Nº 17807 de dezembro de 202250:51análise histórica
Qatar e Roménia: que países são estes?
O episódio analisa a história do Qatar e da Roménia, dois países em destaque pela actualidade: o Qatar como anfitrião do Mundial de futebol, e a Roménia por ultrapassar Portugal em PIB per capita. Ambos partilham a característica de serem estados relativamente recentes, com fronteiras e identidades moldadas por impérios multinacionais, rivalidades de potências e recursos naturais, representando experiências históricas distintas de construção nacional e modernização.
Ideias principais
- A maioria dos estados actuais no mundo são muito recentes, formados da desagregação de impérios multinacionais nos séculos XX e XXI, contrastando com a antiguidade de Portugal.
- O Qatar exemplifica como micro-estados conseguiram autonomia jogando com rivalidades entre grandes potências (portugueses, otomanos, britânicos), mantendo-se independentes através de alianças estratégicas até hoje.
- A Roménia representa uma anomalia europeia: uma ilha latina e ortodoxa no leste europeu, cuja origem romanizada após apenas um século de domínio romano (106-275 d.C.) permanece historiograficamente disputada e politicamente carregada.
- O regime comunista de Ceaușescu paradoxalmente combinou distanciamento da União Soviética em política externa com repressão interna brutal, pagando a dívida externa nos anos 80 à custa de austeridade extrema que levou à revolução sangrenta de 1989.
- Tanto o Qatar (monarquia absoluta islâmica com 90% de imigrantes sem cidadania) como a Roménia pós-comunista (liberalização económica radical) representam experiências históricas cujos resultados a longo prazo permanecem incertos.
Resumo do episódio
Este episódio de *E o Resto é História* debruça-se sobre dois países que, à época da gravação, dominavam as notícias: o Qatar, palco do Campeonato do Mundo de futebol, e a Roménia, que se preparava para ultrapassar Portugal em termos de PIB per capita em paridade de poder de compra. Rui Ramos e João Miguel Tavares começam por contextualizar ambos os casos no quadro mais amplo da história dos Estados modernos, recordando que a grande maioria dos países do mundo é politicamente muito recente - muitos europeus de leste têm apenas trinta anos de independência, e os africanos pouco mais de sessenta.
O Qatar é apresentado como um microestado peninsular no Golfo Pérsico, com apenas onze mil quilómetros quadrados de planície arenosa, que contava com pouco mais de cinquenta mil habitantes quando se tornou independente, em 1971. A chave da sua sobrevivência como entidade autónoma é explicada pela habilidade da família Al-Thani - no poder desde 1825 - em jogar com as rivalidades entre grandes potências: primeiro entre o Império Otomano e os portugueses no século XVI, depois entre os otomanos e os britânicos no século XIX, e mais tarde entre os Estados Unidos e outros actores regionais. Ao cederem a gestão das relações externas à Grã-Bretanha, os Al-Thani garantiram protecção sem perder o controlo interno. Rui Ramos sublinha que este padrão - pequenos Estados a sobreviver porque as grandes potências têm interesse em mantê-los - é também reconhecível noutros contextos, incluindo o de Portugal.
Os apresentadores identificam dois traços que tornam o Qatar um «laboratório histórico» de resultado ainda incerto. O primeiro é a combinação aparentemente contraditória entre uma monarquia absoluta de cariz islâmico rigorista - com aplicação da sharia, criminalização da homossexualidade e proibição de criticar o emir - e uma modernização tecnológica e científica acelerada, simbolizada pela criação da Al Jazeera e pela organização do Mundial. O segundo traço é a estrutura demográfica radicalmente desigual: apenas cerca de dez por cento da população detém cidadania catari, enquanto os restantes noventa por cento são trabalhadores imigrantes, sobretudo asiáticos, sem acesso a direitos cívicos. Três quartos da população é masculina. Ambas as experiências dependem, segundo os apresentadores, das receitas do gás e do petróleo, e ninguém sabe o que acontecerá quando essas receitas diminuírem.
A segunda metade do episódio é dedicada à Roménia. Rui Ramos começa por assinalar a dificuldade de encaixar este país nas categorias habituais da história europeia: está no leste, mas tem uma língua latina; é cristã, mas ortodoxa, não católica. A origem da latinidade romena é ela própria disputada, com teorias que divergem sobre se resultou da romanização durante o breve período em que a Dácia foi província romana (106–275 d.C.) ou de migrações posteriores vindas do sul do Danúbio. Essa disputa historiográfica nunca foi inocente, pois serve para legitimar ou contestar reivindicações territoriais, nomeadamente entre romenos e húngaros relativamente à Transilvânia.
A construção do Estado romeno no século XIX seguiu o padrão regional: união das províncias da Valáquia e da Moldávia em 1859, adopção de um rei alemão e aproveitamento dos grandes conflitos do século XX para expandir fronteiras - a Roménia duplicou o seu território após a Primeira Guerra Mundial. A Segunda Guerra Mundial foi mais acidentada, mas acabou também com ganhos territoriais, nomeadamente a recuperação da Transilvânia. O episódio encerra com uma análise do comunismo romeno: Ceaușescu distinguiu-se das restantes ditaduras do bloco soviético ao afastar-se de Moscovo, mas essa autonomia externa coexistiu com uma repressão interna muito mais intensa e com uma austeridade brutal nos anos 1980, destinada a liquidar a dívida externa. Daí que a transição de 1989 tenha sido mais violenta do que noutros países. Desde então, a Roménia democratizou-se, aderiu à União Europeia em 2007, adoptou um imposto único de dezasseis por cento e tornou-se uma das economias de crescimento mais rápido da Europa, confirmando, segundo os apresentadores, que o comunismo foi a principal causa do seu empobrecimento.
Personagens
- Nicolau Ceaușescu
- Helena Ceaușescu
- Emile Cioran
- Eugène Ionesco
Lugares/Países
- Qatar
- Roménia
- Portugal
- Grã-Bretanha
- Arábia Saudita
- Império Otomano
- União Soviética
- Rússia
- Império Austro-Húngaro
- Hungria
- Moldávia
- Transilvânia
- Bulgária
- Grécia
- Alemanha
- China
- Jugoslávia
- Checoslováquia
- Albânia
- Irão
- Iraque
- Kuwait
- Turquia
- Egito
- Índia
- Nepal
- Ucrânia
- Eslovénia
- Croácia
- Macedónia
- Valáquia
- Península Arábica
- Império Romano
- Península Ibérica
- Balcãs
- Europa Oriental
- Golfo Pérsico
- Dácia
Épocas
- século XVI
- século XVIII
- século XIX
- século XX
- século XXI
- Idade Média
- década de 1960
- década de 1970
- década de 1980
- 1989
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Fria
Temas
- independência nacional
- formação de estados
- petróleo e gás natural
- monarquia absoluta
- islamismo
- imigração
- imperalismo
- comunismo
- ditadura
- revolução
- democracia
- economia
- identidade nacional
- religião
- diplomacia
- rivalidade de potências
- fronteiras
- autonomia política
- nacionalismo
- romanização
- ortodoxia religiosa
- liberalização económica
- dívida externa
- repressão política
Eventos
- Campeonato do Mundo de Futebol 2022
- Revolução Romena de 1989
- Pacto Germano-Soviético
- invasão soviética da Checoslováquia 1968
- fim da União Soviética
- dissolução da Jugoslávia
- Guerra do Golfo
- Primavera Árabe
Guerras e conflitos
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra do Golfo
- Guerra do Iraque 2003
- invasão da Checoslováquia 1968