, tecnologia, organização empresarial e entretenimento. O Plano Marshall foi um vector decisivo desta americanização da Europa. Em Portugal, o facto de os filmes e séries de televisão não serem dobrados, ao contrário do que acontecia em Espanha e Itália, acelerou a exposição ao inglês e explica a relativa facilidade com que os portugueses comunicam hoje nessa língua. As estatísticas do ensino são elucidativas: em 1974, cem por cento dos alunos do ciclo preparatório estudavam francês; em 2005, apenas um por cento.
O episódio termina com uma nota sobre o castelhano, cuja presença no ensino secundário português só se generalizou após a integração na União Europeia em 1986, à medida que a Espanha deixou de ser o país de "costas voltadas" e se tornou o principal parceiro comercial de Portugal. Os apresentadores observam, com alguma ironia, que os portugueses continuam a fiar-se no "portenhol" e que os espanhóis, ao contrário dos portugueses com o castelhano, têm genuína dificuldade em compreender o português europeu - dific
Personagens
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Temas
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Eventos
- Restauração de 1640
- invasões francesas
- Revolução Francesa
- Segunda Guerra Mundial
- Plano Marshall
- integração europeia de 1986
Guerras e conflitos
- guerra com Espanha (1640-1668)
- guerras napoleónicas
- invasão da Rússia por Napoleão (1812)
- campanhas de Luís XIV
Livros citados
- Guerra e Paz (Tolstói)
- Os Maias (Eça de Queiroz)
- Castro (António Ferreira)
- Cantigas de Santa Maria (Afonso X)