Nº 6721 de outubro de 202044:30resposta a ouvintes
Qual foi o Primeiro Reich? E o Segundo?
O episódio divide-se em dois temas: primeiro, a resistência popular em Portugal ao processo de construção do Estado Liberal no século XIX, exemplificada pela Revolta da Maria da Fonte (1846) e outras insurreições contra medidas sanitárias e fiscais; segundo, uma explicação sobre o conceito dos três Reichs alemães, desde o Sacro Império Romano-Germânico até ao Terceiro Reich nazi, culminando com a história da Prússia e a unificação alemã.
Ideias principais
- A construção do Estado Liberal português no século XIX enfrentou resistência violenta das populações rurais que viviam praticamente alheias ao poder central, reagindo contra impostos, cemitérios públicos e outras intrusões na vida quotidiana.
- A Revolta da Maria da Fonte (1846) não foi apenas sobre cemitérios, mas reflectiu uma rejeição profunda à transformação do Estado, incluindo questões fiscais como o imposto predial, levando populações inteiras a atacar repartições de finanças.
- O Primeiro Reich foi o Sacro Império Romano-Germânico (800-1806), uma federação fragmentada de centenas de Estados alemães; o Segundo Reich foi o Império Alemão unificado pela Prússia (1871-1918); o Terceiro Reich foi o regime nazi (1933-1945).
- A Prússia nasceu da secularização da Ordem Teutónica no século XVI, desenvolveu um Estado militar eficiente e conseguiu unificar a Alemanha sob os Hohenzollern, transformando a imagem cultural alemã numa potência militarista.
- A dissolução oficial da Prússia pelos Aliados em 1947 reflectiu o mito exagerado do militarismo prussiano como responsável pelas guerras mundiais, apesar de em 1914 a França estar mais militarizada que a Alemanha.
Resumo do episódio
Este episódio de *E o Resto é História* divide-se em duas partes distintas, ambas ligadas pela ideia comum de como o Estado e as populações se relacionam - ou não - ao longo da história.
A primeira parte parte de um pretexto contemporâneo: a polémica em torno da eventual obrigatoriedade da aplicação Stay Away Covid em Portugal. João Miguel Tavares propõe a Rui Ramos uma viagem histórica pelos momentos em que decisões governamentais portuguesas foram recebidas com indignação popular desproporcionada. O exemplo central é a Revolta da Maria da Fonte, em 1846, desencadeada em boa parte pela tentativa do governo de Costa Cabral de aplicar uma lei de 1835 que proibia os enterramentos junto das igrejas, remetendo os mortos para cemitérios afastados das povoações. Rui Ramos contextualiza esta resistência num quadro mais amplo: os liberais, que tinham ganho a Guerra Civil de 1834, levaram mais de uma década a tentar construir um Estado efectivo no território português, e Costa Cabral representava precisamente essa tentativa de tornar real aquilo que até então existia apenas no papel. A população rural não aceitou ver os seus mortos afastados do chão sagrado das igrejas e dos adros, tanto por razões simbólicas e religiosas como por desconfiança perante os novos cemitérios, que eram muitas vezes descampados onde animais desenterravam os cadáveres. A esta questão somava-se uma novidade fiscal - o imposto predial -, e a conjugação de ambas gerou uma revolta armada que acabou por derrubar o governo. Os apresentadores sublinham que a resistência durou décadas: ainda em 1862, na Diocese de Braga, mais de 90% dos mortos continuavam a ser enterrados nas igrejas, em clara violação da lei. O episódio ilustra um padrão mais vasto: o Estado liberal do século XIX foi percebido pelas populações rurais como uma entidade invasora, que chegava a cobrar impostos, a plantar florestas, a regulamentar a saúde e a morte, em territórios onde até então as pessoas se governavam a si próprias com grande autonomia. O caso da aldeia de Arzila, perto de Coimbra, em que a população inteira ameaçou funcionários judiciais, foi arrastada a tribunal e se recusou colectivamente a prestar declarações, serve de exemplo paradigmático desta tensão. O Estado respondia frequentemente com o exército, com instruções explícitas para disparar sobre multidões insubordinadas.
A segunda parte do episódio responde a uma pergunta de cultura geral: quais foram o Primeiro e o Segundo Reich? Rui Ramos explica que o chamado Primeiro Reich corresponde ao Sacro Império Romano-Germânico, uma estrutura política que remontava à coroação de Carlos Magno como imperador dos romanos no ano 800 e que, a partir do século XIII, ficou essencialmente confinada aos territórios de língua alemã. Tratava-se não de um Estado unificado, mas de uma confederação de centenas de entidades políticas - ducados, bispados, cidades livres - sob um imperador eleito, cargo que acabou por se fixar na dinastia dos Habsburgos. Este império chegou ao fim em 1806, quando os Habsburgos renunciaram ao título. O Segundo Reich nasceu em 1870, quando os Estados alemães se unificaram num império sob a liderança dos reis da Prússia, da dinastia dos Hohenzollern, após a derrota militar da França. Este segundo império durou até 1918, quando a derrota na Primeira Guerra Mundial precipitou uma revolução e a abdicação do kaiser Guilherme II. O Terceiro Reich, adoptado pelos nazis a partir de 1933, retomou esta sequência simbólica, combinando-a com uma visão milenarista de inspiração bíblica, embora a expressão tenha sido abandonada pelo próprio regime em 1939.
O episódio termina com um breve resumo da história da Prússia, desde as suas origens na Ordem Teutónica no século XIII, passando pela fusão dos territórios de Brandemburgo e Prússia sob os Hohenzollern, até à sua ascensão como potência militar e motor da unificação alemã - e ao mito, considerado largamente exagerado pelos apresentadores, de que a Prússia era o grande responsável pelo belicismo europeu do século XIX e XX.
Personagens
- Maria da Fonte
- Costa Cabral
- D. Maria II
- D. Miguel
- Carlos Magno
- Carlos V
- Guilherme II
- Hitler
- Napoleão
- Napoleão III
- Bismarck
- Goethe
- Hegel
- Alberto de Hohenzollern
Lugares/Países
- Portugal
- Alemanha
- Prússia
- Áustria
- França
- Polónia
- Brasil
- Espanha
- Brademburgo
- Silésia
- Baviera
- Baden
- Ruhr
- Palestina
- Báltico
Épocas
- século XIX
- século XIII
- século XVI
- século XVIII
- século XX
- Idade Média
- Renascimento
- Estado Novo
- República de Weimar
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
Temas
- revoltas populares
- fiscalidade
- saúde pública
- construção do Estado
- liberalismo
- resistência popular
- militarismo
- unificação alemã
- imperialismo
- secularização
- protestantismo
- catolicismo
- administração pública
- censura
- repressão
Eventos
- Revolta da Maria da Fonte
- Revolta da Janeirinha
- Guerra Civil de 1834
- Reforma Protestante
- Batalha de Iena
- dissolução do Sacro Império Romano-Germânico
Guerras e conflitos
- Primeira Guerra Mundial
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Civil portuguesa de 1834
- Guerras Napoleónicas