Nº 2027 de novembro de 201940:33análise histórica
Porque é que Jorge Jesus precisa de legendas no Brasil?
O episódio parte da popularidade de Jorge Jesus no Brasil para explorar a divergência cultural entre Portugal e Brasil ao longo dos séculos XIX e XX. Detalha a pouco conhecida história do Uruguai português (Província Cisplatina, 1817-1828), conquistado por Portugal e depois perdido pelo Brasil independente. Termina com uma reflexão sobre o papel histórico da canção política, desde a Revolução Francesa às lutas liberais portuguesas.
Ideias principais
- A independência do Brasil não foi uma revolução de povos nativos, mas dos próprios colonos portugueses e seus descendentes, criando uma complexa relação de proximidade e afastamento com Portugal
- O Uruguai foi conquistado por Portugal em 1817 com 10 mil veteranos das guerras napoleónicas, tornou-se a Província Cisplatina em 1821, e foi perdido pelo Brasil independente em 1828, numa guerra que causou 6% de mortes na população uruguaia
- A República Brasileira (1889) e os movimentos modernistas do século XX foram deliberadamente antiportugueses, associando Portugal ao atraso e rejeitando a herança cultural lusitana em favor da influência norte-americana
- A canção política como instrumento de mobilização popular não é invenção do século XX: desde a Revolução Francesa, passando pelas guerras liberais portuguesas, os hinos e marchas sempre serviram para unir massas e criar identidade coletiva
- D. Pedro I do Brasil compôs pessoalmente o Hino da Carta (hino nacional português até 1910), refletindo a forte tradição musical dos Braganças, uma dinastia que desde D. João IV privilegiou a música sobre outras artes
Resumo do episódio
O episódio parte de um pretexto contemporâneo - a vitória do Flamengo de Jorge Jesus na Taça dos Libertadores e o fascínio dos brasileiros pelas expressões do treinador português, cujas conferências de imprensa chegaram a ser legendadas na televisão brasileira - para formular uma pergunta histórica mais funda: até quando Portugal teve algum ascendente cultural sobre o Brasil, e quando é que essa influência se dissipou por completo?
Rui Ramos explica que, ao longo do século XIX, a ligação entre os dois países era estreita e quase geminada. A independência brasileira de 1822 não foi protagonizada por povos nativos, mas por colonos portugueses e seus descendentes. Durante o Império, a dinastia dos Braganças reinava nos dois lados do Atlântico, as constituições eram quase idênticas, e a imigração para o Brasil era maioritariamente portuguesa. Escritores como Eça de Queirós e Camilo Castelo Branco eram lidos no Brasil, ainda que muitas vezes em edições piratas, o que, paradoxalmente, atesta o interesse do público brasileiro pela produção cultural portuguesa. A divergência foi gradual e resultou de vários factores acumulados: a animosidade pós-independência contra os chamados "reinóis"; a rivalidade económica com os comerciantes portugueses que dominavam o retalho no Rio de Janeiro; a proclamação da República brasileira em 1889, que trouxe consigo um jacobinismo antiportuguês, pois a monarquia era associada à herança lusitana; e o modernismo cultural do século XX, cujos representantes, como Mário de Andrade, tendiam a identificar em Portugal tudo aquilo que queriam superar. A este processo somou-se a chegada massiva de imigrantes italianos, alemães, eslavos e espanhóis, que diluíram o peso demográfico e cultural português, e a crescente influência dos Estados Unidos, que se tornou o modelo de referência para o Brasil, como para tantos outros países.
O episódio envereda depois por uma história pouco conhecida do grande público: a ocupação portuguesa do actual Uruguai no início do século XIX. Rui Ramos recorda que, desde o século XVII, Portugal disputava com a Espanha o controlo da região do Rio da Prata, onde a Colónia do Sacramento funcionava como entreposto comercial que permitia aceder à prata peruana. Com a fuga da corte para o Rio de Janeiro em 1807 e o colapso da autoridade espanhola na América, abriu-se uma janela de oportunidade. Em 1816, uma força de dez mil veteranos das guerras napoleónicas invadiu a Banda Oriental, tomou Montevideu em 1817 e, após uma guerra violenta que terá custado cerca de seis por cento da população local, o território foi anexado em 1821 com o nome de Província Cisplatina. A aventura foi amplamente condenada pelas potências europeias e impopular na própria metrópole, que teve de manter um exército de cinquenta mil homens para dissuadir uma retaliação espanhola. Rui Ramos sublinha que esta situação está na origem tanto da revolução liberal espanhola de 1820 como do pronunciamento militar que em Portugal daria lugar à Revolução Liberal de agosto desse mesmo ano. O Uruguai acabaria por se tornar independente em 1828, após nova guerra em que foi apoiado pelas Províncias Unidas do Rio da Prata.
O episódio encerra com uma reflexão sobre a música como instrumento político ao longo da história, a propósito da morte do compositor José Mário Branco. Rui Ramos mostra que esta ligação entre canção e mobilização política não é uma invenção do século XX: vem pelo menos da Revolução Francesa, com a Marselhesa e outras marchas, e tem em Portugal exemplos nas guerras liberais, na revolução da Maria da Fonte e, em especial, no Ultimato Britânico de 1890, que inspirou a composição da actual Portuguesa. O próprio D. Pedro IV compôs o Hino da Carta para acompanhar a constituição que enviou a Portugal em 1826, num gesto que revela bem a consciência política do poder unificador da música. Os apresentadores recordam ainda a rica tradição musical da dinastia de Bragança e o interesse que a música barroca portuguesa tem vindo a despertar internacionalmente.
Personagens
- Jorge Jesus
- Jorge Amado
- Chico Buarque
- Caetano Veloso
- D. Pedro I do Brasil (D. Pedro IV de Portugal)
- D. Pedro II do Brasil
- D. Maria II de Portugal
- Eça de Queirós
- Camilo Castelo Branco
- Alexandre Herculano
- Mário de Andrade
- Napoleão Bonaparte
- Fernando de Magalhães
- Duque de Saldanha
- José Mário Branco
- Bob Dylan
- José Afonso
- Alfredo Keil
- Henrique Lopes de Mendonça
- D. João IV
Lugares/Países
- Portugal
- Brasil
- Uruguai
- Argentina
- Espanha
- Inglaterra
- Estados Unidos
- França
- México
Épocas
- século XIX
- século XX
- século XVIII
- século XVII
- Estado Novo
- anos 60
- anos 70
- Império brasileiro (1822-1889)
- invasões francesas (1807-1815)
Temas
- colonialismo
- cultura
- desporto
- diplomacia
- guerra
- independência
- imigração
- música
- política
- república
- monarquia
- identidade nacional
- relações luso-brasileiras
Eventos
- Independência do Brasil (1822)
- Proclamação da República Brasileira (1889)
- Ultimato britânico (1890)
- Revolução Liberal Portuguesa (1820)
- Revolução da Maria da Fonte
- Revolução Francesa (1789)
- Guerra Civil Americana (1861)
- Terremoto de Lisboa (1755)
- Conquista de Montevideu (1817)
- 31 de Janeiro de 1891
Guerras e conflitos
- Guerra do Uruguai
- Guerras Napoleónicas
- Invasões Francesas
- Guerras Liberais (anos 1820-1830)
- Segunda Guerra Mundial
Livros citados
- A Monarquia dos Braganças nos dois lados do Atlântico