← Arquivo

Nº 28601 de janeiro de 202558:24resposta a ouvintes

Qual foi o primeiro país do mundo?

Rui Ramos responde à pergunta de uma ouvinte sobre qual foi o primeiro país do mundo, começando por definir rigorosamente o que é um país moderno (população com identidade comum, instituições representativas, território definido, soberania). Conclui que o Antigo Egito pode ter sido o primeiro país da história, mas que os países tal como os conhecemos hoje - incluindo Portugal - são construções do século XIX, quando a legitimidade dinástica deu lugar à legitimidade nacional.

Ideias principais

  1. Um país moderno define-se por quatro características: população com identidade comum, instituições de governo partilhadas, território delimitado com relação emocional, e independência/soberania perante poderes externos.
  2. O Antigo Egito (desde 3100 a.C.) pode ter sido o primeiro país da história, com população unida por língua e cultura, dinastia contínua, consciência territorial centrada no Nilo e distinção clara face a estrangeiros - embora o Egito moderno não seja uma continuidade directa.
  3. Japão e China são candidatos fortes a países antigos com continuidade até hoje: o Japão tem a mesma dinastia desde pelo menos o século IV d.C. e versos do hino nacional do século X; a China unificou-se em 221 a.C. e mantém o mesmo sistema de escrita desde a dinastia Shang.
  4. A maior parte dos países europeus, incluindo Portugal, só adquiriram as características de país moderno no século XIX, quando a legitimidade deixou de ser dinástica e passou a ser nacional - em 1815, no Congresso de Viena, ainda era a dinastia que garantia a existência do Estado, não a nação.
  5. Portugal tem elementos de continuidade únicos (língua, homogeneidade religiosa, consciência histórica desde Os Lusíadas, resistências em 1383 e 1640) que o tornam candidato a um dos primeiros países modernos da Europa, juntamente com Inglaterra e França.

Resumo do episódio

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares respondem à pergunta da pequena Lara, de 9 anos, filha de uma ouvinte chamada Mónica Martins: qual foi o primeiro país do mundo? A questão parece simples, mas os apresentadores rapidamente mostram que é extraordinariamente complexa, pois obriga a definir primeiro o que se entende por "país" - e a definição está longe de ser óbvia.

Para estabelecer um ponto de partida, Rui Ramos propõe quatro características que definem um país como Portugal nos dias de hoje: uma população que partilha uma cultura, língua e referências comuns; instituições de governo reconhecidas como legítimas por essa população; um território com fronteiras definidas com o qual os habitantes têm uma relação emocional; e, finalmente, a independência ou soberania face a poderes externos. Com esta grelha em mão, os apresentadores percorrem a história para perceber quando é que este conjunto de elementos surgiu pela primeira vez.

Nas fases mais antigas da humanidade, antes da invenção da agricultura há cerca de 10 000 anos, as populações nómadas provavelmente se organizavam em torno de laços de parentesco, língua e religião, sem uma noção clara de território permanente. A sedentarização, ocorrida nos grandes vales fluviais - o Nilo, o Eufrates e o Tigre, o Indo e o Rio Amarelo -, deu origem às primeiras civilizações complexas. Contudo, os historiadores descrevem essas unidades políticas como cidades-estado ou impérios, não como países. O Império Romano, por exemplo, apesar de ter legado conceitos fundamentais como pátria, cidadania e soberania, era uma entidade demasiado heterogénea para ser classificada como país no sentido moderno.

Rui Ramos aventura-se, ainda assim, a identificar alguns candidatos históricos. O Antigo Egito surge como o mais plausível precursor da ideia de país: tinha uma população com língua e cultura partilhadas, uma dinastia que afirmava uma continuidade de milénios, uma consciência clara da sua terra definida pelo vale do Nilo e uma distinção nítida entre egípcios e estrangeiros. O Japão é outro candidato forte, com uma dinastia ininterrupta desde pelo menos o século IV d.C., um nome próprio - Nippon - e até versos do hino nacional que remontam ao século X. A China, unificada pela dinastia Qin em 221 a.C., é igualmente referida. Porém, ressalva-se que o Egito moderno e a China de hoje são entidades bastante diferentes das antigas civilizações que lhes deram origem.

O debate converge, no entanto, para a Europa dos séculos XVIII e XIX como o momento em que surgem os países tal como os conhecemos hoje. Na Idade Média e no início da Modernidade, a legitimidade política assentava nas dinastias reinantes, não nas nações. Portugal independente desde 1143 era, antes de tudo, o reino de uma família; as suas fronteiras sobreviveram não por impulso nacional mas porque a dinastia de Bragança foi reconhecida pelas demais casas reais europeias em 1815. Só com a Revolução Francesa e ao longo do século XIX é que a ideia de que a soberania pertence à nação - e não à família reinante - se impõe, dando origem aos países modernos com constituições, parlamentos eleitos, identidades nacionais consolidadas e reconhecimento internacional das fronteiras.

Personagens

  • Mónica Martins
  • Lara
  • Sargão o Grande
  • Alexandre o Grande
  • Ramsés II
  • D. Afonso Henriques
  • Filipe II de Espanha
  • Filipe IV de Espanha
  • D. Manuel I
  • D. Henrique (Cardeal-Rei)
  • D. Fernando I
  • Luís de Camões
  • Jorge de Sena
  • Napoleão Bonaparte

Lugares/Países

  • Portugal
  • Egito
  • Japão
  • China
  • Grécia
  • Roma
  • Síria
  • Iraque
  • Índia
  • França
  • Inglaterra
  • Espanha
  • Alemanha
  • Itália
  • Polónia
  • Suíça
  • Mesopotâmia
  • Irão
  • Grã-Bretanha
  • Castela
  • Aragão
  • Algarve
  • Borgonha
  • Génova
  • Veneza
  • São Marino
  • Arábia
  • Indonésia
  • Java

Épocas

  • Pré-história
  • Antiguidade
  • Idade Média
  • século XIX
  • século XVIII
  • século XVII
  • século XVI
  • século XV
  • século XIV
  • século X
  • século VIII
  • século IV a.C.
  • século IV d.C.
  • 3100 a.C.
  • 2300 a.C.
  • 1600 a.C.
  • 221 a.C.
  • 660 a.C.
  • 550 a.C.

Temas

  • formação de estados
  • nacionalismo
  • identidade nacional
  • legitimidade dinástica
  • cidadania
  • patriotismo
  • soberania
  • democracia
  • monarquia
  • império
  • cidade-estado
  • sedentarização
  • agricultura
  • escrita
  • religião
  • língua
  • fronteiras
  • independência
  • constitucionalismo

Eventos

  • Invasões Francesas
  • Revolução Francesa
  • Restauração da Independência (1640)
  • Cortes de Tomar (1581)
  • Cortes de Lamego
  • Crise de 1383-1385
  • Congresso de Viena (1815)
  • Conquista do Algarve
  • Magna Carta (1215)

Guerras e conflitos

  • Guerras Napoleónicas
  • Invasões Francesas

Livros citados

  • Os Lusíadas