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Nº 8924 de março de 202138:53resposta a ouvintes

Porque é que o sangue dos reis é azul?

Episódio centrado em três perguntas de ouvintes: a natureza e influência política do Opus Dei e da maçonaria, a origem da expressão 'sangue azul' aplicada à nobreza, e a história do uso do arco e flecha em Portugal. Rui Ramos explica a estrutura do Opus Dei como prelatura pessoal, desmistifica teorias conspirativas sobre organizações secretas, analisa a construção biológica e social da distinção aristocrática, e compara o uso da besta em Portugal com o longbow inglês na guerra medieval.

Ideias principais

  1. O Opus Dei é uma prelatura pessoal da Igreja Católica desde 1982, com a novidade de permitir a procura da santidade por leigos em vida profissional normal, sem votos monásticos.
  2. A suspeita sobre filiações secretas de políticos tem raízes em Rousseau e na ideia republicana de que o cidadão deve devotar-se apenas ao bem público, sem outras lealdades - uma desconfiança que no Terror francês se estendia até aos próprios partidos políticos.
  3. A expressão 'sangue azul' deriva da pele clara da aristocracia não exposta ao sol, que deixava as veias aparecerem azuis, mas reflecte sobretudo a concepção de que a nobreza era uma distinção biológica hereditária, não política, transmitida pelo sangue como nas raças de cavalos.
  4. Em Portugal medieval a arma de arremesso preferida era a besta, não o longbow inglês, sendo os besteiros do conto uma tropa especializada recenseada por D. João I, enquanto Inglaterra mantinha o arco longo como arma secreta de exportação proibida.
  5. Rui Ramos rejeita teorias conspirativas sobre maçonaria e Opus Dei controlarem a história, defendendo que a história é mais o resultado do choque contingente de múltiplas acções do que de manipulação secreta por elites organizadas.

Resumo do episódio

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares abordam três temas distintos, a partir de questões enviadas por ouvintes: as origens e a natureza do Opus Dei, a expressão "sangue azul" associada à nobreza, e a história do arco e flecha em Portugal.

O ponto de partida é uma proposta legislativa do PSD que pretendia tornar obrigatória a declaração de pertença a organizações secretas ou discretas por parte dos deputados, o que relançou o debate público sobre a maçonaria e o Opus Dei. Rui Ramos explica que o Opus Dei, fundado em 1928 pelo padre espanhol José Maria Escrivá de Balaguer, é desde 1982 uma prelatura pessoal da Igreja Católica - uma estrutura semelhante a uma diocese, mas de base pessoal e não territorial. A sua novidade histórica reside em propor que os leigos possam aspirar à santidade sem abdicar da vida familiar e profissional, rompendo com a tradição monástica que associava a exemplaridade cristã à renúncia do mundo. A organização conta com cerca de 95 mil filiados, dos quais apenas dois mil são padres, e não divulga a sua lista de membros, invocando razões de privacidade. Embora este carácter discreto a aproxime da imagem das lojas maçónicas, os apresentadores rejeitam as teorias conspirativas que as apresentam como forças ocultas a controlar os destinos da história, argumentando que tanto o Opus Dei como as várias maçonarias são realidades plurais e por vezes conflituosas entre si. Ramos situa a desconfiança política em relação a filiações paralelas numa tradição que remonta à Revolução Francesa e à influência de Rousseau, para quem o bom cidadão devia ser devotado exclusivamente ao bem público, sem lealdades parciais - uma suspeita que chegou a aplicar-se aos próprios partidos políticos, vistos por Robespierre como facções perniciosas.

A segunda parte do episódio responde a uma pergunta da filha mais nova de João Miguel Tavares: porque é que se diz que os reis têm sangue azul? Rui Ramos explica que a expressão, presente em várias línguas europeias, terá tido origem na Península Ibérica. A explicação mais corrente é física: nas sociedades pré-industriais, a aristocracia, ao contrário da maioria da população que trabalhava exposta ao sol, mantinha a pele clara, o que tornava as veias visíveis e de aparência azulada. Mas há uma dimensão mais profunda: a nobreza acreditava que o sangue transmitia virtudes hereditárias - coragem, altivez, distinção - e cultivava a endogamia para preservar essa suposta "pureza de sangue", à semelhança do que se fazia com a criação de animais de raça. Em Espanha, isso traduziu-se nas "provas de limpeza de sangue", que excluíam de determinados cargos quem tivesse antepassados mouros, judeus ou de ofícios manuais. Em França, alguns nobres chegaram ao ponto de reivindicar uma ascendência germânica - dos guerreiros francos - para se distinguirem do resto da população de origem galo-romana, usando esse argumento também como forma de resistir à crescente centralização do poder régio, que tinha a capacidade de criar novos nobres por decreto.

O terceiro tema é a história do arco e flecha em Portugal, motivada pela prática de tiro com arco de um ouvinte residente no Reino Unido. Ramos esclarece que, ao contrário dos exércitos ingleses e galeses, que desenvolveram o longbow como arma de eleição durante a Guerra dos Cem Anos - capaz de disparar dez a doze flechas por minuto a distâncias de até duzentos metros -, Portugal e o restante continente europeu utilizavam predominantemente a besta. Esta arma, embora com menor cadência de fogo, tinha maior precisão e impacto, sendo mais eficaz a perfurar armaduras. D. João I regulamentou a existência de besteiros por conselho, criando os chamados "besteiros do conto", cujos recenseamentos constituem hoje fontes históricas valiosas para estimar a população da época. Na Batalha de Aljubarrota, em 1385, cerca de trezentos arqueiros ingleses combateram ao lado dos portugueses, mas a tradição nacional assentava claramente na besta. A partir do início do século XVI, ambas as armas foram progressivamente substituídas pelas armas de fogo portáteis, cuja vantagem decisiva era não exigir o longo treino

Personagens

  • José Maria Escrivá de Balaguer
  • Jean-Jacques Rousseau
  • Robespierre
  • Danton
  • Jacques Hébert
  • Salazar
  • D. João I

Lugares/Países

  • Portugal
  • Espanha
  • França
  • Inglaterra
  • Reino Unido
  • Escócia
  • País de Gales

Épocas

  • século XX
  • século XVIII
  • século XIX
  • Idade Média
  • século XIV
  • século XV
  • século XVI
  • século XVII
  • Antigo Regime
  • Estado Novo

Temas

  • religião
  • organizações secretas
  • maçonaria
  • política
  • nobreza
  • aristocracia
  • guerra
  • armas medievais
  • hereditariedade
  • estratificação social
  • teorias conspirativas
  • elites

Eventos

  • Batalha de Aljubarrota
  • Guerra dos 100 Anos
  • República Francesa 1792-1794

Guerras e conflitos

  • Guerra dos 100 Anos