← Arquivo

Nº 3801 de abril de 202041:10análise histórica

Qual a maior mentira da História de Portugal?

Episódio dedicado ao tema das mentiras históricas e suas consequências, explorando dois casos principais: o uso de fake news no golpe de Estado do Mestre de Avis em 1383, onde se espalhou o rumor falso de que estava a ser assassinado para mobilizar o povo de Lisboa; e a hiperinflação alemã de 1923, resultante da ocupação francesa do Ruhr e da decisão do governo alemão de pagar salários aos trabalhadores em greve através da impressão massiva de dinheiro, destruindo a classe média alemã.

Ideias principais

  1. As fake news não são invenção moderna: em 1383, Álvaro Pais e o Mestre de Avis espalharam deliberadamente a mentira de que o Mestre estava a ser assassinado no palácio, quando na verdade era ele quem estava a matar o Conde Andeiro, mobilizando assim o povo de Lisboa para garantir o sucesso do golpe.
  2. A ocupação francesa do Ruhr em 1923, por incumprimento alemão das reparações de guerra, levou a uma greve geral financiada pelo governo alemão através da impressão massiva de dinheiro, provocando uma hiperinflação que destruiu as poupanças da classe média alemã.
  3. A hiperinflação de 1923 atingiu níveis absurdos: um dólar valia 4,7 marcos em 1914 e 7 trilhões em 1923, com casos documentados de pessoas gastarem as poupanças de toda uma vida num bilhete de metro, contribuindo para a radicalização política que facilitaria a ascensão do nazismo.
  4. As Guerras Liberais portuguesas (1828-1834) tiveram forte dimensão internacional, sendo vistas na Europa como parte do conflito entre liberalismo e absolutismo, com voluntários de vários países (incluindo 200 belgas) a lutarem ao lado de ambos os lados, e potências como França e Inglaterra a apoiarem diplomaticamente os liberais.
  5. O rei Leopoldo I da Bélgica tentou intervir militarmente em Portugal em 1836 para defender a rainha D. Maria II contra a Revolução de Setembro, esperando ser pago com territórios africanos portugueses, mas a oposição inglesa impediu essa intervenção.

Resumo do episódio

Este episódio de *E o Resto é História*, gravado e transmitido pela primeira vez no dia 1 de Abril, parte de uma provocação temática ligada ao Dia das Mentiras: qual seria a maior mentira da história de Portugal? Rui Ramos aproveita o mote para explorar um episódio central da história medieval portuguesa - o golpe de Estado do Mestre de Avis em dezembro de 1383 - e para refletir sobre como as falsas notícias não são um fenómeno moderno, mas uma ferramenta política com raízes tão antigas quanto a própria disputa pelo poder.

O ponto de partida é a morte do rei D. Fernando, que deixou como sucessora a sua filha, casada com o rei de Castela. Neste vácuo de poder, a regência do reino seria provavelmente assumida pela rainha viúva Leonor Teles, com influência determinante do seu favorito, o Conde João Fernandes Andeiro. O Mestre de Avis, filho bastardo do rei D. Pedro e futuro D. João I, organizou uma conspiração para assassinar Andeiro e tomar o controlo político. Para garantir que a multidão lisboeta sufocasse qualquer contra-ataque dos partidários da rainha, os conspiradores arquitetaram uma notícia deliberadamente falsa: no momento exato do assassínio, emissários percorreram as ruas de Lisboa a gritar que era o Mestre de Avis quem estava a ser atacado no paço. A mentira funcionou - a população acorreu ao palácio, a rainha ficou intimidada e acabou por abandonar Lisboa, e o Mestre de Avis foi aclamado regedor e defensor do reino. O principal autor da estratagema, Álvaro Pais, tem hoje uma avenida com o seu nome em Lisboa. Ramos cita ainda o conselho que este terá dado ao futuro monarca: "Dai aquilo que vosso não é, prometei o que não tendes e perdoai a quem não vos fez mal" - uma máxima de oportunismo político que os apresentadores comparam, com alguma ironia, ao pensamento de Maquiavel.

A segunda parte do episódio abandona a Idade Média e desloca-se para a Alemanha de 1923, num paralelismo que Rui Ramos admite ser deliberadamente inquietante face ao contexto da pandemia de COVID-19 então em curso. A ocupação francesa do Vale do Ruhr, região industrial vital para a economia alemã, levou o governo de Weimar a organizar uma resistência passiva em larga escala: milhões de trabalhadores ficaram em casa, em greve, com os salários pagos pelo Estado através da impressão massiva de dinheiro. Esta decisão, aliada a uma inflação já existente desde a Primeira Guerra Mundial, precipitou uma hiperinflação catastrófica. Em outubro de 1923, a quase totalidade das notas em circulação tinha sido emitida nesse mesmo mês; o marco alemão tornara-se virtualmente sem valor. Ramos ilustra o colapso com o exemplo de um cidadão berlinense que levantou todas as poupanças de uma vida - cem mil marcos - e conseguiu apenas comprar um bilhete de metro. A hiperinflação destruiu a classe média alemã, privou-a das suas poupanças e criou as condições de ressentimento e instabilidade que, anos mais tarde, tornariam possível a ascensão do nazismo.

O episódio termina com uma pergunta de um ouvinte sobre a participação belga nas Guerras Liberais portuguesas entre 1832 e 1834. Ramos explica que cerca de duzentos voluntários belgas combateram ao lado dos liberais contra D. Miguel, inserindo-se numa lógica mais ampla de internacionalização dos conflitos entre liberais e absolutistas na Europa oitocentista. Aborda ainda a tentativa, nunca concretizada, de o rei Leopoldo I da Bélgica enviar tropas para defender D. Maria II durante a Revolução de Setembro de 1836, em troca de possessões coloniais portuguesas em África - projeto que os ingleses bloquearam, impedindo assim que Portugal pagasse a sua estabilidade política com territórios que viriam a ser Angola ou Moçambique.

Personagens

  • João Fernandes Andeiro
  • D. Leonor Teles
  • D. Fernando I
  • D. João I (Mestre de Avis)
  • D. Pedro I
  • Álvaro Pais
  • Fernão Lopes
  • Bispo de Lisboa
  • Leopoldo I da Bélgica
  • D. Maria II
  • D. Fernando II
  • D. Pedro IV
  • D. Miguel I
  • Charles Napier
  • General Solignac
  • General Bourmont
  • Junot
  • Luís Filipe de Orléans
  • Rainha Vitória
  • Frederick Taylor
  • Maximiliano Berne

Lugares/Países

  • Portugal
  • Castela
  • França
  • Bélgica
  • Alemanha
  • Inglaterra
  • Espanha
  • Holanda
  • Rússia
  • Áustria
  • Polónia
  • Itália
  • América Latina
  • Angola
  • Moçambique

Épocas

  • século XIV
  • 1383
  • Primeira Guerra Mundial
  • 1923
  • República de Weimar
  • século XIX
  • 1828-1834
  • 1830
  • 1836
  • guerras napoleónicas
  • 1807
  • 1914-1918

Temas

  • golpe de Estado
  • fake news
  • propaganda política
  • guerra civil
  • liberalismo vs absolutismo
  • hiperinflação
  • economia
  • resistência não violenta
  • reparações de guerra
  • política monetária
  • intervenção estrangeira
  • diplomacia

Eventos

  • Golpe de Estado de 1383
  • Crise de 1383-1385
  • Ocupação do Ruhr
  • Tratado de Versalhes
  • Hiperinflação alemã de 1923
  • Guerras Liberais
  • Revolução de Setembro de 1836
  • Conferência de Paz de Paris
  • Monarquia de Julho

Guerras e conflitos

  • Primeira Guerra Mundial
  • Guerras Liberais (1828-1834)
  • Guerra Civil Portuguesa
  • Guerra Civil de Espanha (1936-1939)
  • Guerras Napoleónicas

Livros citados

  • Crónica de D. João I (Fernão Lopes)
  • The Downfall of Money (Frederick Taylor)