Nº 23220 de dezembro de 202344:17resposta a ouvintes
Porque é que a Galiza nunca foi portuguesa?
O episódio explora as razões históricas pelas quais a Galiza nunca se integrou em Portugal, apesar das profundas afinidades linguísticas e culturais. Rui Ramos identifica cinco factores de separação: a rejeição pela nobreza portugalense da influência galega no século XII, a separação eclesiástica entre Braga e Compostela, a oposição dos reis de Leão e Castela, a expansão portuguesa para sul (que deslocou o centro do reino) e a integração da Galiza em Castela com adopção do castelhano como língua erudita.
Ideias principais
- Portugal nasceu contra a Galiza: a Batalha de São Mamede (1128) foi uma rejeição pelos nobres do Entre-Douro-e-Minho da política galeguista de D. Teresa, marcando a primeira separação antes mesmo da independência formal.
- O Condado Portugalense uniu-se ao Condado de Coimbra (sul do Douro) antes de se tornar independente, deslocando o centro político para sul e afastando-o da Galiza desde o início.
- A separação linguística consolidou-se quando o galego deixou de ser língua escrita (séculos XV-XIX) e o português evoluiu como língua de corte em Lisboa, tornando-se tão diferente do galego quanto o português do Brasil do de Portugal.
- Os reis de Portugal nunca tentaram conquistar a Galiza; quando tiveram ambições ibéricas, visaram sempre Castela, não a Galiza, vista como parte integrante do reino rival.
- No século XVI, Portugal completou a 'lusitanização' da sua identidade ao esquecer as origens na Galécia romana e adoptar a Lusitânia como matriz identitária, como evidencia Camões nos Lusíadas.
Resumo do episódio
## Porque é que a Galiza nunca foi portuguesa?
Este episódio parte de uma pergunta enviada por uma ouvinte, Vanda Mesquita, que descreve a familiaridade que sente ao atravessar a fronteira para a Galiza e o facto de muitos galegos afirmarem ser "mais portugueses do que espanhóis". A pergunta que coloca é simples mas historicamente densa: o que impediu que a Galiza se tornasse portuguesa? Rui Ramos e João Miguel Tavares respondem que a questão pode ser invertida com igual pertinência - Portugal poderia igualmente ter sido absorvido pela Galiza - e estruturam a resposta em torno de vários fatores de separação que se foram sobrepondo ao longo dos séculos.
O ponto de partida é a profunda proximidade original entre os dois territórios. O noroeste peninsular formava, na época romana, a província da Galécia, com centros em Lugo, Astorga e Braga. As populações desta região desenvolveram uma forma de falar latim com características próprias - nomeadamente a queda das consoantes L e N entre vogais -, fenómeno que deu origem ao que viria a ser o galego-português. A paisagem, o povoamento disperso e os laços nobiliárquicos também eram partilhados. Ainda no final do século XII, o arcebispo de Braga tinha como dioceses dependentes territórios na Galiza, enquanto Lisboa e Évora dependiam eclesiásticamente de Compostela. A separação, portanto, estava longe de ser óbvia.
O primeiro grande fator de separação é político e militar. O Condado Portugalense, entregue pelo rei Afonso VI ao cavaleiro borgonhês D. Henrique, ficou distinto do Condado da Galiza, entregue ao primo D. Raimundo. Mais decisivo ainda foi o conflito que opôs D. Afonso Henriques à sua própria mãe, D. Teresa, viúva de D. Henrique. Esta tinha fortes ligações à família galega dos Travas e uma política de aproximação à Galiza, o que provocou a revolta dos nobres do entre-Douro-e-Minho. Esses nobres, que se identificavam como portugueses, apoiaram D. Afonso Henriques e derrotaram D. Teresa na Batalha de São Mamede, em 1128. Como sublinha Rui Ramos, Portugal nasceu antes de existir como reino, e nasceu de costas voltadas para a Galiza. Os próprios documentos da chanceleria de D. Afonso Henriques usavam o nome "Portugal" nos selos, em vez do nome do rei, num gesto que parece afirmar deliberadamente uma identidade própria.
A isto acrescentam-se outros fatores. O segundo é eclesiástico: o arcebispo de Braga trabalhou ativamente para se autonomizar de Compostela, e em 1148 reuniu um concílio de bispos portugueses que esboçava já uma espécie de jurisdição eclesiástica separada. O terceiro fator vem dos reis de Leão e Castela, que bloquearam sistematicamente qualquer expansão de Portugal para norte ou para leste - quando D. Afonso Henriques avançou sobre territórios galegos, foi travado militarmente, e em 1169, ao tentar conquistar Badajoz, foi capturado e obrigado a devolver tudo o que ganhara. O quarto fator resulta da própria expansão para sul: à medida que o reino se consolidava em Coimbra, Lisboa e no Algarve, o seu centro de gravidade afastava-se crescentemente da Galiza. O português falado em Lisboa, imposto pelas elites militares vindas do norte sobre populações que falavam árabe ou outras variantes do latim, foi desenvolvendo características próprias e tornando-se cada vez mais distante do galego.
Personagens
- Vanda Mesquita
- D. Afonso Henriques
- D. Teresa
- D. Henrique (Conde de Portucale)
- Afonso VI de Leão e Castela
- D. Raimundo da Borgonha
- Afonso VII de Leão e Castela
- João Fernandes Andeiro
- Mestre de Avis
- D. Fernando
- José Mattoso
- Camões
- Viriato
- D. Afonso V
- D. João II
- D. Manuel I
Lugares/Países
- Portugal
- Galiza
- Espanha
- Leão
- Castela
- Império Romano
- Reino de Leão e Castela
- Inglaterra
- França
- Argentina
- Uruguai
Épocas
- século XII
- século XI
- século XIII
- século XIV
- século XV
- século XVI
- século XVII
- século XVIII
- século XIX
- século XX
- Época Romana
- Reconquista
- Estado Moderno
Temas
- formação de estados
- fronteiras
- identidade nacional
- reconquista
- igreja e religião
- nobreza
- língua e linguística
- guerras medievais
- nacionalismo
- migração
- relações ibéricas
Eventos
- Batalha de São Mamede
- Reconquista de Porto Cale
- Conquista de Lisboa
- Conquista de Coimbra
- Conquista de Santarém
- Conquista de Badajoz
- Guerra de 1580
- Restauração de 1640
- Guerra de 1801
Guerras e conflitos
- Reconquista
- Guerra entre Portugal e Espanha (1801)
Livros citados
- Os Lusíadas