← Arquivo

Nº 16828 de setembro de 202247:23análise histórica

Porque é que a política italiana é tão complicada?

O episódio analisa as raízes históricas da aparente instabilidade política italiana, com 43 primeiros-ministros desde 1946, contrastando com a estabilidade de outros países europeus. Rui Ramos explica que a fragmentação partidária, a diversidade regional profunda (Norte industrial vs Sul agrário) e a unificação tardia (1861-1871) criaram um sistema de governo baseado em coligações instáveis de facções, que não significa necessariamente caos político mas sim uma forma específica de governação. Compara-se este modelo com o sucesso da Commonwealth britânica, cuja flexibilidade histórica e pragmatismo permitiram manter laços com antigas colónias através da monarquia como símbolo unificador.

Ideias principais

  1. A aparente confusão política italiana resulta de fragmentação partidária extrema (seis partidos com mais de 8% dos votos) e não de verdadeira instabilidade de políticas, com períodos longos de um mesmo primeiro-ministro presidindo a vários governos consecutivos.
  2. A Itália enfrenta uma 'questão do Mezzogiorno' desde a unificação: um terço da população vive no Sul subdesenvolvido, com 70% do desemprego nacional em 2014, criando duas Itálias profundamente distintas dentro do mesmo Estado.
  3. Entre 1946 e 1981, apesar de 38 governos em 35 anos, um só partido governou a Itália - a Democracia Cristã - cujas facções internas competiam constantemente provocando recomposições ministeriais sem alternância de poder real.
  4. O sucesso da Commonwealth britânica, com 56 países membros incluindo 15 monarquias sob a coroa britânica, deve-se à flexibilidade histórica do Império Britânico que nunca tratou colónias como simples extensões metropolitanas, ao contrário de Portugal e França.
  5. A capacidade britânica de variar estatutos imperiais (colónias, domínios, protetorados) permitiu transições graduais para independência mantendo laços privilegiados, enquanto os impérios português e francês, mais centralizados e rígidos, não conseguiram criar estruturas pós-coloniais comparáveis.

Resumo do episódio

Este episódio de *E o Resto é História* aborda dois temas distintos: a aparente instabilidade da política italiana e a natureza da Commonwealth britânica. O pretexto para o primeiro tema são as eleições legislativas italianas realizadas no fim de semana anterior à gravação, e a pergunta de partida é simples mas pertinente: porque é que a política italiana parece uma confusão permanente?

Rui Ramos começa por relativizar essa perceção. A fragmentação é real - nas eleições em causa, os dois partidos mais votados obtiveram juntos apenas 45% dos votos, contra 70% em Portugal -, mas a instabilidade governativa italiana é frequentemente mal interpretada. A Itália teve 43 primeiros-ministros desde 1946, mas isso não significa 43 alternâncias de poder. Entre 1946 e 1953, por exemplo, houve sete governos sucessivos com um único primeiro-ministro, Alcide De Gasperi. O mesmo padrão repete-se com Aldo Moro e Giulio Andreotti noutros períodos. Durante 35 anos, todos os governos italianos foram liderados pelo mesmo partido, a Democracia Cristã. O que se passava era uma negociação constante entre as suas múltiplas facções internas, que provocava remodelações e quedas de governo sem alterar o bloco de poder. O Japão funciona de forma análoga, dominado pelo Partido Liberal Democrata desde 1955, com governos de curta duração que raramente implicam mudança de políticas estruturais. A aparente instabilidade italiana esconde, paradoxalmente, uma grande inércia governativa: os governos mudam, mas as políticas raramente se transformam de forma significativa.

A partir de 1992-1994, com a Operação Mãos Limpas - que destruiu as lideranças da Democracia Cristã e do Partido Comunista Italiano - o sistema entrou numa fase de engenharia partidária permanente, com novos partidos a surgir e a desaparecer ciclicamente. Mas mesmo antes dessa ruptura, a instabilidade já era estrutural. Para explicar as suas raízes mais profundas, Rui Ramos recua à história da unificação italiana. No final do século XVIII, o território que hoje forma a Itália era composto por dez entidades políticas distintas - dois reinos, três repúblicas, quatro ducados e os estados papais. A unificação, concluída entre 1848 e 1871 sob liderança do Reino do Piemonte e da dinastia de Sabóia, foi alimentada pelo ideal do *Risorgimento* - a ressurreição de uma grande Itália herdeira de Roma. Esse ideal nunca se concretizou plenamente. O fosso entre o norte industrializado e o sul economicamente deprimido e com fraca presença do Estado nunca foi superado. Em 2014, dois terços dos desempregados italianos concentravam-se no Sul, onde vivia apenas um terço da população, e a qualidade de governação nessa região era a pior da Europa Ocidental. A Liga Norte surgiu precisamente como expressão política dessa fratura, chegando a defender abertamente a separação do norte. Acresce que a Itália teve uma história internacional marcada por frustrações repetidas - saiu da Primeira Guerra Mundial sem os territórios que ambicionava, e a aventura colonial e a aliança com Hitler na Segunda Guerra culminaram em derrota e guerra civil interna entre 1943 e 1945. A política italiana é, assim, o reflexo de uma sociedade fraturada regionalmente, ideologicamente dividida e com elites que nunca conseguiram realizar os grandes objetivos nacionais que tinham traçado.

A segunda parte do episódio responde a uma questão enviada por um ouvinte: como é que o Reino Unido construiu a Commonwealth, mantendo como seu rei o soberano de países independentes como a Austrália ou o Canadá, algo que Portugal ou a França nunca conseguiram replicar? Rui Ramos aponta dois fatores essenciais. O primeiro é a monarquia: um rei pode ser chefe de Estado de vários países independentes sem que isso ponha em causa a soberania de nenhum deles, algo que um presidente da república não consegue fazer. O segundo, e mais decisivo, é a flexibilidade histórica do império britânico. Ao contrário de Portugal, que tratava todos os seus territórios ultramarinos como províncias de um mesmo Estado unitário, ou da França, que considerou a Argélia um departamento francês até 1961, os britânicos nunca pretenderam que a Índia ou a Austrália fossem simplesmente a Grã-Bretanha. O império comportava colónias, domínios com parlamentos próprios desde meados do século XIX

Personagens

  • Alcide De Gasperi
  • Aldo Moro
  • Giulio Andreotti
  • Umberto Bossi
  • Matteo Salvini
  • Benito Mussolini
  • Isabel II
  • Carlos III
  • Nelson Mandela

Lugares/Países

  • Itália
  • Portugal
  • Alemanha
  • Japão
  • França
  • Reino Unido
  • Espanha
  • Canadá
  • Austrália
  • Nova Zelândia
  • Índia
  • África do Sul
  • Irlanda
  • Angola
  • Moçambique
  • Guiné-Bissau
  • Timor
  • Córcega
  • Catalunha
  • Escócia
  • Piemonte
  • Sicília
  • Veneza
  • Génova
  • Milão
  • Parma
  • Modena
  • Toscânia
  • Nápoles
  • Turim
  • Croácia
  • Montenegro
  • Sérvia
  • Albânia
  • Grécia
  • Argélia
  • Uruguai
  • Jamaica
  • Bahamas
  • Tuvalu
  • São Tomé e Príncipe

Épocas

  • século XIX
  • século XX
  • século XVIII
  • pós-Segunda Guerra Mundial
  • anos 1990
  • anos 1920
  • anos 1960
  • Antiguidade Clássica
  • Idade Média
  • Terceira República Francesa

Temas

  • política
  • sistemas políticos
  • instabilidade governamental
  • unificação nacional
  • imperialismo
  • colonialismo
  • descolonização
  • monarquia
  • república
  • corrupção
  • crime organizado
  • máfia
  • desenvolvimento regional
  • desigualdades económicas
  • fascismo
  • comunismo
  • democracia cristã
  • separatismo
  • coligações
  • fragmentação partidária
  • cultura
  • língua
  • Guerra Fria

Eventos

  • Operação Mãos Limpas
  • eleições italianas de 2022
  • unificação italiana
  • fundação da República Italiana
  • Risorgimento
  • queda do Muro de Berlim
  • fim da União Soviética
  • fundação da Commonwealth
  • independência da Índia
  • fim do Apartheid

Guerras e conflitos

  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • guerra civil italiana (1943-1945)