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Nº 14918 de maio de 202249:34análise histórica

Qual é o problema entre a China e Taiwan?

O episódio explica as origens históricas da divisão entre Taiwan (República da China) e a China continental (República Popular da China) desde a Guerra Civil Chinesa de 1949, quando Chiang Kai-shek se refugiou em Taiwan após a vitória de Mao Tse-Tung. Analisa a fragmentação do império chinês desde o século XIX, a colonização japonesa de Taiwan (1895-1945), e como a democratização recente de Taiwan criou tensões com Pequim ao fortalecer movimentos independentistas que rejeitam a identidade chinesa única.

Ideias principais

  1. Taiwan e a China continental reivindicam ambos ser a verdadeira China, mas a principal tensão actual não é essa disputa de legitimidade, mas sim o risco de Taiwan abandonar completamente a identidade de República da China para se afirmar como país independente.
  2. A colonização japonesa de Taiwan entre 1895 e 1945 criou uma experiência histórica separada da China continental, com infraestruturas modernas, elevada escolarização e uma identidade cultural distinta que persiste até hoje.
  3. A democratização de Taiwan nos anos 1980-90 inverteu paradoxalmente as alianças históricas: o antigo inimigo Kuomintang está hoje mais próximo de Pequim por defender a unidade chinesa, enquanto partidos pró-independência representam a maior ameaça para a China comunista.
  4. A lei de nacionalidade portuguesa de 1975 foi profundamente racista ao excluir africanos das ex-colónias, mas manteve a cidadania para goeses porque Goa nunca teve estatuto de indígena, tinha meio milénio de presença portuguesa, e não representava risco de imigração em massa.
  5. A desproporção entre Taiwan (23 milhões, tamanho do Alentejo) e a China (mais de mil milhões) torna a situação incomparável à Ucrânia-Rússia, mas a protecção americana historicamente impediu uma invasão chinesa que seria tecnicamente complexa por ser uma operação naval.

Resumo do episódio

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares dedicam-se a explicar as raízes históricas do conflito entre a China continental e Taiwan, partindo da questão que ganhou renovada actualidade depois da invasão russa da Ucrânia: poderá Taiwan sofrer um destino semelhante? Os apresentadores optam, porém, por concentrar-se no passado, procurando perceber por que razão existem dois estados que reclamam ser a legítima China e por que é que a sua relação permanece tão complexa.

O ponto de partida é o fim do século XIX e a desintegração do Império Chinês, agredido por potências estrangeiras e fragmentado internamente por chefes militares regionais que controlavam vastos territórios como exércitos privados. É neste contexto que emergem, nos anos 1920 e 1930, duas figuras determinadas em reunificar a China: Chiang Kai-shek, líder do Partido Nacionalista Kuomintang, e Mao Tsé-Tung, que viria a encabeçar o Partido Comunista Chinês. Rui Ramos sublinha a curiosidade de, nesta fase, a União Soviética apoiar simultaneamente ambos os movimentos e de o próprio Kuomintang ter sido organizado segundo o modelo leninista de partido de vanguarda. A partir dos anos 1930, o Japão impõe-se como o inimigo comum, desencadeando em 1937 uma guerra que os apresentadores consideram o verdadeiro início da Segunda Guerra Mundial na sua dimensão asiática, tanto quanto o conflito europeu de 1939.

Com a derrota japonesa em 1945, a China ficou dividida entre o governo nacionalista reconhecido internacionalmente e o poderoso movimento comunista armado de Mao. Ao contrário do que sucedeu em França e em Itália, onde os comunistas aceitaram o processo eleitoral, na China o confronto armado prevaleceu. Em 1949, Mao venceu a guerra civil, e Chiang Kai-shek retirou-se para Taiwan com cerca de um a dois milhões de soldados e civis, incluindo o tesouro e o recheio dos mais importantes museus chineses. Taiwan, que tinha sido colónia japonesa entre 1895 e 1945, passou assim a albergar a República da China, enquanto o continente se tornava a República Popular da China. Durante décadas, os Estados Unidos e grande parte do Ocidente recusaram reconhecer Pequim, e foi Taiwan que representou a China nas Nações Unidas, incluindo no Conselho de Segurança, até 1971.

Os apresentadores explicam que o verdadeiro problema actual não é tanto a disputa sobre qual dos dois estados representa legitimamente a China, mas sim a possibilidade de Taiwan abandonar a sua identidade como República da China e afirmar uma identidade exclusivamente taiwanesa. Para isso contribuem vários factores históricos: os cinquenta anos de colonização japonesa, que afastaram Taiwan da China continental; uma revolta local em 1947 contra a administração de Chiang Kai-shek; a origem da maioria da população taiwanesa numa única província do sul da China, falante de um dialecto distinto; o reconhecimento crescente de uma cultura aborígene pré-chinesa; e, sobretudo, a transição para a democracia nos anos 1980 e 1990, que permitiu o surgimento de partidos favoráveis à independência formal. Curiosamente, é hoje o Kuomintang - historicamente o inimigo mortal dos comunistas - quem defende a manutenção da identidade chinesa de Taiwan e com quem Pequim tem mais afinidade, precisamente porque salvaguarda a ideia de que os dois estados não são estrangeiros um ao outro.

Na parte final do episódio, a conversa desloca-se para um tema aparentemente distante mas revelador: a lei de nacionalidade portuguesa de 1975, que João Miguel Tavares descreve como um dos actos mais vergonhosos da descolonização, por ter privado de facto os nascidos em Angola, Moçambique e Guiné do direito à nacionalidade portuguesa com base num critério de ascendência europeia - uma exclusão que Rui Ramos não hesita em classificar como racista. A excepção concedida aos goeses explica-se pela dimensão reduzida da população em causa, pela ausência de um fluxo migratório significativo, e sobretudo pela posição histórica singular de Goa: com presença portuguesa desde o século XVI, nunca sujeita ao estatuto de indigenato, com uma população maioritariamente cristianizada e uma elite administrativa e intelectual que circulava por todo o império, Goa era percepcionada em Lisboa como algo qualitativamente diferente das colónias africanas.

Personagens

  • Chiang Kai-shek
  • Mao Tse-Tung
  • Sun Yat-sen
  • Richard Nixon
  • Salazar

Lugares/Países

  • Taiwan
  • China
  • República da China
  • República Popular da China
  • Japão
  • Estados Unidos
  • Rússia
  • Ucrânia
  • União Soviética
  • Portugal
  • Inglaterra
  • França
  • Alemanha
  • Itália
  • Coreia do Norte
  • Coreia do Sul
  • Tibete
  • Hong Kong
  • Macau
  • Goa
  • Índia
  • Angola
  • Moçambique
  • Guiné
  • Timor-Leste
  • Indonésia
  • Argélia
  • Austrália
  • Nova Zelândia
  • Malásia
  • Polinésia

Épocas

  • século XIX
  • século XX
  • século XVI
  • século XVII
  • Guerra Fria
  • Segunda Guerra Mundial
  • anos 1920
  • anos 1930
  • anos 1940
  • anos 1950
  • anos 1960
  • anos 1970
  • anos 1980
  • anos 1990

Temas

  • guerra civil
  • colonialismo
  • descolonização
  • comunismo
  • nacionalismo
  • ditadura
  • democracia
  • imperialismo
  • fragmentação territorial
  • identidade nacional
  • migração
  • reconhecimento internacional
  • diplomacia
  • relações internacionais
  • escolarização
  • cultura aborígene
  • nacionalidade
  • racismo

Eventos

  • invasão da Ucrânia pela Rússia
  • Guerra Civil Chinesa
  • tomada de poder pelos comunistas em 1949
  • ocupação japonesa de Taiwan
  • visita de Nixon à China em 1972
  • anexação de Taiwan pelo Japão em 1895
  • proclamação da República na China em 1911
  • Guerra da Coreia
  • revolução de 25 de Abril de 1974
  • invasão de Goa em 1961
  • invasão de Timor-Leste em 1975
  • República da Formosa em 1895
  • anexação do Tibete em 1951

Guerras e conflitos

  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Civil Chinesa
  • Guerra da Coreia
  • guerra entre China e Japão de 1937