Nº 2318 de dezembro de 201942:26resposta a ouvintes
Quando é que começámos a ter de ir à escola?
Este episódio aborda três temas centrais da história portuguesa: a relação entre o Estado e os meios de comunicação social desde o século XIX, destacando o papel da censura e da propaganda; a história do ensino obrigatório em Portugal, instituído em 1835 mas só efetivamente concretizado nos anos 1960; e as figuras de Joseph James Forrester, empresário britânico que cartografou o Douro e contribuiu para o desenvolvimento do vinho do Porto, e Afonso de Albuquerque, governador do Estado da Índia entre 1509 e 1515, responsável pelas conquistas de Goa e Malaca.
Ideias principais
- A imprensa estatal portuguesa nunca teve grande sucesso quando em competição com jornais independentes, sendo que o controlo governamental foi mais eficaz através da censura e influência sobre jornais considerados independentes como o Diário de Notícias e O Século durante o Estado Novo.
- Apesar de o ensino obrigatório ter sido instituído em Portugal em 1835, a primeira geração totalmente escolarizada só foi alcançada em 1960, 125 anos depois, devido à falta de investimento estatal, à economia rural que não valorizava a alfabetização e à ausência de urgência nacionalizadora presente noutros países europeus.
- O Barão de Forrester, empresário britânico e cartógrafo do rio Douro, defendia a liberalização do comércio do vinho do Porto contra o sistema protecionista da Companhia dos Vinhos do Alto Douro, representando um conflito entre visões liberais e monopolistas da economia portuguesa do século XIX.
- Afonso de Albuquerque, apesar de ter governado o Estado da Índia apenas seis anos (1509-1515), tornou-se uma figura mítica da expansão portuguesa, mas a sua visão militarista e dirigista de construir fortalezas foi constantemente contestada por outros que defendiam uma abordagem mais descentralizada e comercial.
- A construção do império português na Ásia não foi uma empresa unificada sob comando central, mas envolveu intensas disputas internas entre diferentes visões estratégicas, com centenas de portugueses a agirem por conta própria como comerciantes, corsários e assessores de potentados locais.
Resumo do episódio
Este episódio do podcast *E o Resto é História* aborda três temas distintos: a relação histórica entre os governos portugueses e os meios de comunicação social, a história da escolaridade obrigatória em Portugal, e duas figuras históricas - o Barão de Forrester e Afonso de Albuquerque.
O primeiro tema surge na sequência de uma polémica recente envolvendo a RTP. Rui Ramos explica que, no início do século XIX, a imprensa estava intimamente ligada a partidos e facções políticas, sendo os jornais essencialmente veículos de opinião ao serviço de causas. O próprio Estado tinha o seu órgão, o *Diário do Governo* - antecessor do atual *Diário da República* -, que chegou a publicar editoriais assinados por figuras como Almeida Garrett e Alexandre Herculano. A partir de meados do século XIX, o *Diário de Notícias*, fundado em 1864, trouxe um modelo diferente: o jornalismo noticioso e tendencialmente imparcial, inicialmente visto com suspeita pelos contemporâneos. Esta nova imprensa de grande circulação acabou por ser mais útil ao poder do que os órgãos partidários, precisamente porque gozava de reputação de independência. Durante o Estado Novo, Salazar percebeu isso mesmo: controlava as direções do *Diário de Notícias* e d'*O Século* com figuras de perfil moderado, cujo apoio ao regime tinha muito mais impacto do que o do declaradamente governamental *Diário da Manhã*. Após o 25 de Abril, a nacionalização da banca arrastou consigo grande parte da imprensa, recriando paradoxalmente uma situação oitocentista de jornais distribuídos pelos partidos - experiência que o público rejeitou e que levou ao desaparecimento de títulos históricos como *O Século*.
O segundo bloco parte dos resultados do teste PISA para explorar a história da educação pública em Portugal. Rui Ramos sublinha um dado surpreendente: a escolaridade obrigatória foi decretada em 1835, mas a primeira geração verdadeiramente escolarizada só surgiu por volta de 1960 - mais de 125 anos depois. Para explicar este fosso entre a lei e a realidade, os apresentadores avançam vários fatores. Ao contrário de países como a França, onde o ensino público servia urgentemente para nacionalizar populações que falavam línguas ou dialetos distintos, Portugal era já uma nação linguisticamente homogénea, pelo que essa pressão não existia. Por outro lado, numa sociedade predominantemente rural, saber ler e escrever não oferecia vantagens práticas imediatas - não plantava melhores batatas nem abria portas a empregos mais qualificados. A isto acrescentava-se a crónica fragilidade financeira do Estado, incapaz de construir escolas e de colocar professores no interior do país. Curiosamente, a Primeira República, apesar da sua retórica pró-instrução, foi um dos períodos em que menos escolas funcionaram e em que o analfabetismo menos recuou. O grande esforço de alfabetização ocorreu já sob o Estado Novo, com os postos escolares e o programa das chamadas escolas dos centenários, nos anos 40, e com campanhas de alfabetização de adultos nos anos 50, impulsionadas também por organismos internacionais e pela necessidade crescente de mão de obra qualificada para a industrialização.
O terceiro tema é o Barão de Forrester, Joseph James Forrester, um comerciante britânico de ascendência escocesa que chegou ao Porto em 1831 para trabalhar com um tio no negócio do vinho. Homem de curiosidade enciclopédica, navegou o Douro durante anos e elaborou um dos primeiros mapas detalhados do rio, com três metros de comprimento, feito que valeu a D. Fernando II lhe atribuir o título de barão. Forrester defendia a liberalização do comércio vinícola, em oposição ao protecionismo da Companhia dos Vinhos do Alto Douro. Morreu afogado no Douro em 1861, quando o barco em que viajava com a célebre Dona Antónia Adelaide Ferreira - a Ferreirinha - virou nos rápidos junto a São João da Pesqueira. A lenda diz que o peso das libras de ouro que transportava o levou ao fundo; ela sobreviveu, segundo a tradição, graças às saias de balão.
Por fim, em resposta a uma pergunta de um ouvinte, os apresentadores falam de Afonso de Albuquerque, governador
Personagens
- Sandra Falgueira
- José Maria Flor Pedroso
- Almeida Garrett
- Alexandre Herculano
- António de Oliveira Salazar
- D. Fernando II
- Antónia Adelaide Ferreira
- Joseph James Forrester
- Vasco da Gama
- Afonso de Albuquerque
- D. Francisco de Almeida
- Lopes Soares de Albergaria
- Luís de Camões
- Júlio César
Lugares/Países
- Portugal
- França
- Espanha
- Itália
- Alemanha
- Inglaterra
- Escócia
- Egito
- Catalunha
- País Basco
- Índia
- Goa
- Malaca
- Meca
- Norte de África
- Marrocos
Épocas
- século XIX
- século XVIII
- século XX
- Estado Novo
- Primeira República
- Monarquia Constitucional
- Revolução Francesa
- Renascimento
- século XVI
- 1835
- 1864
- 1880
- 1890
- 1940
- 1950
- 1960
- 1975
- 1509-1515
- 1510
- 1511
- 1831
- 1855
Temas
- comunicação social
- jornalismo
- imprensa
- censura
- educação
- escolaridade obrigatória
- analfabetismo
- vinho do Porto
- comércio
- império português
- navegação
- conquistas
- agricultura
- industrialização
- nacionalização
- monopólio
- protecionismo
- liberalismo
Eventos
- testes PISA
- suspensão do programa Sextas Nove
- nacionalização dos jornais em 1975
- conquista de Goa
- conquista de Malaca
- descoberta do caminho marítimo para a Índia
- campanhas de alfabetização dos anos 50
- escolas dos centenários
- filoxera
- oídio
Livros citados
- Os Lusíadas
- Comentários do Grande Afonso de Albuquerque