Nº 9612 de maio de 20211h04resposta a ouvintes
Porque é que o Brasil é um só país?
O episódio responde a duas questões principais: porque é que o Brasil se manteve unido após a independência enquanto a América Espanhola se fragmentou em múltiplos países, e como foram os anos finais de Mussolini. A unidade brasileira deveu-se à presença de Dom Pedro, herdeiro legítimo da coroa portuguesa, que liderou a independência mantendo legitimidade dinástica. Já Mussolini caiu duas vezes: em 1943 por um golpe fascista-monárquico e definitivamente em 1945, executado pela resistência italiana, permitindo à Itália escapar ao estigma da derrota.
Ideias principais
- A unidade territorial do Brasil resultou da liderança de Dom Pedro I, membro da família real portuguesa com legitimidade dinástica, ao contrário da América Espanhola fragmentada por caudilhos militares sem essa legitimidade.
- Portugal não permitiu universidades no Brasil colonial, obrigando toda a elite com estudos superiores a formar-se em Coimbra, contrastando com as 30 universidades da América Espanhola que criaram elites regionais autónomas.
- Mussolini foi derrubado em 1943 por um golpe dentro do próprio fascismo, com líderes fascistas a votarem contra ele no Grande Conselho para tentarem retirar a Itália da guerra perdida.
- A República Social Italiana de Mussolini (1943-1945) foi uma versão radical e de esquerda do fascismo, republicana, anticlerical e socialista, chegando a nacionalizar empresas com mais de 100 trabalhadores.
- A execução sumária de Mussolini e a profanação do seu cadáver em Milão, embora controversa, permitiu à Itália evitar longos julgamentos de criminosos de guerra e escapar ao estigma que ficou colado à Alemanha e ao Japão.
Resumo do episódio
Este episódio do podcast *E o Resto é História* aborda três temas distintos, todos eles respondendo a perguntas enviadas pelos ouvintes. O primeiro e mais desenvolvido parte de uma pergunta de uma criança de dez anos, Helena Rosa, que quis saber por que razão os países de língua espanhola na América do Sul são vários, enquanto o Brasil constitui um único Estado. Rui Ramos aproveita a pergunta para explicar a grande assimetria entre o destino da América portuguesa e o da América espanhola no início do século XIX.
O historiador começa por afastar duas explicações habituais. A primeira, de que o Brasil seria desde sempre uma unidade geográfica e administrativa compacta, não convence: o Brasil colonial era, pelo contrário, um arquipélago de núcleos de povoamento separados por enormes distâncias, com tradições locais distintas e tendências separatistas reais, como demonstra a revolução republicana de Pernambuco em 1817. A segunda explicação, a de que existia uma identidade nacional brasileira prévia à independência, também é rejeitada: o nacionalismo brasileiro é posterior, não anterior, à separação de Portugal. Igualmente insuficiente é o argumento de que a elite letrada brasileira, formada toda na Universidade de Coimbra, teria funcionado como fator de coesão - ao contrário da América espanhola, onde já existiam cerca de trinta universidades locais desde o século XVI, precisamente nas cidades que se tornaram capitais de Estados independentes.
A explicação que Rui Ramos defende como decisiva tem a ver com a presença da família real portuguesa no Brasil. Quando Napoleão aprisionou a família real espanhola em 1808, criou um vazio de poder que na América espanhola foi preenchido por juntas locais, depois por caudilhos militares, e acabou por gerar uma proliferação de repúblicas independentes que não reconheciam qualquer autoridade comum. Em Portugal, pelo contrário, a família real não foi capturada - fugiu para o Rio de Janeiro. Quando regressa a Lisboa em 1821, deixa no Brasil o príncipe herdeiro, Dom Pedro, precisamente para evitar a desagregação. É em torno dele que o movimento de independência se organiza em 1822, o que faz do Brasil não uma república instável liderada por um caudilho, mas uma monarquia com um soberano dinástico e legítimo, capaz de agregar as elites administrativas, militares e religiosas num único Estado.
O segundo tema do episódio esclarece a origem das chamadas "pedras portuguesas" no Brasil. João Miguel Tavares pergunta se é verdade que os portugueses transportaram pedra de Portugal para construir fortes na Amazónia. Rui Ramos explica que os navios usavam pedra como lastro nas viagens de ida, quando iam menos carregados, e que essa pedra podia depois ser aproveitada em construções. Contudo, ao contrário do que aconteceu em São Jorge da Mina, em África, onde a pedra foi efetivamente talhada em Portugal e transportada nas caravelas, os grandes fortes brasileiros do século XVIII foram construídos com materiais locais, facto confirmado por análise geológica. Quanto às famosas calçadas de calcário e basalto no Rio de Janeiro, Rui Ramos nota que a sua designação como "pedras portuguesas" reflete uma imitação do modelo português introduzida já no início do século XX, não uma herança direta da colonização.
O terceiro e mais longo bloco do episódio é dedicado aos últimos anos de Benito Mussolini. Os apresentadores reconstroem a queda de Mussolini em julho de 1943, quando os próprios dirigentes fascistas, desesperados com as derrotas militares em Stalingrado e no norte de África e com a iminente invasão aliada da Sicília, votaram no Grande Conselho do Fascismo a favor de restituir ao rei o comando das Forças Armadas. O rei aproveitou a moção para demitir e prender Mussolini. Seguiu-se uma longa e confusa negociação do armistício com os aliados, assinado em setembro de 1943, a que a Alemanha respondeu invadindo a Itália, desarmando o exército italiano e resgatando Mussolini para colocá-lo à frente da República Social Italiana, um Estado fascista de feição socialista e republicana no norte do país. Os dois anos seguintes foram marcados por uma guerra extraordinariamente violenta e fragmentada, com frentes militares, guerrilhas comunistas e não comunistas, conflitos étnicos e ajustes de contas internos. Em abril de 1945, abandonado pelos alemães em retirada, Mussolini foi capturado por guerrilheiros e sumariamente executado.
Personagens
- Helena Rosa
- Napoleão Bonaparte
- Dom Pedro I do Brasil
- Simón Bolívar
- George Washington
- Benito Mussolini
- Adolf Hitler
- Pierpaolo Pasolini
- Marquês de Sade
- Pietro Badoglio
- Erwin Rommel
- Albert Kesselring
- Josip Broz Tito
- Philippe Pétain
- Winston Churchill
- Josef Stalin
- Dino Grandi
- Clara Petacci
- Palmiro Togliatti
- Bernardo O'Higgins
- Marcelo Caetano
- Dom Sebastião
Lugares/Países
- Brasil
- Portugal
- América Espanhola
- México
- Peru
- Bolívia
- Colômbia
- Venezuela
- Equador
- Panamá
- Argentina
- Chile
- República Dominicana
- Itália
- Alemanha
- França
- Espanha
- Etiópia
- Libéria
- Jugoslávia
- Eslovénia
- Croácia
- Grécia
- Suíça
- Reino Unido
- União Soviética
- Japão
- África
Épocas
- século XIX
- século XVI
- século XVII
- século XVIII
- século XX
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- invasões francesas
- guerras napoleónicas
- época colonial
- independência do Brasil
- independências latino-americanas
Temas
- colonialismo
- independência
- monarquia
- república
- fascismo
- guerra civil
- ocupação militar
- resistência
- ditadura
- legitimidade dinástica
- separatismo
- nacionalismo
- formação de estados
- crimes de guerra
- amnistia política
Eventos
- independência do Brasil
- Grito do Ipiranga
- Revolução de 1817 em Pernambuco
- invasão da Sicília
- bombardeamento de Roma
- queda de Mussolini
- armistício italiano
- execução de Mussolini
- libertação da Itália
- Tratado de Madrid
- 25 de Abril de 1945
- Alcácer-Quibir
Guerras e conflitos
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Civil Italiana
- Guerra Civil Grega
- invasões francesas
- guerras napoleónicas
- invasão da Etiópia
- campanha de Itália