Nº 34410 de fevereiro de 202640:58resposta a ouvintes
Porque é que o Canadá não é um estado dos EUA?
O episódio explica porque o Canadá nunca se tornou parte dos Estados Unidos, contrariando a ideia de que foi por virtude americana. Através da análise da colonização francesa e britânica da América do Norte nos séculos XVIII e XIX, revela três tentativas militares americanas falhadas de conquistar o Canadá (1775-76, 1812), a generosidade britânica para com os colonos franceses que preservou a sua lealdade, e como a identidade canadiana se construiu sobre o lealismo monárquico e a francofonia do Quebec.
Ideias principais
- Os americanos invadiram o Canadá múltiplas vezes e conquistaram cerca de metade do território canadiano original (780 mil km²), incluindo a região dos Grandes Lagos que hoje corresponde a cinco estados americanos.
- A generosidade britânica após 1763 foi decisiva: os colonos franceses mantiveram propriedades, língua, religião católica, direito civil francês e até cobrança de dízimos pela Igreja, o que garantiu a sua lealdade contra as invasões americanas.
- As colónias de açúcar nas Caraíbas valiam economicamente muito mais do que todo o território do Canadá e Louisiana juntos, pelo que a França não considerou ter perdido muito ao ceder o Canadá à Inglaterra em 1763.
- A identidade canadiana separada baseou-se historicamente no lealismo à monarquia britânica (os 50 mil refugiados loyalists das 13 colónias) e na francofonia do Quebec, embora esta identidade possa estar ameaçada pela imigração massiva e influência cultural americana.
- Noventa por cento da população canadiana vive num raio de 100 km da fronteira americana, e hoje 25% da população nasceu fora do Canadá, a maior percentagem entre os países do G7, o que pode comprometer a preservação da identidade histórica distintiva.
Resumo do episódio
Este episódio de *E o Resto é História* parte de duas questões enviadas por ouvintes - uma sobre as diferenças estruturais entre o Canadá e os Estados Unidos, outra sobre as razões pelas quais o Canadá nunca foi anexado pelo seu vizinho do sul - para traçar uma história do país desde a colonização europeia até à actualidade. A pergunta de fundo é aparentemente simples, mas a resposta revela-se surpreendente: se o Canadá não é o 51.º estado americano, não é por falta de vontade nem de tentativas por parte dos Estados Unidos.
Rui Ramos começa por situar o contexto da América do Norte no século XVIII, então dividida entre três esferas de influência europeia: os espanhóis no sul e no oeste, os ingleses nas treze colónias da costa leste, e os franceses no imenso território que ia da Nova Orleans até ao vale do Rio São Lourenço - aquilo a que chamavam a Nova França. O Canadá francês, centrado em Montreal e Quebec, contava com cerca de 70 mil colonos de origem europeia em meados do século XVIII, dedicados sobretudo ao comércio de peles, à madeira e à agricultura, sem economia de plantação nem escravatura significativa. As ilhas das Caraíbas, produtoras de açúcar, valiam economicamente muito mais do que todos estes territórios continentais juntos, o que explica as prioridades das potências coloniais da época.
A Guerra dos Sete Anos, entre 1756 e 1763, muda tudo. A Grã-Bretanha, com superioridade naval e um milhão de colonos nas treze colónias contra os 70 mil franceses do Canadá, conquista o Quebec e Montreal em 1759. Pelo tratado de 1763, a França cede o Canadá à Inglaterra e a Louisiana à Espanha, ficando para si com as valiosas ilhas antilhanas - um acordo que muitos ingleses consideraram desfavorável para o seu lado. O detalhe decisivo é a forma como Londres trata os colonos franceses: mantêm a língua, a religião católica, as leis civis francesas e as suas propriedades. Esta generosidade vai ter consequências enormes poucos anos depois.
Quando, em 1775, os delegados das treze colónias em rebelião decidem invadir o Canadá para o transformar na 14.ª colónia, julgando que os franceses os receberiam como libertadores, a realidade desilude-os completamente. Dois exércitos americanos partem por terra, chegam ao inverno de 1775-1776 dizimados por doenças e exaustão, conquistam Montreal mas são derrotados em Quebec e obrigados a retirar. A população francesa, católica, bem tratada pelos britânicos e desconfiante do protestantismo sectário das colónias inglesas, não adere à causa americana. Em 1812, uma segunda tentativa de conquista falha igualmente, desta vez perante a resistência combinada das tropas britânicas, das milícias francófonas, dos colonos anglófonos leais à coroa - os chamados *loyalists*, refugiados das treze colónias que tinham perdido as suas propriedades por se recusarem a trair o rei - e de uma confederação de tribos indígenas aliadas dos ingleses.
Os apresentadores explicam que, pelo tratado de 1783, os Estados Unidos receberam uma vasta parte da antiga província do Quebec a sul dos Grandes Lagos - território que corresponde hoje aos estados do Ohio, Indiana, Illinois, Michigan e Wisconsin -, duplicando de um só golpe a sua superfície. A fronteira ficou traçada, mas o Canadá resistiu, tornando-se domínio autónomo em 1867 e plenamente independente em termos legislativos em 1926, embora mantendo o monarca britânico como chefe de Estado.
Personagens
- Donald Trump
- Bernardo Pimentel
- Jorge Felipe Tavares
- George Washington
Lugares/Países
- Canadá
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Épocas
- século XVI
- século XVIII
- século XIX
Temas
- colonialismo
- guerra
- expansão territorial
- identidade nacional
- religião
- imigração
- economia colonial
- comércio
- escravatura
- língua e cultura
- monarquia
Eventos
- Guerra dos Sete Anos
- Independência Americana
- Invasão americana do Canadá de 1775-1776
- Guerra de 1812
- Tratado de Paris de 1763
- Congresso Continental
Guerras e conflitos
- Guerra dos Sete Anos
- Guerra da Independência Americana
- Guerra de 1812
- Guerra Civil Americana