Nº 26828 de agosto de 202446:19resposta a ouvintes
Quando é que começámos a ter animais de estimação?
O episódio explora a história dos animais de estimação em Portugal, desde a domesticação na pré-história até ao século XX. Isabel Drummond Braga explica como o afeto pelos animais, inicialmente utilitários, começou a ser documentado sobretudo nos séculos XVII-XVIII, primeiro entre a aristocracia e depois nas classes médias. São abordados temas como a presença de animais nos conventos, práticas alimentares (incluindo bestialidade), colecionismo régio de animais exóticos e a evolução dos cuidados veterinários e cemitérios para animais.
Ideias principais
- A relação afetiva com animais de companhia, sem finalidade utilitária, começa a ser documentada em Portugal sobretudo nos séculos XVII e XVIII, primeiro entre a aristocracia e depois difundindo-se às classes médias.
- As fontes históricas para estudar animais são extremamente diversas: desde inventários régios, crónicas, pintura e escultura, até posturas municipais, processos do Santo Ofício, livros de milagres e relatos de viajantes estrangeiros.
- Os primeiros animais de companhia popularizados em Portugal foram pássaros exóticos vindos do Brasil nos séculos XV-XVI, apreciados pelo canto e plumagem, servindo também como presentes diplomáticos entre cortes europeias.
- A prática de bestialidade estava documentada e era punida severamente pela legislação régia, episcopal e inquisitorial, embora os processos do Santo Ofício revelem que as penas de morte eram raramente aplicadas aos humanos, mas frequentemente aos animais considerados 'culpados'.
- O Pátio dos Bichos, no local da atual residência presidencial, funcionou no século XVIII como ménagerie régia, antecedente dos jardins zoológicos, onde se colecionavam animais exóticos como elefantes, zebras e felinos, causando admiração a visitantes estrangeiros.
Resumo do episódio
Neste episódio do podcast *E o Resto é História*, Rui Ramos e João Miguel Tavares recebem a historiadora Isabel Drummond Braga para responder a perguntas enviadas por ouvintes sobre a relação dos portugueses com os animais ao longo da história. A conversa parte de uma questão simples e curiosa: desde quando é que os seres humanos começaram a ter animais de estimação, não por utilidade, mas por afecto?
Isabel Drummond Braga explica que a domesticação dos animais remonta à pré-história, mas que a dimensão afectiva - ter um animal simplesmente porque se gosta dele - só começa a ser claramente detectável nas fontes históricas a partir dos séculos XVII e XVIII, ainda que com antecedentes. Entre os exemplos mais antigos, a historiadora cita Fernão Lopes, que na crónica de D. Fernando menciona um filho de D. Pedro I a dormir com dois cães; a rainha D. Catarina, mulher de D. João III, que possuía uma coleira de prata para um cãozinho; e vários retratos reais do século XVI em que os retratados surgem acompanhados de cães. Nos conventos femininos, as freiras tinham frequentemente animais de companhia - cabras, galinhas, cães e gatos -, facto que os visitadores eclesiásticos registavam com manifesta desaprovação. A crítica ao excessivo amor das mulheres pelos animais domésticos aparece também em autores do século XVII como D. Francisco Manuel de Melo, o que confirma que o fenómeno já estava bem estabelecido nessa época.
No que respeita às fontes históricas, a investigadora sublinha a sua enorme diversidade: legislação, crónicas, literatura, pintura, escultura, relatos de viajantes, inventários da Casa Real, visitas a mosteiros, posturas municipais, livros de milagres e processos do Santo Ofício. Cada uma ilumina aspectos distintos da relação humano-animal: os livros de milagres, por exemplo, revelam súplicas pela saúde de cavalos e vacas - animais com valor económico -, enquanto os relatos de viajantes estrangeiros descrevem com horror a quantidade de cães vadios que vagueavam pelas ruas de Lisboa nos séculos XVIII e XIX. As posturas municipais procuravam regular a circulação de animais nas cidades, num tempo em que porcos, cabras e perus partilhavam o espaço urbano com os habitantes.
Sobre a evolução dos animais de companhia ao longo dos séculos, Isabel Drummond Braga aponta os pássaros exóticos como os primeiros animais verdadeiramente de estimação, valorizados pelo canto e pela plumagem rara, trazidos do Brasil já nos séculos XV e XVI e oferecidos entre cortes europeias. Os cães surgem também cedo nas fontes, os gatos apenas ganham maior visibilidade afectiva no século XIX. O episódio aborda ainda a ménagerie do Pátio dos Bichos, em Lisboa, antecessora dos jardins zoológicos modernos, onde D. Maria I reuniu elefantes, zebras, felinos e aves exóticas - e cujos registos de despesas com alimentação chegaram até nós com detalhes curiosos.
A conversa toca igualmente temas mais sombrios: a bestialidade, documentada em processos do Santo Ofício e condenada pelas Ordenações Manuelinas e Filipinas, envolvia sobretudo homens jovens dos meios rurais e os animais disponíveis no quotidiano. Apesar da severidade das penas previstas na lei - incluindo a morte para o ser humano e para o animal -, na prática as condenações capitais eram raras, e o número de processos conhecidos é relativamente pequeno. Quanto ao consumo de cães e gatos, a historiadora conclui que não existia qualquer tradição alimentar nesse sentido em Portugal, surgindo apenas em situações extremas de fome.
Personagens
- Isabel Drummond Braga
- Paulo Drummond Braga
- D. Fernando I
- Fernão Lopes
- D. Pedro I
- Inês de Castro
- D. Catarina de Áustria
- D. João III
- D. Leonor
- D. João II
- D. Sebastião
- Cristóvão de Morais
- D. Joana
- Alonso Sanches Coelho
- Francisco Manuel de Melo
- Manuel Bernardes
- D. Manuel I
- Damião de Góis
- Papa Leão X
- Ricardo Peça de Oliveira
- Luísa da Luzia
- Ferreira de Castro
Lugares/Países
- Portugal
- Brasil
- Castela
- Marrocos
- Inglaterra
- Alemanha
- Prússia
- Europa
Épocas
- Pré-História
- Idade Média
- século XV
- século XVI
- século XVII
- século XVIII
- século XIX
- século XX
- Época Moderna
Temas
- animais de estimação
- domesticação
- alimentação
- vida quotidiana
- sociedade
- cultura
- religião
- aristocracia
- classe média
- justiça
- Inquisição
- sexualidade
- arte
- pintura
- escultura
Livros citados
- Animais e Companhia na História de Portugal
- História Global da Alimentação Portuguesa
- Crónica de D. Fernando
- A Selva