Nº 15820 de julho de 202241:57análise histórica
Portugal é o mais antigo aliado de Inglaterra?
O episódio analisa a Aliança Anglo-Portuguesa, tradicionalmente apresentada como a mais antiga do mundo desde 1372. Rui Ramos e João Miguel Tavares exploram a dimensão entre mito e realidade desta aliança, explicando como evoluiu desde os tratados medievais até às Guerras Liberais do século XIX, passando por períodos de cooperação e traição mútua, sempre condicionada pelos interesses geopolíticos e comerciais de cada época.
Ideias principais
- A Aliança Anglo-Portuguesa tem fundamentos reais nos tratados de 1373 e 1386, mas não foi uma relação de fidelidade constante - houve períodos de guerra e traição mútua, incluindo a participação portuguesa na Grande Armada contra Inglaterra em 1588.
- A aliança baseou-se em duas coordenadas estruturais: a formação de um espaço marítimo atlântico nos séculos XIII-XIV ligando Flandres ao Mediterrâneo, e o jogo de alianças cruzadas entre Portugal-Inglaterra versus Castela-França.
- A partir do século XVIII, com o Tratado de Methuen (1703) e o crescente poder naval britânico, Portugal entrou na órbita inglesa, criando uma relação assimétrica que gerou ressentimento português por excesso de dependência e críticas inglesas por excesso de compromisso.
- O Desembarque do Mindelo (1832) foi um momento decisivo das Guerras Liberais, marcado pela surpresa estratégica - os miguelistas esperavam um ataque a Lisboa, mas os liberais desembarcaram no Porto com uma força maioritariamente estrangeira (mercenários ingleses, franceses e polacos).
- As Guerras Liberais não foram um confronto entre massas populares mobilizadas, mas entre elites divididas quanto ao regime (monarquia constitucional versus absoluta), com surpreendente ausência de apoio popular espontâneo aos liberais quando desembarcaram no Porto.
Resumo do episódio
Este episódio do podcast *E o Resto é História* aborda dois temas distintos: a Aliança Anglo-Portuguesa e o Desembarque do Mindelo. Na primeira parte, Rui Ramos e João Miguel Tavares examinam a afirmação de que a aliança entre Portugal e Inglaterra é a mais antiga do mundo, questionando até que ponto se trata de um facto histórico ou de um mito conveniente. A data habitualmente invocada é a de 10 de julho de 1372, com o Tratado de Tagilde, seguido pelo Tratado de 1373 entre D. Fernando e Eduardo III, e consolidado pelo Tratado de Windsor de 1386, ao qual se juntou o casamento de D. João I com D. Filipa de Lencastre, filha do duque João de Gante.
Os apresentadores contextualizam as origens desta aliança em dois eixos estruturantes. O primeiro é geográfico e económico: a partir do século XIII, emerge um espaço marítimo atlântico que liga a Flandres ao Mediterrâneo, no qual Portugal e Inglaterra se tornam protagonistas naturais, ambos voltados para o Atlântico. O segundo eixo é político: a Guerra dos Cem Anos coloca França e Castela num mesmo campo, empurrando Inglaterra e Portugal para uma convergência estratégica. Contudo, Rui Ramos sublinha que esta aliança esteve longe de ser linear - foi marcada por traições, volte-faces e interesses divergentes. No século XVI, a sistemática aproximação dinástica entre Portugal e Castela conduziu mesmo a uma ruptura de facto, culminando na participação de navios portugueses na Grande Armada de 1588 contra a Inglaterra, e na retaliação inglesa de 1589, quando Francis Drake atacou Lisboa.
A aliança reviveu com a Restauração de 1640 e o posterior casamento da infanta D. Catarina de Bragança com Carlos II de Inglaterra em 1662. O Tratado de Methuen de 1703, no contexto da Guerra da Sucessão de Espanha, aprofundou a parceria económica, garantindo a entrada do vinho do Douro em Inglaterra em troca de tecidos britânicos em Portugal - uma relação depois estudada por David Ricardo como exemplo de especialização económica. A partir do século XVIII, Portugal consolidou-se na órbita britânica, dependendo do poder naval inglês para proteger as suas ligações ao Brasil. Esta dependência também gerou ressentimentos: Portugal sentia-se por vezes demasiado exposto, como nas Invasões Francesas de 1807, provocadas em grande medida pela recusa portuguesa em romper com Inglaterra; e a Inglaterra via-se sobrecarregada por um aliado que esperava ser salvo sem dar muito em troca.
A segunda parte do episódio centra-se no Desembarque do Mindelo, ocorrido a 8 de julho de 1832, quando as tropas liberais chefiadas por D. Pedro IV desembarcaram perto de Vila do Conde. Os apresentadores explicam o contexto das guerras liberais, traçando a divisão entre liberais - favoráveis a uma monarquia constitucional com parlamento soberano - e absolutistas ou miguelistas, que defendiam a soberania exclusiva do rei. Após a morte de D. João VI em 1826 e a subsequente aclamação de D. Miguel em 1828, os liberais ficaram reduzidos ao exílio em França e Inglaterra, ou à resistência na Ilha Terceira nos Açores.
A expedição liberal contou com mercenários recrutados na Europa - entre um quarto a metade dos efectivos eram estrangeiros - e com uma esquadra essencialmente inglesa. O desembarque no Porto surpreendeu os miguelistas não pela expedição em si, amplamente noticiada, mas pela escolha do local: esperava-se um ataque a Lisboa, onde as forças miguelistas estavam concentradas. No norte, as tropas de D. Miguel encontravam-se dispersas e incapazes de resistir. Porém, ao contrário das expectativas liberais, a população não se levantou espontaneamente, e os liberais acabaram por ficar encurralados no Porto. Em setembro de 1832, os miguelistas tentaram tomar a cidade por assalto, foram repelidos, e instalou-se um cerco que duraria mais de dois anos, deixando em aberto o desfecho das guerras liberais - tema que os apresentadores prometem retomar em episódios futuros.
Personagens
- Eduardo III de Inglaterra
- D. Fernando
- D. Leonor
- D. João I
- Ricardo II de Inglaterra
- John of Gaunt
- D. Filipa de Lancaster
- Infante D. Henrique
- D. Pedro (filho de D. João I)
- D. Duarte
- Henrique VIII
- Isabel I de Inglaterra
- Filipe II de Espanha
- Francis Drake
- D. António (prior do Crato)
- D. João IV
- D. Catarina de Bragança
- Carlos II de Inglaterra
- D. Luísa de Gusmão
- David Ricardo
- Napoleão
- D. Pedro IV
- D. Maria II
- D. Miguel I
- Almeida Garrett
- Alexandre Herculano
- D. João VI
- D. Constância de Castela
- D. Pedro (o Cruel) de Castela
Lugares/Países
- Portugal
- Inglaterra
- Grã-Bretanha
- Reino Unido
- Castela
- Espanha
- França
- Flandres
- Bélgica
- Holanda
- Itália
- Brasil
- Áustria
- Prússia
- Rússia
- Polónia
Épocas
- século XIII
- século XIV
- século XV
- século XVI
- século XVII
- século XVIII
- século XIX
- Idade Média
- Guerras Napoleónicas
- Guerras Liberais
Temas
- diplomacia
- guerra
- alianças militares
- comércio
- casamentos dinásticos
- colonialismo
- religião
- protestantismo
- catolicismo
- liberalismo
- absolutismo
- guerra civil
- exílio político
- monarquia constitucional
- mercenários
Eventos
- Tratado de Tagilde
- Tratado de Windsor
- Guerra dos Cem Anos
- Grande Armada
- Tratado de Methuen
- Batalha de Trafalgar
- Invasões Francesas
- Desembarque do Mindelo
- Revolução Liberal de 1820
- Tratado de Tordesilhas
- Restauração da Independência
Guerras e conflitos
- Guerra dos Cem Anos
- Invasões Francesas
- Guerras Napoleónicas
- Guerras Liberais
- Guerra da Sucessão de Espanha
- Crise de 1383-1385