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Nº 23113 de dezembro de 202341:11resposta a ouvintes

Porque é que a Venezuela quer uma parte da Guiana?

O episódio explica a disputa territorial entre a Venezuela e a Guiana pela região de Esequibo, um território rico em petróleo que corresponde a dois terços da Guiana actual. Rui Ramos contextualiza historicamente a formação das várias Guianas (portuguesa, francesa, holandesa, britânica e espanhola) desde o século XVI, as sucessivas mudanças de soberania colonial, e como a indefinição de fronteiras na América do Sul levou a múltiplas guerras territoriais após as independências. A disputa específica do Esequibo remonta ao século XIX e foi aparentemente resolvida por arbitragem internacional em 1899, mas a Venezuela contesta o processo desde 1949.

Ideias principais

  1. A região das Guianas foi disputada por cinco potências europeias desde o século XVI, formando colónias distintas com populações extraordinariamente diversas incluindo europeus, africanos escravizados, indígenas e trabalhadores asiáticos importados após a abolição da escravatura.
  2. Ao contrário de África, onde as fronteiras coloniais foram definidas preventivamente na Conferência de Berlim, na América do Sul as fronteiras nunca foram claramente estabelecidas entre as potências europeias, gerando conflitos violentos após as independências no século XIX.
  3. A Guerra do Paraguai (1864-1870) foi um dos conflitos mais devastadores da história sul-americana, resultando na morte de 50% a 70% da população paraguaia, incluindo 90% dos homens, maioritariamente devido a combates e epidemias como o cólera.
  4. O tribunal de arbitragem internacional de 1899 atribuiu quase todo o território de Esequibo à Inglaterra, mas a Venezuela contesta a decisão desde 1949 após revelações de que o juiz russo árbitro terá sido comprado pelos britânicos, embora sem provas concretas.
  5. Portugal esteve envolvido nestas disputas territoriais sul-americanas, ocupando a Guiana Francesa em 1809 como retaliação pela invasão napoleónica e disputando com a França a fronteira do Amapá até 1895, conflito resolvido favoravelmente ao Brasil por arbitragem internacional.

Resumo do episódio

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares partem de um acontecimento recente - o referendo promovido pelo presidente venezuelano Nicolás Maduro sobre a eventual anexação do território do Essequibo, que corresponde a cerca de dois terços do território da Guiana - para explicar a história longa e intrincada desta disputa. A região, coberta de floresta tropical e com cerca de 160 mil quilómetros quadrados, voltou a ser cobiçada após a descoberta de grandes jazidas de petróleo que fizeram triplicar o PIB da Guiana nos últimos quatro anos.

Para situar o problema, Rui Ramos começa por descrever o chamado Planalto das Guianas, uma zona do norte da América do Sul delimitada pelo rio Amazonas a sul e leste e pelo rio Orinoco a oeste, onde se estabeleceram desde o século XVI várias potências europeias: portugueses, franceses, holandeses, britânicos e espanhóis. Cada uma criou a sua "Guiana", cujos herdeiros são hoje o estado brasileiro do Amapá, a Guiana Francesa, o Suriname, a Venezuela e a Guiana. Estas regiões partilham características curiosas: territórios vastos mas com populações escassas, concentradas nas cidades costeiras, e demografias extraordinariamente diversas, com descendentes de indígenas, africanos trazidos como escravos, europeus e asiáticos - indianos e javaneses importados como mão de obra após a abolição da escravatura no século XIX - o que explica a presença do hinduísmo e do islão nesta parte da América do Sul. Os apresentadores destacam ainda a comunidade de descendentes de madeirenses que chegou a representar 4% da população da Guiana Britânica no final do século XIX, dominando o pequeno comércio e a indústria do rum em Georgetown.

A história da Guiana Britânica propriamente dita começa com colónias holandesas - Essequibo, Demerara e Berbice - que no século XVIII já tinham uma maioria de colonos britânicos a explorar plantações de açúcar com recurso a mão de obra escrava africana. As guerras napoleónicas na Europa levaram a Inglaterra a ocupar estes territórios repetidamente, até que em 1814-1815, no reordenamento do pós-guerra, a Holanda os cedeu definitivamente à Grã-Bretanha, ficando com o Suriname. Em 1831, Londres uniu as três colónias na Guiana Britânica. A produção de açúcar dominou a economia local durante décadas, num processo associado ao grupo empresarial Booker - que deu nome ao célebre prémio literário Booker Prize e chegou a deter 64% dos direitos das obras de Agatha Christie.

O problema de fronteiras com a Venezuela surgiu precisamente porque espanhóis e holandeses nunca definiram claramente os seus limites coloniais, e os estados independentes que lhes sucederam herdaram essa ambiguidade. A Venezuela reclamava que a fronteira era o rio Essequibo; a Inglaterra expandiu a sua pretensão até ao rio Orinoco. A disputa foi submetida a um tribunal arbitral internacional em 1897, composto por juízes britânicos, americanos e um russo que funcionava como árbitro decisivo. Em 1899, a sentença favoreceu largamente a Grã-Bretanha, e em 1905 a Venezuela aceitou o resultado. Porém, em 1949 veio a público um memorando do secretário da delegação americana, que afirmava desconfiar de que o juiz russo tivera contactos comprometedores com os britânicos. Com base nessa suspeita - sem provas concretas -, a Venezuela voltou a contestar a fronteira a partir dos anos 1950, recusando reconhecer a legitimidade da arbitragem.

Os apresentadores colocam esta disputa no quadro mais amplo das guerras de fronteiras que marcaram a América do Sul ao longo dos séculos XIX e XX - da questão do Uruguai entre o Brasil e a Argentina à devastadora Guerra do Paraguai (1864-1870), que terá eliminado entre 50 e 70% da população paraguaia, incluindo 90% dos seus homens. Ao contrário do que aconteceu em África, onde a Conferência de Berlim definiu previamente as fronteiras coloniais, na América do Sul a independência chegou sem que os limites entre os territórios estivessem estabelecidos, gerando conflitos sucessivos. Por fim, os apresentadores revelam que a Guiana enfrenta ainda uma segunda disputa fronteiriça a leste, com o Suriname, originada pelo facto de o rio Courantyne, acordado como fronteira em 1814, se bifur

Personagens

  • Nicolás Maduro
  • Simón Bolívar
  • Bismarck
  • Napoleão
  • Peter de Guiar
  • Agatha Christie

Lugares/Países

  • Venezuela
  • Guiana
  • Suriname
  • Brasil
  • Holanda
  • Reino Unido
  • França
  • Espanha
  • Portugal
  • Argentina
  • Uruguai
  • Paraguai
  • Colômbia
  • Peru
  • Equador
  • Bolívia
  • Chile
  • Estados Unidos
  • Alemanha

Épocas

  • século XVI
  • século XVII
  • século XVIII
  • século XIX
  • século XX
  • período colonial
  • guerras napoleónicas
  • independências americanas

Temas

  • colonialismo
  • fronteiras
  • disputa territorial
  • escravatura
  • arbitragem internacional
  • independência
  • guerra
  • economia colonial
  • exploração de recursos naturais
  • petróleo
  • ouro
  • açúcar
  • borracha
  • comércio
  • diplomacia

Eventos

  • referendo venezuelano sobre Esequibo
  • Conferência de Berlim
  • revolta de escravos de Bébis
  • fundação da Grande Colômbia
  • fragmentação da Grande Colômbia
  • tribunal de arbitragem internacional de 1897
  • independência da Guiana
  • abolição da escravatura na Guiana Britânica

Guerras e conflitos

  • Guerra do Paraguai
  • guerra entre Brasil e Argentina pelo Uruguai
  • guerra entre Colômbia e Peru
  • guerra entre Bolívia e Chile
  • guerra entre Bolívia e Paraguai
  • guerra entre Peru e Equador
  • conflito Brasil-França
  • guerras napoleónicas