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Nº 3908 de abril de 202041:14resposta a ouvintes

Porque é que usávamos libras de ouro ao pescoço?

Episódio centrado em três grandes temas: a história do padrão ouro e da inflação em Portugal, as relações históricas entre Portugal e a Holanda nos séculos XVII-XVIII, e a complexa evolução da propriedade da terra em Portugal. Rui Ramos explica porque usávamos libras de ouro ao pescoço (desconfiança na moeda portuguesa), analisa os conflitos e o comércio entre portugueses e holandeses (aliados na Europa, inimigos no ultramar), e demonstra que a propriedade individual plena da terra é uma invenção liberal do século XIX.

Ideias principais

  1. As libras de ouro ao pescoço eram uma forma de poupança e entesouramento devido à histórica desconfiança dos portugueses na moeda nacional, marcada por séculos de manipulação monetária e emissão abusiva de papel-moeda pelos governos.
  2. Portugal aderiu ao padrão ouro em 1854 (entre os primeiros países) mas saiu em 1891-92 após bancarrota (também entre os primeiros), antecipando o colapso geral do sistema em 1914 que causou as grandes inflações do pós-Primeira Guerra.
  3. Portugal e a Holanda mantiveram uma relação paradoxal no século XVII: aliados na Europa contra a Espanha após 1640, mas em guerra aberta no Brasil e na Índia, onde as companhias holandesas tentavam desalojar os portugueses do comércio oriental.
  4. A propriedade individual plena da terra, tal como hoje a conhecemos, é uma criação liberal do século XIX; antes disso a relação com a terra era difusa, dividida entre senhores com 'domínio eminente' e cultivadores com 'domínio útil', sem clara distinção entre rendas, impostos e dízimos.
  5. O Portugal contemporâneo que conhecemos - suas instituições, relações de propriedade, linguagem e até paisagens - é em grande medida uma construção do liberalismo do século XIX, não uma herança medieval ou do Antigo Regime.

Resumo do episódio

Este episódio do podcast *E o Resto é História* parte de uma curiosidade aparentemente simples: porque é que antigamente as pessoas, sobretudo em Portugal, usavam libras de ouro ao pescoço ou ofereciam moedas de ouro a recém-nascidos? A resposta, desenvolvida por Rui Ramos, abre caminho para uma viagem pela história monetária portuguesa e pela desconfiança secular dos portugueses em relação ao seu próprio dinheiro.

A explicação de fundo é que as libras inglesas eram genuinamente feitas de ouro, funcionando simultaneamente como moeda e como joia. Usá-las ao pescoço equivalia a transportar poupanças, tal como as lavradeiras do Minho faziam com os seus colares e brincos dourados. Esta prática reflectia uma desconfiança profunda e historicamente fundamentada tanto na moeda portuguesa como nos bancos nacionais. Desde o fim do século XVIII, os governos portugueses recorreram ao papel-moeda para cobrir défices, emitindo notas sem reservas suficientes. As populações só as aceitavam com desconto em relação ao valor facial, e o próprio Estado, em 1834, ao propor trocar papel por metal, exigiu um desconto de 20% sobre o papel que ele próprio havia emitido. Além do papel, as moedas metálicas eram também manipuladas através da adulteração das ligas, introduzindo metais menos nobres para fazer render mais o ouro ou a prata disponíveis.

Foi neste contexto que Portugal aderiu ao padrão-ouro em 1854, tornando-se um dos primeiros países do mundo a fazê-lo, logo a seguir à Inglaterra, o seu principal parceiro comercial. O padrão-ouro significava que a moeda nacional era convertível em ouro a uma taxa fixa, retirando ao Estado a liberdade de abusar da emissão monetária e conferindo credibilidade internacional ao escudo para atrair investimento externo. Contudo, Portugal foi também um dos primeiros países a abandonar este sistema, em 1891-1892, quando desequilíbrios financeiros insustentáveis levaram à declaração de inconvertibilidade da moeda e ao regresso ao financiamento do Estado pelo Banco de Portugal mediante emissão de notas. A saída em massa dos países do padrão-ouro durante a Primeira Guerra Mundial gerou as grandes inflações dos anos 1920, em Portugal, na Alemanha e na Áustria, reforçando o recurso popular ao ouro físico como reserva de valor. Os apresentadores relacionam este longo historial com a adesão portuguesa ao euro, interpretando o entusiasmo nacional pela moeda única como expressão do receio de entregar novamente aos governos portugueses o controlo sobre a moeda.

O episódio aborda ainda duas outras questões. A propósito de uma pergunta de ouvinte sobre eventuais ressentimentos históricos entre Portugal e a Holanda, Rui Ramos explica que a rivalidade colonial do século XVII resultou da união dinástica ibérica de 1580: os holandeses, em guerra com a Espanha, passaram a disputar a Portugal os territórios asiáticos e brasileiros. Paradoxalmente, após a Restauração de 1640, Portugal e a Holanda tornaram-se aliados na Europa contra a Espanha, enquanto continuavam a combater-se no ultramar. No Brasil, os portugueses acabaram por expulsar os holandeses; na Índia, foram estes que prevaleceram. Apesar deste conflito, a Holanda foi durante séculos o principal parceiro comercial de Portugal - até metade dos navios que entravam em Lisboa no século XVII eram holandeses -, não havendo razões históricas sólidas para qualquer animosidade estrutural.

Por fim, respondendo a uma pergunta sobre a formação da propriedade em Portugal, Rui Ramos explica que a propriedade individual plena, tal como a concebemos hoje, é uma criação do liberalismo do século XIX. Antes disso, a relação com a terra era mediada por uma teia complexa de senhorios laicos e eclesiásticos, contratos enfitêuticos, morgadios e bens comunais, em que não era claro quem era verdadeiramente proprietário. Os liberais tentaram desmontar este sistema abolindo morgadios, desamortizando bens da Igreja e extinguindo rendas de origem fiscal e religiosa, mas o processo gerou conflitos prolongados. O cadastro nunca foi completamente realizado, razão pela qual, ainda hoje, a propriedade de muitos terrenos rurais permanece juridicamente incerta.

Personagens

  • Salazar
  • Napoleão Bonaparte
  • Duque de Alba
  • D. João IV
  • Nuno Gonçalo Monteiro

Lugares/Países

  • Portugal
  • Alemanha
  • Inglaterra
  • Holanda
  • Espanha
  • França
  • Bélgica
  • Áustria
  • Brasil
  • Índia
  • Angola

Épocas

  • século XVIII
  • século XIX
  • século XX
  • século XVII
  • século XIV
  • século XV
  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • anos 20
  • anos 30
  • Idade Média

Temas

  • economia
  • sistema monetário
  • inflação
  • padrão ouro
  • colonialismo
  • comércio
  • propriedade da terra
  • direito
  • liberalismo
  • guerra
  • bancarrota

Eventos

  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • bancarrota de 1891-1892
  • restauração de 1640
  • união dinástica de 1580
  • Guerra dos 100 anos
  • guerras napoleónicas
  • revolução das Províncias Unidas 1568

Guerras e conflitos

  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra dos 100 anos
  • guerras da Revolução Francesa
  • guerras napoleónicas
  • guerra dos 80 anos
  • guerras holandês-portuguesas no Brasil
  • guerras holandês-portuguesas na Índia