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Nº 4413 de maio de 202042:25resposta a ouvintes

Quais são as qualidades de um grande historiador?

Episódio dedicado à relação entre história e ideologia, partindo de uma polémica sobre Rui Tavares e respondendo à pergunta de um ouvinte sobre as qualidades de um grande historiador. Rui Ramos defende que a curiosidade pelo passado deve prevalecer sobre objectivos ideológicos, embora as preferências políticas possam inspirar novas abordagens. A segunda parte centra-se na ascensão de Winston Churchill a primeiro-ministro em maio de 1940, analisando como um político visto como fracassado se tornou o líder que salvou a civilização ocidental da ameaça nazi.

Ideias principais

  1. A principal qualidade de um grande historiador é a curiosidade genuína pelo passado, não a procura de um passado útil para servir causas ideológicas do presente.
  2. As preferências políticas do historiador podem inspirar novas abordagens e descobertas, como demonstra o exemplo de Alexandre Herculano que, ao tentar fazer história do terceiro Estado, acabou por escrever a história das origens de Portugal.
  3. Winston Churchill era visto como um político fracassado até 1940, marcado por desastres como Galípoli, mudanças constantes de partido e causas impopulares como a oposição ao autogoverno da Índia e ao apaziguamento de Hitler.
  4. A ascensão de Churchill a primeiro-ministro resultou da conjugação de três factores: a derrota na Noruega, a necessidade de um governo de unidade nacional, e o reconhecimento por Chamberlain de que a política de apaziguamento tinha falhado e era necessário lutar até ao fim.
  5. A vitória de Churchill sobre Hitler custou-lhe exactamente aquilo que mais valorizava: o Império Britânico desmantelou-se, o Partido Trabalhista ascendeu ao poder, e a Polónia (cuja defesa motivara a guerra) ficou sob domínio soviético, confirmando as previsões de Chamberlain sobre o custo da guerra.
  6. Rui Ramos propõe como projecto de série televisiva o período 1820-1834 em Portugal, considerando-o a maior transformação dos últimos 200 anos - a passagem da monarquia católica tradicional para o Estado liberal, incluindo a guerra civil mais violenta da história portuguesa e o fim de instituições centenárias.

Resumo do episódio

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares partem de uma polémica pública - as críticas do CDS à presença do historiador e político Rui Tavares num programa televisivo sobre a Exposição do Mundo Português de 1940 - para colocar uma questão mais funda e duradoura: qual é a relação entre história e ideologia, e até que ponto um historiador pode, ou deve, separar as suas convicções políticas do seu trabalho científico? A esta pergunta junta-se outra, enviada por um estudante de História de Coimbra: qual é a função social do historiador e quais as qualidades que fazem de um licenciado um grande historiador?

Rui Ramos começa por reconhecer que algumas dessas qualidades se podem ensinar, outras estimular, mas que há um núcleo que escapa ao ensino formal. A mais essencial é a curiosidade genuína pelo passado - uma paixão pessoal pelo que aconteceu, que funciona ao mesmo tempo como motor e como bússola. Sem esse interesse primário, dificilmente se produz história de qualidade. Quanto à ideologia, Ramos recusa a ideia de que ela seja incompatível com o bom trabalho histórico. As preferências políticas fazem parte de quem o historiador é enquanto pessoa, e essa identidade não pode ser artificialmente suspensa. Mais do que isso, essas inclinações podem revelar-se produtivas: um historiador com sensibilidade liberal, por exemplo, pode estar mais desperto para identificar dimensões de iniciativa individual na expansão portuguesa dos séculos XV e XVI, aspectos que uma leitura centrada no Estado tenderia a ignorar. O problema surge apenas quando o objectivo deixa de ser compreender o passado e passa a ser utilizá-lo para servir causas do presente - fabricar uma memória conveniente, sustentar uma posição partidária ou ideológica. Esse uso instrumental da história é, além de desonesto, historicamente ineficaz: os regimes que mais investiram na manipulação do passado não conseguiram, por isso, perpetuar-se. O exemplo de Alexandre Herculano ilustra bem o argumento: começou com um propósito declaradamente ideológico - escrever uma história do terceiro estado para justificar o liberalismo - mas foi arrastado pela força da documentação para uma obra muito diferente e muito maior, a história das origens do reino de Portugal. Foi o estudo, e não a ideologia, que prevaleceu.

A segunda metade do episódio é dedicada a Winston Churchill, cuja chegada ao cargo de primeiro-ministro britânico ocorreu a 10 de maio de 1940, o mesmo dia em que a Alemanha nazi desencadeou a ofensiva a Ocidente. Ramos recorre à biografia de Robert Rhodes James para sublinhar um paradoxo frequentemente esquecido: antes dessa data, Churchill era visto, em grande medida, como um falhado. Galípoli, o regresso ao padrão-ouro com as consequentes políticas de austeridade, as mudanças de partido, a oposição isolada ao autogoverno da Índia e, sobretudo, a resistência à política de apaziguamento de Chamberlain - tudo isso o tornara uma figura controversa e minoritária. É precisamente essa trajetória que torna a sua ascensão tão extraordinária. Os apresentadores sublinham ainda o papel frequentemente menosprezado de Chamberlain: foi ele quem, reconhecendo o fracasso da sua própria política, abriu caminho para Churchill e lhe garantiu o apoio conservador numa fase em que a sobrevivência do governo era incerta. Churchill correspondeu mantendo a determinação de resistir a Hitler mesmo quando a situação parecia desesperada - a queda de França, Dunquerque, o Blitz, os reveses no Norte de África e na Ásia. A sua derrota eleitoral em 1945, logo após a vitória, é interpretada não como ingratidão, mas como confirmação daquilo que o próprio Chamberlain antevira: a guerra destruiu o mundo que ambos, à sua maneira, queriam preservar - o Império Britânico e a hegemonia conservadora.

O episódio termina com duas sugestões culturais: Ramos elege *The World at War*, a série documental da ITV dos anos 1970, como o trabalho televisivo que mais o marcou e que, em parte, o conduziu à história. E, interpelado pela filha de João Miguel Tavares, propõe como tema ideal para uma grande série histórica portuguesa o período entre 1820 e 1834 - a transição da monarquia tradicional para o liberalismo constitucional, com a independência do Brasil, a guerra civil e o fim das ordens religiosas -, uma época decisiva que moldou o Portugal contemporâneo e que permanece pouco conhecida do grande público.

Personagens

  • Rui Tavares
  • Nuno Melo
  • Diogo Fonseca
  • Alexandre Herculano
  • Conde D. Henrique
  • D. Teresa
  • D. Afonso Henriques
  • Winston Churchill
  • Neville Chamberlain
  • Adolf Hitler
  • Lord Halifax
  • Erwin Rommel
  • Josef Stalin
  • Horatio Nelson
  • John Churchill (1º Duque de Marlborough)
  • Robert Rhodes James
  • D. João II
  • Infante D. Henrique
  • Primo Levi
  • Albert Speer
  • Traudl Junge
  • Jeremy Isaacs
  • Laurence Olivier
  • Isabel II do Reino Unido

Lugares/Países

  • Portugal
  • Alemanha
  • Reino Unido
  • França
  • Bélgica
  • Holanda
  • Índia
  • Noruega
  • União Soviética
  • Estados Unidos
  • Japão
  • Polónia
  • Singapura
  • Malásia
  • Egito
  • Grécia
  • Creta
  • Turquia
  • Brasil
  • Espanha

Épocas

  • século XV
  • século XVI
  • século XIX
  • século XX
  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • anos 1930
  • anos 1940
  • Estado Novo

Temas

  • história e ideologia
  • objectividade histórica
  • função social do historiador
  • guerra
  • liderança política
  • imperialismo
  • liberalismo
  • totalitarismo
  • biografia
  • revolução liberal
  • guerra civil

Eventos

  • Exposição do Mundo Português (1940)
  • invasão da Noruega (1940)
  • Batalha de Dunquerque
  • Blitz
  • desembarque de Galípoli
  • independência da Índia
  • Revolução de Agosto de 1820
  • Guerra Civil portuguesa (1834)
  • independência do Brasil (1822)

Guerras e conflitos

  • Segunda Guerra Mundial
  • Primeira Guerra Mundial
  • Guerra Civil Espanhola
  • Guerra Civil portuguesa

Livros citados

  • Churchill: A Study in Failure (Robert Rhodes James)
  • História das Origens do Reino de Portugal (Alexandre Herculano)
  • Biografia do Duque de Marlborough (Winston Churchill)