Nº 24627 de março de 20241h14análise histórica
Portugal em 1985: o que foi o fenómeno PRD?
O episódio analisa o fenómeno do PRD (Partido Renovador Democrático), partido criado em 1985 à sombra do Presidente Ramalho Eanes, que obteve 18% dos votos mas desapareceu em apenas dois anos. Rui Ramos explica como o prestígio de Eanes enquanto figura militar suprapartidária funcionou na Presidência mas falhou completamente como veículo partidário, revelando a incompatibilidade entre liderança bonapartista e democracia parlamentar consolidada.
Ideias principais
- O PRD foi essencialmente um partido pessoal de Ramalho Eanes, sem identidade ideológica clara, reunindo dissidentes do PS, PSD e figuras do MFA apenas pela figura do general
- A ambiguidade política que era uma força de Eanes como Presidente suprapartidário tornou-se uma fraqueza fatal quando tentou liderar um partido parlamentar que ninguém conseguia situar no espectro político
- A revisão constitucional de 1982, promovida por Mário Soares e Sá Carneiro, reduziu drasticamente os poderes do Presidente da República e acabou com a tutela militar revolucionária, criando o contexto para o nascimento do PRD
- Entre 1985 e 1987 Portugal transformou-se radicalmente com a entrada na CEE e o crescimento económico, tornando obsoletas as referências revolucionárias e militares que Eanes representava
- O colapso do PRD de 18% para 5% em apenas dois anos ilustra como o bonapartismo ou golismo - liderança militar carismática acima dos partidos - não é sustentável num sistema parlamentar consolidado
Resumo do episódio
Este episódio de *E o Resto é História* debruça-se sobre o Partido Renovador Democrático, o PRD, que em outubro de 1985 obteve quase 18% dos votos nas eleições legislativas portuguesas, um resultado que levou muitos comentadores a traçar paralelos com a votação recente do Chega. Para perceber o fenómeno, Rui Ramos e João Miguel Tavares recuam uma década, até à figura central de toda esta história: o general António Ramalho Eanes.
Eanes tornara-se uma figura incontornável da política portuguesa graças ao seu papel no 25 de Novembro de 1975, quando comandou operacionalmente as forças que desarmaram os grupos militares alinhados com o PCP e a extrema-esquerda. A seguir, como chefe do Estado-Maior do Exército, foi ele quem repôs a hierarquia e a ordem nas Forças Armadas, num momento em que o país saía de um período revolucionário turbulento. Em 1976, foi escolhido pelo chamado Grupo dos Nove do Conselho da Revolução para ser candidato à presidência da República, cargo que acumulava então funções de presidente do Conselho da Revolução e de chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas. Eleito com 61,5% dos votos, Eanes governou num sistema em que o presidente tinha poderes muito superiores aos actuais, podendo demitir governos sem necessidade de invocar qualquer crise institucional grave. Esta arquitectura constitucional, somada à instabilidade parlamentar dos anos seguintes - com cinco governos constitucionais até 1980, três deles de iniciativa presidencial -, tornou Eanes numa figura omnipresente e sistematicamente a mais popular do regime, numa postura austera e quase enigmática que os apresentadores descrevem como o oposto dos militares extrovertidos da Revolução.
Em torno de Eanes desenvolveu-se aquilo que ficou conhecido como o «ianismo»: uma corrente de apoio ao presidente que atravessava transversalmente o PS e o PSD, criando dissidências internas nos dois partidos e atraindo também a simpatia do PCP, que via na figura presidencial uma alavanca de influência semelhante à que tinha tentado exercer sobre o MFA em 1974. Esta ambiguidade ideológica era simultaneamente a força e a fraqueza estrutural do fenómeno. A revisão constitucional de 1982, negociada entre Mário Soares e o PSD, retirou ao presidente o poder de demitir governos livremente e extinguiu o Conselho da Revolução, o que Eanes viveu como uma traição. A partir daqui, e com o fim do segundo mandato presidencial à vista, começa a ganhar forma a ideia de criar um partido político que servisse de veículo à continuidade da influência de Eanes.
O PRD foi fundado precisamente com esse propósito. Sem qualquer homogeneidade ideológica, reuniu dissidentes do PS, quadros históricos do PSD, oficiais do MFA e independentes, liderado formalmente por Hermínio Martinho, um lavrador de Santarém praticamente desconhecido do grande público. Nas eleições de outubro de 1985, o partido surpreendeu ao conquistar quase 18% dos votos e 45 deputados, em grande medida à custa de um PS em colapso - que caiu de 36% para pouco mais de 20% -, o que sugeria uma transferência maciça de voto de socialistas descontentes com o governo do Bloco Central de Mário Soares. O resultado foi espectacular, mas os sinais de fragilidade eram imediatos: nas autárquicas de dezembro desse mesmo ano, o PRD não chegou aos 5%, denunciando a ausência de estruturas locais e de uma identidade política coerente.
O declínio acelerou-se a partir de 1986. Nas presidenciais de janeiro desse ano, a candidatura do PRD, entregue a Salgado Zanha, foi sabotada por Lourdes Pintassilgo, que avançou por conta própria dividindo o voto ianista e permitindo que Mário Soares passasse à segunda volta, onde venceu. Em outubro de 1986, Eanes assumiu pessoalmente a liderança do PRD, mas a figura suprapartidária que funcionara magistralmente na presidência da República revelou-se inadequada à luta partidária: apelava aos eleitores que «votassem em consciência», como se continuasse a ser chefe de Estado e não líder de um partido. A manobra de derrubar o governo minoritário de Cavaco Silva na primavera de 1987 para propor uma coligação com PS e PCP
Personagens
- André Ventura
- Ramalho Eanes
- Hermínio Martinho
- Cavaco Silva
- António de Spínola
- Otelo Saraiva de Carvalho
- Álvaro Cunhal
- Mário Soares
- Francisco Sá Carneiro
- Francisco Pinto Balsemão
- Carlos Mota Pinto
- Salgado Zenha
- Vítor Constâncio
- Jorge Sampaio
- António Guterres
- Maria de Lourdes Pintasilgo
- Pinheiro de Azevedo
- Octávio Pato
- Soares Carneiro
- Freitas do Amaral
- Medeiros Ferreira
- Magalhães Mota
- Melo Antunes
- Vitor Alves
- Manuela Eanes
- Miguel Torga
- Américo Tomás
- Carmona
- Nobre da Costa
Lugares/Países
- Portugal
- França
- Estados Unidos da América
- Irão
- Iraque
Épocas
- Estado Novo
- 25 de Abril de 1974
- PREC (1974-1975)
- Década de 1980
- Transição democrática portuguesa
Temas
- partidos políticos
- presidencialismo
- semipresidencialismo
- revisão constitucional
- bonapartismo
- golismo
- populismo
- austeridade
- nacionalizações
- integração europeia
- militares na política
- divisões partidárias
Eventos
- 25 de Novembro de 1975
- Eleições legislativas de 1976
- Eleições presidenciais de 1976
- Revisão constitucional de 1982
- Eleições legislativas de 1985
- Eleições presidenciais de 1986
- Eleições legislativas de 1987
- Adesão à CEE
- Bloco Central
Guerras e conflitos
- Guerra Irão-Iraque