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Nº 23327 de dezembro de 20231h08análise histórica

Portugal em 1383: esta história merecia um filme

Análise detalhada da crise dinástica de 1383-1385, que levou ao assassinato do Conde de Ourém, à ascensão de D. João I como rei de Portugal e à fundação da dinastia de Avis. Rui Ramos explora as diferentes interpretações historiográficas do período - como crise dinástica, revolução nacional ou revolução social - baseando-se principalmente na Crónica de Fernão Lopes, primeira grande fonte literária da história portuguesa com esse nível de pormenor narrativo.

Ideias principais

  1. A crise de 1383-1385 foi simultaneamente uma disputa dinástica, uma guerra civil entre facções nobres e uma afirmação de identidade portuguesa face a Castela, não podendo ser reduzida a apenas uma dessas dimensões.
  2. A Crónica de Fernão Lopes é a primeira fonte portuguesa com pormenor literário comparável a um romance histórico, incluindo diálogos, caracterização psicológica e reflexões morais, o que permitiu múltiplas interpretações historiográficas ao longo dos séculos.
  3. A interpretação marxista de 1383 como revolução burguesa contra a nobreza feudal não se sustenta, sendo mais adequado ver o conflito como disputa entre facções nobres com mobilização popular instrumentalizada.
  4. A dinastia de Avis nasceu com défice de legitimidade dinástica, compensado por três factores: escolha em cortes (quase-parlamentarismo), aliança inglesa estratégica e grandes empresas militares como a conquista de Ceuta para provar o direito a reinar.
  5. O contexto da peste negra (que reduziu a população portuguesa de 1,5 milhões para 1 milhão), carestia, guerra e cisma papal criou um ambiente apocalíptico e milenarista propício a levantamentos populares e figuras messiânicas como o Mestre de Avis.

Resumo do episódio

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares debruçam-se sobre a crise dinástica de 1383-1385, um dos períodos mais dramáticos e complexos da história medieval portuguesa. O pretexto de partida é quase lúdico - porque razão não existe ainda uma grande série de televisão sobre estes acontecimentos? - mas serve de mola para uma análise histórica aprofundada, que começa pela extraordinária fonte que os sustenta: a Crónica de D. João I, de Fernão Lopes, composta cerca de cinquenta anos depois dos eventos, por alguém que terá conhecido pessoalmente muitos dos seus protagonistas. Os apresentadores sublinham que esta crónica não é um mero registo de datas, mas uma obra literária de grande vivacidade, com descrições de personagens, diálogos e cenas construídas com uma linguagem que, aos olhos dos leitores dos séculos XIX e XX, pareceu simultaneamente genuína e popular, o que contribuiu para fazer de 1383 o primeiro grande acontecimento da história portuguesa retratado com semelhante nível de pormenor.

O contexto em que tudo rebenta é o da morte do rei D. Fernando, em outubro de 1383, sem herdeiro masculino. A sua filha, a infanta D. Beatriz, com apenas dez anos, estava casada com o rei de Castela, e a regência do reino cabia à rainha D. Leonor Teles, figura detestada por muitos e acusada de manter uma relação adúltera com o nobre galego João Fernandes Andeiro, conde de Ourém. Para além da regente, havia outros candidatos à condução do reino: o próprio rei de Castela, que podia invocar o casamento com D. Beatriz, e os filhos bastardos de D. Pedro I, entre os quais o infante D. João, filho de Inês de Castro, e o Mestre de Avis, também chamado D. João. É neste quadro de ambições cruzadas e conspirações que, a 6 de dezembro de 1383, o Mestre de Avis mata o conde de Andeiro no paço real, num golpe palaciano cuidadosamente preparado, ao qual se somou uma insurreição popular nas ruas de Lisboa, intencionalmente suscitada pelos conspiradores. A multidão acabou por fugir ao controlo dos seus promotores, assassinando o bispo da cidade e ameaçando a comunidade judaica.

Rui Ramos expõe de seguida as principais interpretações historiográficas sobre estes eventos. A visão nacionalista, dominante desde o século XIX, apresenta 1383 como uma afirmação da identidade nacional portuguesa contra a ameaça castelhana. Os apresentadores reconhecem que a crónica de Fernão Lopes oferece elementos para esta leitura - os portugueses distinguem claramente os castelhanos como inimigos mortais -, mas alertam para os seus limites: muitas cidades portuguesas, sobretudo no norte, apoiaram o rei de Castela como o legítimo soberano, e vários nobres, incluindo irmãos de Nuno Álvares Pereira, combateram ao seu lado. O que estava verdadeiramente em disputa era a questão da legitimidade dinástica, não uma consciência nacional no sentido moderno. A leitura marxista, que descreveu 1383 como uma revolução burguesa contra a nobreza feudal, é igualmente escrutinada e descartada: os apoiantes do Mestre de Avis incluíam dezenas de fidalgos, e a sociedade não sofreu qualquer transformação estrutural depois de 1385.

O episódio termina com uma reflexão sobre as três consequências duradouras desta crise: a confirmação de Lisboa como centro decisor do reino; o estabelecimento da aliança inglesa, consumada no Tratado de Windsor de 1386; e a fundação de uma dinastia - a de Avis - que, precisamente por ter chegado ao poder de forma contestada e necessitar de legitimação permanente, se viu impelida a grandes empreendimentos, das cortes convocadas com invulgar frequência às conquistas ultramarinas, numa prática de governo que os apresentadores comparam, com alguma surpresa, ao modelo parlamentar inglês. É aqui, sugerem, que radica parte do impulso que levaria Portugal aos descobrimentos.

Personagens

  • D. João I
  • D. Fernando
  • D. Leonor Teles
  • D. Beatriz
  • João Fernandes Andeiro (Conde de Ourém)
  • Nuno Álvares Pereira
  • Fernão Lopes
  • D. Pedro I
  • D. Inês de Castro
  • Infante D. João (filho de Inês de Castro)
  • Infante D. Dinis (filho de Inês de Castro)
  • Álvaro Pais
  • João Afonso Telo (Conde, irmão de Leonor Teles)
  • João das Regras
  • Rei de Castela João I
  • Luís de Camões
  • António Sérgio
  • Álvaro Cunhal
  • Oliveira Martins
  • D. Afonso Henriques
  • D. Duarte
  • D. Leonor de Aragão
  • Infante D. Pedro (regente no século XV)
  • D. Afonso V
  • Papa Clemente VII
  • Papa Urbano VI
  • Arcebispo de Braga
  • Bispo de Lisboa
  • Duque de Lancaster
  • D. Pedro de Castela
  • Infante D. Henrique
  • D. Sebastião
  • Teresa Lourenço

Lugares/Países

  • Portugal
  • Castela
  • Galiza
  • Inglaterra
  • França
  • Itália
  • Espanha

Épocas

  • século XIV
  • século XV
  • século XII
  • século XVI
  • século XIX
  • século XX
  • Idade Média

Temas

  • crise dinástica
  • guerra civil
  • independência nacional
  • conspiração
  • golpe de Estado
  • revolução social
  • legitimidade política
  • luta de classes
  • nacionalismo
  • cisma papal
  • religião
  • peste negra
  • expansão marítima
  • aliança anglo-portuguesa
  • monarquia parlamentar
  • misticismo
  • profecia
  • milenarismo

Eventos

  • Crise de 1383-1385
  • Assassinato do Conde de Ourém (6 de dezembro de 1383)
  • Batalha de Aljubarrota (1385)
  • Cerco de Lisboa (1384)
  • Cortes de Coimbra (março de 1385)
  • Conquista de Ceuta (1415)
  • Tratado de Windsor (9 de maio de 1385)
  • Peste Negra (1348)
  • Cisma do Ocidente (1378)

Guerras e conflitos

  • Crise de 1383-1385
  • Guerra dos Cem Anos
  • Guerras Fernandinas

Livros citados

  • Crónica de D. João I (Fernão Lopes)
  • Os Lusíadas (Luís de Camões)
  • História de Portugal (Oliveira Martins)