Nº 6430 de setembro de 202045:33resposta a ouvintes
Porque é que só há dois partidos nos EUA?
Episódio de resposta a ouvintes que aborda três temas: as razões históricas do bipartidarismo nos EUA, a alegada descoberta portuguesa da Austrália antes dos holandeses, e os 500 anos da ascensão de Solimão o Magnífico ao trono otomano. Rui Ramos explica como o sistema bipartidário anglo-saxónico esconde grande diversidade interna e mudanças ideológicas profundas ao longo do tempo, questiona a relevância da mera prioridade geográfica sem exploração efetiva, e revela como o Império Otomano do século XVI era a maior potência mundial, capaz de ameaçar a Europa cristã tanto militar como economicamente.
Ideias principais
- O bipartidarismo americano e inglês não significa estabilidade ideológica: os partidos mudaram radicalmente ao longo do tempo, com democratas e republicanos invertendo as suas bases geográficas e sociais entre o século XIX e XX.
- Os grandes partidos anglo-saxónicos são na verdade vastas coligações internas que noutros países formariam múltiplos partidos separados, funcionando sobretudo como 'frentes eleitorais' para capturar o poder executivo.
- A alegada descoberta portuguesa da Austrália tem pouca relevância histórica porque não houve mapeamento, divulgação ou colonização - descobrir implica dar a conhecer e explorar, não apenas tocar numa terra sem consequências.
- O Império Otomano de Solimão o Magnífico (1520-1566) era a maior potência mundial do século XVI, militarmente superior a qualquer Estado europeu, controlando o Mediterrâneo e ameaçando Viena, num período em que a Europa estava longe de dominar o mundo.
- A escravatura otomana de europeus no século XVI foi provavelmente superior em escala à escravatura europeia de africanos no mesmo período, com milhões de cristãos capturados para servir como janízaros, escravos domésticos e sexuais no império.
Resumo do episódio
Este episódio do podcast *E o Resto é História* aborda três temas distintos, respondendo a perguntas enviadas por ouvintes. O fio condutor é a curiosidade histórica aplicada a questões com relevância para o presente.
A primeira e mais desenvolvida questão é a que dá título ao episódio: por que razão os Estados Unidos são dominados por apenas dois partidos? Rui Ramos começa por enquadrar historicamente a própria ideia de partido, recordando que a palavra sugere divisão e que, durante muito tempo, mesmo em regimes representativos, os partidos foram vistos com desconfiança. George Washington, por exemplo, era abertamente contrário à sua existência. A partir do século XIX, porém, o modelo inglês - com um Partido Liberal e um Partido Conservador a alternarem no poder - tornou-se o paradigma do bom funcionamento parlamentar, em contraste com a instabilidade da Terceira República Francesa, onde a proliferação de grupos políticos gerava governos de duração efémera. Os apresentadores sublinham que o bipartidarismo americano, com republicanos e democratas a dominarem desde meados do século XIX, é em larga medida enganador: cada um destes partidos funciona como uma frente eleitoral que agrega correntes que, noutros sistemas, formariam partidos separados. Para ilustrar, Rui Ramos sugere que, transposto para Portugal, o Partido Democrata incluiria desde o Bloco de Esquerda até ao PSD, e o Partido Republicano do Chega ao Partido Socialista. Acresce que estes partidos mudaram profundamente ao longo do tempo - o Partido Republicano foi o partido do Norte e da abolição da escravatura, enquanto o Democrata era o partido do Sul segregacionista, numa distribuição que se inverteu a partir dos anos 1970.
A segunda questão, mais breve, gira em torno da alegada descoberta da Austrália por navegadores portugueses, nomeadamente por Cristóvão de Mendonça, décadas antes da chegada oficial dos holandeses em 1606. Os apresentadores reconhecem que, dada a intensa presença portuguesa nos mares do Sudeste Asiático no século XVI, não seria improvável que algum navio tivesse tocado naquela costa. No entanto, argumentam que chegar a um território sem o mapear, divulgar ou explorar não equivale a descobri-lo no sentido histórico relevante. A descoberta que conta é aquela que abre caminho ao conhecimento partilhado, ao mapeamento e à ocupação subsequente - e nesse sentido a prioridade pertence aos holandeses.
O terceiro tema é Solimão, o Magnífico, cujos 500 anos de reinado se comemoravam na data da gravação. Rui Ramos apresenta-o como o governante de um império que, no século XVI, era provavelmente o mais poderoso do mundo, estendendo-se da Hungria ao Iraque e ao norte de África. Os otomanos eram herdeiros do Império Bizantino em termos de organização estatal, e Solimão recusava reconhecer qualquer soberano europeu como seu igual. A sua importância vai além do domínio militar: a aliança com a França impediu Carlos V de se concentrar na submissão dos protestantes alemães, tornando Solimão um factor decisivo para a sobrevivência da Reforma Protestante. O episódio destaca também a dimensão esclavagista do Império Otomano, que capturava europeus em número que poderá ter superado o dos escravos africanos levados pelos europeus no mesmo período. Quanto ao declínio otomano, os apresentadores apontam dois factores estruturais: o sistema de sucessão violento, que eliminava sistematicamente os herdeiros mais capazes, e a incapacidade de o império gerar uma identidade nacional coesa, mantendo-se dependente da autoridade pessoal do sultão para conter a pluralidade de comunidades que o compunham - tensões que, argumentam, ainda hoje alimentam os conflitos do Médio Oriente.
Personagens
- George Washington
- Donald Trump
- Barack Obama
- Margaret Thatcher
- John Kennedy
- Lyndon Johnson
- George Wallace
- Theresa May
- Pedro Álvares Cabral
- Cristóvão de Mendonça
- Gomes de Sequeira
- Solimão o Magnífico
- Carlos V
- Francisco I de França
- D. Sebastião
- Filipe II de Espanha
- Roxelana
- Barbarroxa
- Martinho Lutero
- Mustafa (filho de Solimão)
Lugares/Países
- Estados Unidos da América
- Inglaterra
- Reino Unido
- França
- Portugal
- Austrália
- Brasil
- Maldivas
- Hungria
- Áustria
- Alemanha
- Espanha
- Turquia
- Império Otomano
- Grécia
- Argélia
- Marrocos
- Iraque
- Pérsia
- Índia
- Rússia
- Polónia
- Crimeia
- Médio Oriente
- Norte da África
- Europa
- Finlândia
Épocas
- século XVIII
- século XIX
- século XVI
- século XVII
- século XX
- Terceira República Francesa (1870-1940)
- Guerra Civil Americana (1861-1865)
- Primeira Guerra Mundial
- Revolução Francesa
Temas
- bipartidarismo
- sistemas eleitorais
- partidos políticos
- navegações
- descobrimentos
- Império Otomano
- escravatura
- conquistas territoriais
- diplomacia
- guerra
- religião
- Islão
- Cristianismo
- pirataria
- comércio de especiarias
- reforma protestante
Eventos
- eleições americanas
- Revolução Francesa
- Guerra Civil Americana
- Brexit
- Batalha de Alcácer-Quibir (1578)
- conquista de Constantinopla (1453)
- Batalha de Lepanto
- cerco de Dio (1538)
- conquista de Aden (1538)
- conquista da Hungria (1526)
Guerras e conflitos
- Guerra Civil Americana
- Primeira Guerra Mundial
- Batalha de Alcácer-Quibir
- Batalha de Lepanto
- cerco de Viena (1529, 1532)
Livros citados
- Beyond Capricorn (Paralelo Capricórnio) - Peter Trickett