Nº 6216 de setembro de 202040:15análise histórica
Quando começou o namoro entre política e futebol?
O episódio explora a histórica promiscuidade entre política e futebol em Portugal, desde o Estado Novo até à democracia, contextualizando-a num fenómeno universal de ligação entre desporto, poder político e elites. A segunda parte analisa a Guerra da Coreia através da Batalha de Inchon (1950), o génio estratégico de MacArthur e o perigo que generais carismáticos sempre representaram para as democracias, do bonapartismo ao 25 de Abril.
Ideias principais
- A ligação entre futebol e política em Portugal não é um fenómeno recente nem exclusivo da democracia: já no Estado Novo ministros, generais políticos e grandes banqueiros presidiam a clubes como Benfica, Sporting, Porto e Belenenses.
- O desporto sempre esteve associado ao poder político desde a Antiguidade Clássica (Jogos Olímpicos, circo romano) ao mecenato aristocrático moderno, sendo usado pelas elites para reforçar legitimidade, mobilizar populações e projetar poder.
- A Batalha de Inchon (15 de setembro de 1950) foi o maior sucesso militar americano entre 1945 e 1991, virando completamente a Guerra da Coreia através de um desembarque audacioso de MacArthur na retaguarda norte-coreana que aniquilou 200 mil soldados inimigos.
- A demissão de MacArthur por Truman em 1951, após o general propor bombardeamentos atómicos contra a China, ilustra o perigo histórico que chefes militares carismáticos representam para as democracias, problema visível desde César e Napoleão até De Gaulle e Spínola.
- Paradoxalmente, enquanto a política se tornou menos mobilizadora após a consolidação democrática, os políticos contemporâneos começaram a usar o futebol como forma de contactar a população, invertendo a relação de poder: a política passou a precisar do futebol mais do que o futebol da política.
- As democracias ocidentais e ditaduras comunistas enfrentaram no pós-guerra o mesmo dilema: generais vitoriosos com exércitos no exterior (De Gaulle na Argélia, Zhukov na URSS, Spínola em África) tornaram-se ameaças políticas internas, obrigando a purgas e afastamentos.
Resumo do episódio
Este episódio de *E o Resto é História* divide-se em dois temas distintos. Na primeira parte, Rui Ramos e João Miguel Tavares exploram as raízes históricas da ligação entre futebol e política em Portugal, partindo de casos concretos e recentes - como a presença de António Costa e Fernando Medina na lista de honra de Luís Filipe Vieira no Benfica, ou a integração de Rui Moreira nas listas de Pinto da Costa no Porto - para colocar a pergunta central: quando começou esta promiscuidade?
A resposta de Rui Ramos é taxativa: o mundo não começou ontem. O desporto e as artes estiveram sempre ligados ao poder político, desde a Grécia e Roma antigas, onde os jogos eram espectáculos cívicos e os atletas vencedores eram celebrados como heróis públicos, passando pelos torneios medievais em que reis como Francisco I de França e Henrique VIII de Inglaterra participavam pessoalmente, até ao patrocínio aristocrático britânico dos séculos XVIII e XIX. No século XX, os regimes totalitários fizeram do desporto um instrumento de Estado, e mesmo nas democracias os governantes sempre apareceram associados a clubes e modalidades. Em Portugal, esse padrão é igualmente antigo: durante o Estado Novo, presidentes de clubes como o Belenenses, o Sporting ou o Benfica eram ministros, generais e antigos chefes de governo; o próprio Marcello Caetano comparecia a jogos importantes. O mesmo sucedia no Porto, cujo futebol foi presidido por um dos maiores banqueiros do país entre 1967 e 1972.
Com a democracia, a ligação não se rompeu - aprofundou-se. Logo em 1974, o general Spínola e todo o governo provisório estiveram presentes na Taça de Portugal. Jogadores famosos como António Simões e Artur Jorge foram recrutados para listas eleitorais à Constituinte em 1975, e chegou a haver propaganda sindical comunista exibida por jogadores do Benfica num jogo no Estádio da Luz. Pedro Santana Lopes foi presidente do Sporting antes de se tornar primeiro-ministro. Os apresentadores concluem que o fenómeno se intensificou precisamente porque a política perdeu a capacidade de mobilizar o tribalismo das pessoas, que migrou para os clubes de futebol, levando os políticos a procurar no futebol uma via de contacto com a sociedade que os partidos já não garantem.
Na segunda parte, o episódio regressa à Guerra da Coreia, tema já abordado num episódio anterior, desta vez para se centrar na Batalha de Inchon de setembro de 1950 e nas suas consequências. O general Douglas MacArthur, comandante das forças das Nações Unidas, concebeu um desembarque anfíbio de cerca de 75 mil homens na retaguarda do exército norte-coreano, perto de Seul, transformando uma situação quase desesperada - as tropas aliadas estavam encurraladas num pequeno reduto no sul da península - numa vitória esmagadora: o exército norte-coreano, de 300 mil homens, foi praticamente aniquilado. Este feito é considerado o maior sucesso militar americano entre 1945 e 1991.
Contudo, MacArthur não se ficou pelo Paralelo 38 e avançou até à fronteira com a China, o que provocou uma invasão maciça de cerca de um milhão e meio de soldados chineses em novembro de 1950. Perante este novo revés, MacArthur propôs ao presidente Truman o uso táctico de armas nucleares contra a China. Truman recusou e demitiu-o em abril de 1951, num acto que se revelou politicamente devastador: a popularidade do presidente atingiu o nível mais baixo de qualquer presidente americano até então, suplantando mesmo Nixon em 1974. A Guerra da Coreia acabaria por consumir a presidência de Truman, que desistiu de se recandidatar em 1952, entregando o poder aos republicanos e ao general Eisenhower.
Personagens
- António Costa
- Fernando Medina
- Luís Filipe Vieira
- Rui Moreira
- Pinto da Costa
- Américo Tomás
- Horácio Sá Viana Rebelo
- João Tamagnini Barbosa
- Marcelo Caetano
- Afonso Pinto Magalhães
- António Spínola
- Palma Carlos
- Damas
- Marcelo Rebelo de Sousa
- António Simões
- Artur Jorge
- Pedro Santana Lopes
- Mário Soares
- Sá Carneiro
- Álvaro Cunhal
- Francisco I
- Henrique VIII
- Eduardo VII
- Jorge VI
- Douglas MacArthur
- Harry Truman
- Mao Tsé-Tung
- Joseph McCarthy
- Dwight Eisenhower
- Pompeu
- Júlio César
- Napoleão Bonaparte
- Charles de Gaulle
- Georgy Zhukov
- Stalin
- Nikita Khrushchev
- Beria
- Costa Gomes
- Lyndon Johnson
Lugares/Países
- Portugal
- Inglaterra
- Estados Unidos
- União Soviética
- China
- Coreia do Norte
- Coreia do Sul
- Japão
- França
- Argélia
- Alemanha
- Angola
- Itália
- Grécia
- Roma
Épocas
- século XIX
- século XX
- século XVIII
- Primeira República
- Estado Novo
- democracia portuguesa pós-1974
- Antiguidade Clássica
- Idade Média
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Fria
- anos 30
- anos 1950
- anos 1960
- anos 1970
Temas
- futebol
- política
- desporto
- guerra
- elites
- poder
- bonapartismo
- militarismo
- anticomunismo
- imperialismo
- democracia
- ditadura
- mecenato
- espetáculo cívico
Eventos
- 25 de Abril de 1974
- Batalha de Inchon
- Jogos Olímpicos de Berlim 1936
- Revolução de 1789
- Parada da Vitória de 1945
- golpe militar de 1961 em França
- independência da Argélia
Guerras e conflitos
- Guerra da Coreia
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Fria
- Guerra do Vietname
- Guerra Colonial
- guerra da Argélia