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Nº 1202 de outubro de 201944:26análise histórica

Quando começaram as preocupações com o ambiente (e uma mina no Bugio)

O episódio explora três temas distintos: a evolução histórica das preocupações ambientais desde o Iluminismo e Romantismo; a relação entre o Exército e o poder civil em Portugal, destacando a tradição anti-golpista das Forças Armadas; e os ataques de submarinos alemães a Portugal durante a Primeira Guerra Mundial, incluindo o afundamento do caça-minas Roberto Ivens junto ao Bugio e o bombardeamento de Ponta Delgada. Termina com uma análise sobre as causas da queda da monarquia portuguesa, criticando simplificações historiográficas.

Ideias principais

  1. A ideia moderna de natureza como algo separado do humano e digno de protecção surge no século XVIII com Rousseau e o Romantismo, invertendo séculos de percepção da natureza como ameaça a dominar.
  2. O Exército português tem uma tradição histórica de relutância em assumir directamente o poder político, temendo que a divisão interna das Forças Armadas conduza à guerra civil, ao contrário do padrão espanhol de caudilhismo militar.
  3. Durante a Primeira Guerra Mundial, submarinos alemães atacaram território português continental e insular: o caça-minas Roberto Ivens foi afundado por uma mina alemã junto ao Bugio em Julho de 1917, matando 15 tripulantes, e Ponta Delgada foi bombardeada a 4 de Julho de 1917, causando uma vítima mortal.
  4. A queda da monarquia portuguesa não resultou de incompetência régia ou descontentamento popular, mas da incapacidade da elite liberal em construir instituições representativas legítimas após terem degradado a legitimidade dinástica e católica tradicional sem a substituir por legitimidade democrática efectiva.
  5. As primeiras eleições verdadeiramente livres e reconhecidas como legítimas em Portugal foram as de 25 de Abril de 1975, demonstrando que nem a monarquia constitucional nem a Primeira República conseguiram resolver o problema da legitimação democrática do poder.

Resumo do episódio

Neste décimo segundo episódio de *E o Resto é História*, Rui Ramos e João Miguel Tavares percorrem três temas distintos: a história das preocupações ambientais, a relação entre as Forças Armadas portuguesas e o poder político, e a queda da monarquia em Portugal.

O episódio abre com uma reflexão sobre quando e como a humanidade passou a encarar a natureza não como uma ameaça a dominar, mas como algo a preservar. Rui Ramos situa essa viragem sobretudo no século XVIII, com filósofos como Rousseau e a ideia de que o homem nasce bom e é corrompido pela sociedade e pela civilização. Essa valorização da natureza como espaço de pureza e redenção alimentou o Romantismo do século XIX, visível na pintura, na poesia e na redescoberta de paisagens como a Serra de Sintra ou o Buçaco - este último marcado também pela tradição religiosa dos frades carmelitas. Os apresentadores sublinham a ambiguidade do século XIX e XX face à natureza: ao mesmo tempo que surgia uma sensibilidade de preservação, persistia a visão da natureza como fronteira a conquistar, bem evidente na expansão americana, no colonialismo africano ou no modelo soviético, responsável por alguns dos maiores desastres ecológicos do século passado. A consciência ecológica mais moderna, associada à ideia de poluição e qualidade de vida, consolida-se nos anos 50 e 60, culminando no debate atual sobre alterações climáticas - onde, nota Ramos, a novidade não é apenas a preocupação com o clima, mas a convicção de que a ação humana o pode reverter.

O segundo tema aborda a relação histórica entre o Exército português e o poder civil. Contrariamente à imagem de instituição intervencionista que o 25 de Abril deixou, Ramos argumenta que o exército português foi, historicamente, muito menos golpista do que o seu congénere espanhol. Em Portugal, os grandes líderes políticos foram quase sempre civis, e os militares que ocasionalmente chegaram ao poder trataram rapidamente de passá-lo para mãos civis - como aconteceu entre 1926 e 1932, quando o exército buscou ativamente uma figura como Salazar. Essa relutância em governar directamente radica num temor profundo da guerra civil: a divisão interna do exército era vista como a sua causa mais provável, lição aprendida nas guerras liberais e confirmada pelo exemplo espanhol de 1936. Mesmo após o 25 de Abril, apesar das tentações de transformar o MFA num movimento político à semelhança dos movimentos de libertação africanos, prevaleceu a lógica de transferência do poder para partidos civis, incarnada na figura do Presidente da República como árbitro acima das facções.

A propósito do centenário do 5 de Outubro, os apresentadores discutem ainda um episódio pouco conhecido da Primeira Guerra Mundial: em julho de 1917, um submarino alemão lançou minas na barra do Tejo, afundando o caça-minas *Roberto Ivans* e matando quinze tripulantes; dias antes, outro submarino bombardeara Ponta Delgada, causando uma vítima. Este último ataque levaria ao estabelecimento da primeira base aeronaval americana em território português. Ramos sublinha que, tirando as invasões francesas de 1807 a 1812, o território continental português não foi palco de combates com forças estrangeiras, o que distingue profundamente a experiência histórica portuguesa da de países como a Alemanha ou o Japão.

O episódio encerra com uma reflexão sobre o ensino da história a propósito da queda da monarquia. Respondendo à crítica de um ouvinte monárquico sobre manuais escolares que justificam o regicídio de 1908 com a incompetência ou os gastos excessivos de D. Carlos, Rui Ramos defende que o problema não é propaganda deliberada, mas simplismo. A monarquia não caiu por essas razões, mas porque os liberais do século XIX desmantelaram a legitimidade dinástica e católica tradicional sem a substituírem por instituições verdadeiramente representativas: as eleições nunca foram reconhecidas como limpas, o rei ficou preso entre prerrogativas constitucionais contestadas e a elite partidária dividiu-se sem árbitro legítimo. A República herdou os mesmos problemas, e só em 1975 Portugal realizou as primeiras eleições cujos resultados foram aceites por todos. Para Ramos, esta complexidade é perfeitamente explicável a jovens - basta contar a história com sequência e contexto, sem recorrer a atalhos que simplificam mas distor

Personagens

  • Rousseau
  • Greta Thunberg
  • Marçal Saldanha
  • Gomes da Costa
  • Salazar
  • General Costa Gomes
  • General Franco
  • Brito Camacho
  • Napoleão
  • Marquês de Alorna
  • Massena
  • Dom Carlos I
  • Manuel Buíça
  • Dom Afonso Henriques
  • Boris Johnson
  • Rainha da Inglaterra

Lugares/Países

  • Portugal
  • Inglaterra
  • Espanha
  • França
  • Alemanha
  • Estados Unidos
  • Rússia
  • Japão
  • Brasil
  • África

Épocas

  • Antiguidade
  • século XVII
  • século XVIII
  • século XIX
  • século XX
  • Revolução Francesa
  • Primeira República
  • Estado Novo
  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • 25 de Abril de 1974
  • Revolução Liberal
  • invasões francesas

Temas

  • ambiente
  • ecologia
  • romantismo
  • industrialização
  • militarismo
  • golpes de Estado
  • guerra submarina
  • monarquia constitucional
  • legitimidade política
  • eleições
  • relações civis-militares

Eventos

  • Revolução Francesa
  • 25 de Abril de 1974
  • Saldanhada de 1870
  • Regicídio de 1 de Fevereiro de 1908
  • 5 de Outubro de 1910
  • invasões francesas
  • Guerra Civil da Patuleia
  • campanha da Rússia
  • conquista do Oeste americano
  • eleições de 25 de Abril de 1975

Guerras e conflitos

  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Civil de Espanha
  • guerras liberais
  • guerra submarina alemã