Nº 6323 de setembro de 202039:58resposta a ouvintes
Quando começou a rivalidade entre Porto e Lisboa?
Episódio dedicado a perguntas dos ouvintes, centrado em dois temas: a história das coroas reais portuguesas e a rivalidade Porto-Lisboa. Rui Ramos explica que os reis portugueses nunca foram coroados, mas aclamados, diferentemente das monarquias francesa e inglesa, o que reflecte uma realeza de origem militar. A rivalidade Porto-Lisboa é analisada como fenómeno do século XIX, quando o Porto emergiu como alternativa económica e política a Lisboa.
Ideias principais
- Os reis de Portugal nunca foram coroados mas sim aclamados, numa cerimónia de origem militar e popular, sem a dimensão religiosa das monarquias francesa e inglesa.
- A única coroa portuguesa preservada foi mandada fazer por D. João VI no Brasil em 1817 e nunca esteve na cabeça de um rei português.
- A rivalidade Porto-Lisboa é uma criação do século XIX, quando o Porto cresceu economicamente com o vinho do Porto, as remessas do Brasil e a industrialização.
- O Porto afirmou-se como centro de oposição política a Lisboa no século XIX, sendo palco de praticamente todas as principais revoltas e revoluções liberais.
- O declínio relativo do Porto ocorreu com a crise da filoxera e dos câmbios brasileiros no final do século XIX, mas recuperou nos anos 70-80 do século XX com a indústria exportadora que escapou às nacionalizações.
Resumo do episódio
Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares respondem a perguntas enviadas pelos ouvintes, abordando dois temas distintos: o destino das coroas dos reis de Portugal e as raízes históricas da rivalidade entre o Porto e Lisboa.
A primeira questão, colocada por um ouvinte de Pombal, parte de uma curiosidade aparentemente simples - o que aconteceu às coroas dos monarcas portugueses - e desemboca numa reflexão sobre a própria natureza da monarquia em Portugal. Os apresentadores explicam que, ao contrário do que acontecia em Inglaterra ou em França, os reis de Portugal nunca foram coroados. Em vez de uma cerimónia de coroação de cariz eclesiástico, a tradição portuguesa assentava na aclamação: o rei era "levantado" pelo povo e pelos seus pares, numa cerimónia pública em que prestava juramento e recebia em troca a fidelidade dos grandes do reino. Rui Ramos sublinha que esta diferença tem raízes profundas na formação do reino, nascido da guerra da Reconquista e com um carisma essencialmente militar, ao contrário das monarquias inglesa e francesa, cujo poder era reforçado por uma unção religiosa. O símbolo identificativo do rei português era, por isso, a espada e o estandarte, não a coroa - como ilustra o episódio de D. Sebastião, que mandou buscar a espada de D. Afonso Henriques antes de partir para Alcácer-Quibir, mas não qualquer coroa. A única coroa portuguesa que sobreviveu é a que D. João VI mandou fabricar no Brasil em 1817, exposta hoje no Palácio da Ajuda, e que nunca chegou a ser colocada na cabeça de nenhum rei. Por contraste, as coroas inglesa e francesa, apesar da sua centralidade simbólica, foram destruídas - uma pela Revolução Francesa, outra pelos puritanos de Cromwell - e posteriormente reconstituídas ou copiadas.
A segunda parte do episódio parte de uma pergunta de um ouvinte portuense e adepto do Futebol Clube do Porto sobre se o discurso de resistência ao centralismo lisboeta, tão presente no clube, reflete tensões mais antigas entre o Norte e a capital. Rui Ramos argumenta que a rivalidade tal como hoje a entendemos é essencialmente uma criação do século XIX. Até então, Lisboa era de tal modo dominante - capital de um vasto império, sede da corte e do comércio ultramarino - que qualquer contrapeso era impensável. A viragem dá-se com a perda do exclusivo do comércio com o Brasil, que afecta sobretudo Lisboa, enquanto o Porto beneficia do crescimento do comércio do vinho do Porto, das remessas dos emigrantes portugueses no Brasil e de uma indústria têxtil protegida. Entre 1800 e 1864, o Porto passa de um quarto para metade da população de Lisboa, atraindo população jovem e gerando riqueza própria, com bancos, imprensa e uma vida política intensa. É neste período que o Porto se torna o palco privilegiado das iniciativas políticas de oposição a Lisboa: a Revolução Liberal de 1820, as revoltas liberais contra D. Miguel, a Regeneração de 1851 e a primeira revolta republicana de 1891 têm todas o Porto como cenário ou ponto de partida.
No último quartel do século XIX, porém, a crise da filoxera e as dificuldades nas remessas do Brasil travam o crescimento do Porto, enquanto Lisboa retoma a expansão apoiada na agricultura cerealífera do Alentejo, no vinho do sul e no novo comércio colonial africano. O Porto perde relevância política, mas não apaga a sua base industrial. Na segunda metade do século XX, essa indústria beneficia da integração europeia, da emigração para França e Alemanha e, paradoxalmente, das nacionalizações de 1974-75, que atingiram sobretudo as grandes indústrias estatais concentradas em torno de Lisboa, poupando a pequena e média indústria nortenha. É precisamente neste contexto de reafirmação económica e identitária do Porto que emerge o Futebol Clube do Porto como força dominante, tornando-se, segundo os apresentadores, o símbolo mais visível de um poder nortenho que se ia reconstituindo desde o século XIX.
Personagens
- D. Afonso Henriques
- D. Sebastião
- Ricardo III de Inglaterra
- Henrique VII de Inglaterra
- Carlos Magno
- São Eduardo
- Henrique VIII de Inglaterra
- Filipe II de Espanha
- D. Juan da Silva
- D. José I
- D. António I do Crato
- Cardeal D. Henrique
- D. João VI
- Isabel II de Inglaterra
- D. Maria II
- Carlos I de Inglaterra
- Oliver Cromwell
- Carlos II de Inglaterra
- Rainha Vitória
- José Matoso
- José Maria Pedroto
- António Oliveira
- André Villas-Boas
- Sérgio Conceição
- Pinto da Costa
- Camilo Castelo Branco
- General Saldanha
- João Chagas
- Belmiro de Azevedo
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Temas
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- revolução
- guerra civil
Eventos
- Batalha de Alcácer-Quibir
- Batalha de Bosworth
- Terremoto de 1755
- Restauração de 1640
- Revolução Liberal de 1820
- Revolução de Setembro de 1836
- Regeneração de 1851
- Janeirinha de 1868
- Revolta Republicana de 1891
- Revolução Republicana de 1910
- Monarquia do Norte de 1919
- Revolução de 25 de Abril de 1974
- Revolução Francesa
- Guerra Civil Inglesa
Guerras e conflitos
- Reconquista
- Guerra Civil de 1828
- Guerra Civil de 1832-1834
- Guerra da Patuleia
- Guerra do Paraguai
Livros citados
- Biografia do D. Afonso Henriques (José Matoso)