← Arquivo

Nº 4917 de junho de 202041:54análise histórica

Porque é que os portugueses não derrubam estátuas?

O episódio analisa a ausência de tradição iconoclasta em Portugal, comparando-a com outros países. Rui Ramos argumenta que desde o século XIX todos os regimes políticos portugueses partilharam um imaginário comemorativo centrado nos Descobrimentos, criando continuidade em vez de ruptura. A segunda parte examina a legitimidade inicial frágil de Charles de Gaulle em 1940 e como o apelo de 18 de Junho salvou a honra da França, apesar da popularidade do Marechal Pétain e do colaboracionismo generalizado.

Ideias principais

  1. Portugal teve poucos episódios de destruição de estátuas porque havia consenso entre regimes liberais, republicanos, salazaristas e democráticos sobre o imaginário histórico centrado nos Descobrimentos e figuras como Camões.
  2. As estátuas representam aspectos seleccionados das figuras históricas: Pombal como reformista (não tirano), Churchill como líder anti-Hitler (não opositor da independência da Índia), mantendo relevância através da selectividade.
  3. A legitimidade de Charles de Gaulle em 1940 era quase nula: general recente, sem reconhecimento do exército, enfrentando o herói nacional Pétain, com apenas 3% dos soldados franceses evacuados a juntarem-se a ele.
  4. O colaboracionismo francês foi massivo e transversal: a maioria da população, elites de esquerda e direita, e até o Partido Comunista (sob o Pacto Germano-Soviético) apoiaram Vichy, desmentindo o mito da resistência generalizada.
  5. O acto solitário de De Gaulle em 1940, embora parecesse irrealista na altura, permitiu à França ser tratada como vencedora em 1945, demonstrando como um indivíduo pode alterar o curso da história nacional.

Resumo do episódio

O episódio 49 de *E o Resto é História* divide-se em dois temas distintos: primeiro, a questão das estátuas e da memória histórica em Portugal, à luz das polémicas internacionais sobre a remoção de monumentos; depois, uma análise da figura do general De Gaulle e do seu célebre apelo de 18 de junho de 1940.

Na primeira parte, Rui Ramos e João Miguel Tavares partem da vandalização da estátua do Padre António Vieira, no Chiado, para explorar por que razão Portugal nunca viveu episódios significativos de derrube de estátuas. A resposta encontrada é simultaneamente simples e reveladora: até ao século XIX, não havia praticamente estátuas para derrubar. Lisboa era uma cidade pouco comemorativa, e os monumentos que conhecemos hoje - desde Camões ao Marquês de Pombal - são criações oitocentistas ou mesmo do século XX. A estátua do Marquês de Pombal, por exemplo, foi erguida durante o Estado Novo, nos anos 30. Esta escassez de monumentos tem uma consequência importante: quando os regimes mudaram - da Monarquia à República, desta ao Estado Novo, e depois à democracia pós-1974 - não havia um acervo simbólico do regime anterior que importasse destruir. Mais do que isso, os apresentadores sublinham que todos os regimes portugueses desde o liberalismo partilharam o mesmo imaginário histórico centrado nos Descobrimentos e nas navegações, celebrado com igual entusiasmo pela Monarquia Constitucional, pela República, pelo Estado Novo e pela democracia, como o ilustram as comemorações do Centenário de Camões em 1880, a Exposição do Mundo Português em 1940 e a Expo de 1998. O derrube de estátuas ocorreu, isso sim, nas antigas colónias após a independência, e não em Portugal continental.

Rui Ramos defende ainda que as estátuas não representam a totalidade de uma figura histórica, mas apenas o aspecto que uma determinada comunidade escolheu homenagear. O Marquês de Pombal foi provavelmente o governante mais sanguinário da história portuguesa, Dom Pedro IV liderou a independência do Brasil contra Portugal, e António José de Almeida chefiou uma organização que esteve envolvida no assassínio do rei Dom Carlos. Ainda assim, as suas estátuas celebram outras dimensões dessas figuras. O mesmo raciocínio se aplica a exemplos africanos como a Rainha Ginga, em Angola, ou o Gungunhana, em Moçambique - figuras que os regimes pós-coloniais escolheram celebrar como símbolos de resistência, apesar de terem também praticado escravatura e violência. A conclusão é que qualquer relação com o passado exige selectividade, e que exigir que as figuras históricas correspondam integralmente aos valores do presente equivaleria a não ter nenhuma estátua de ninguém.

A segunda parte do episódio centra-se no general De Gaulle e na sua extraordinária aposta política em junho de 1940. Os apresentadores recordam que, quando De Gaulle fez o seu apelo a partir de Londres, era um general relativamente desconhecido, recentemente promovido, que se opunha ao Marechal Pétain - um dos maiores heróis militares da França, chefe de um governo legal e amplamente popular. O armistício assinado com a Alemanha não foi uma rendição incondicional, mas uma tentativa de Pétain de poupar a França a uma ocupação total. O apelo de De Gaulle caiu, na prática, no vazio: dos cerca de 100 mil soldados franceses evacuados de Dunkerque para Inglaterra, 97 mil preferiram regressar e render-se como prisioneiros de guerra. Nem um único oficial que servira sob o seu comando o acompanhou. A tentativa de recuperar Dakar para a França Livre, em setembro de 1940, acabou em derrota humilhante perante as próprias tropas francesas.

O que mudou progressivamente foram os desenvolvimentos da guerra: a invasão alemã da União Soviética atirou os comunistas para a resistência, a entrada dos Estados Unidos no conflito alterou o cálculo de muitos franceses, e a pressão alemã sobre a mão-de-obra francesa alimentou a fuga para a clandestinidade. Ainda assim, a resistência só ganhou grande adesão popular após o desembarque aliado de junho de 1944. Foi De Gaulle quem impediu que a França fosse tratada pelos Aliados como território ocupado e governado militarmente, conseguindo que o país fosse reconhecido como nação vencedora em 1945 - facto que

Personagens

  • D. José I
  • Marquês de Pombal
  • D. Pedro IV
  • Saldanha
  • Sá da Bandeira
  • Duque da Terceira
  • Luís de Camões
  • D. Miguel I
  • António José de Almeida
  • Salazar
  • Padre António Vieira
  • Gil Vicente
  • Fernão Mendes Pinto
  • Masséna
  • Loison
  • D. João I
  • Nuno Álvares Pereira
  • D. Carlos I
  • Winston Churchill
  • Rainha Ginga
  • Gungunhana
  • Isaac Newton
  • Charles de Gaulle
  • Henri Giraud
  • Franklin D. Roosevelt
  • Philippe Pétain
  • Keitel
  • Júlio Dantas
  • Augusto de Castro
  • José Luciano de Castro
  • Saddam Hussein
  • Stalin
  • Lenin
  • Hitler
  • Napoleão III
  • Pierre Laval
  • Marcel Déat
  • Jacques Doriot

Lugares/Países

  • Portugal
  • Estados Unidos
  • Reino Unido
  • França
  • Alemanha
  • Brasil
  • Angola
  • Moçambique
  • Senegal
  • Argélia
  • Iraque
  • União Soviética
  • Índia
  • Espanha

Épocas

  • século XVI
  • século XVII
  • século XVIII
  • século XIX
  • século XX
  • Estado Liberal
  • Primeira República
  • Estado Novo
  • pós-25 de Abril
  • Segunda Guerra Mundial
  • Terceira República Francesa

Temas

  • memória histórica
  • estatuária
  • comemoração
  • colonialismo
  • escravatura
  • iconoclastia
  • resistência
  • colaboracionismo
  • legitimidade política
  • guerra
  • identidade nacional

Eventos

  • Revolução Liberal
  • Guerra Civil portuguesa (1832-1834)
  • 25 de Abril de 1974
  • Centenário de Camões (1880)
  • Exposição do Mundo Português (1940)
  • Expo 98
  • Apelo de 18 de Junho (1940)
  • Armistício franco-alemão (1940)
  • Evacuação de Dunquerque
  • Batalha de Verdun
  • Operação de Mers-el-Kébir
  • Desembarque aliado na Normandia (1944)
  • Pacto Germano-Soviético

Guerras e conflitos

  • Guerra Civil portuguesa (1832-1834)
  • Guerras Napoleónicas
  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Franco-Prussiana (1870)

Livros citados

  • Peregrinação (Fernão Mendes Pinto)
  • Os Lusíadas (Luís de Camões)