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Nº 4015 de abril de 202041:06resposta a ouvintes

Quando é que começámos a ter um apelido?

Episódio dedicado a responder a perguntas de ouvintes, abordando três temas: a origem e evolução dos apelidos em Portugal desde a Idade Média até ao século XX, explorando a transição dos patronímicos para os nomes de família; as restrições históricas à prática religiosa católica em Portugal, particularmente durante o liberalismo e a Primeira República; e o Mutim de Lamego de 1915, no contexto da luta pela demarcação da região do vinho do Porto.

Ideias principais

  1. Os apelidos em Portugal evoluíram de nomes únicos germânicos no século XI para sistemas complexos com múltiplos elementos, incluindo patronímicos, origens geográficas e alcunhas, fixando-se apenas no século XIX com o registo civil.
  2. Contrariamente a outros países europeus, Portugal nunca proibiu completamente a prática religiosa, mas houve períodos de forte restrição durante o liberalismo (1834-1843) e a Primeira República (após 1911), com encerramento de igrejas e perseguição ao clero.
  3. Os apelidos compostos de árvores ou cereais não identificavam necessariamente cristãos-novos ou muçulmanos; tratava-se geralmente de referências geográficas, e os apelidos portugueses caracterizam-se pela sua democratização entre todas as classes sociais.
  4. O Mutim de Lamego de 1915 resultou da luta dos produtores do Douro pela exclusividade da denominação 'vinho do Porto' contra a concorrência dos produtores do sul, reflectindo tensões económicas e políticas entre norte e sul do país.
  5. As divisões políticas entre monarquistas e republicanos no início do século XX estavam profundamente ligadas a interesses económicos regionais, nomeadamente à produção vinícola, com o norte apoiando a monarquia e o sul a república.

Resumo do episódio

Este episódio do podcast *E o Resto é História* corresponde à quadragésima emissão do programa e divide-se em três temas distintos, abordados por Rui Ramos e João Miguel Tavares a partir de perguntas enviadas por ouvintes. O fio condutor é a curiosidade histórica aplicada a questões do quotidiano português.

O tema central e mais desenvolvido parte da pergunta de um ouvinte de apenas nove anos: quando e como começámos a ter apelidos em Portugal? Rui Ramos reconstrói a história da antroponímia portuguesa com base nos trabalhos de historiadores especializados. Explica que, na Idade Média, quando o reino de Portugal foi fundado, era comum as pessoas serem identificadas apenas por um único nome próprio, herdeiro da tradição germânica trazida pelas invasões bárbaras. Essa tradição assentava numa grande variedade de nomes, o que tornava improvável a confusão entre indivíduos. Com a expansão do cristianismo e a adoção de nomes bíblicos e de santos - muito menos variados - surgiu a necessidade de distinguir pessoas com o mesmo nome, o que levou ao aparecimento dos patronímicos, ou seja, elementos que indicavam a filiação paterna. O próprio nome de Afonso Henriques ilustra este princípio: «Henriques» indica que era filho do conde Henrique. A partir dos séculos XIV e XV, esses patronímicos foram sendo gradualmente substituídos ou fixados como apelidos de família, aos quais se juntaram alcunhas derivadas de características físicas, profissões, cargos ou origens geográficas. Os apelidos tornaram-se primeiro um costume aristocrático, ligado à transmissão de morgadios e à afirmação de linhagens, o que explica a acumulação de múltiplos apelidos nas famílias fidalgas. Só no século XIX, com o registo civil, o sistema de apelidos se tornou verdadeiramente regulamentado e obrigatório. Quanto à ideia popular de que certos apelidos - como nomes de árvores de fruto - seriam característicos de cristãos-novos ou de convertidos do islamismo, Rui Ramos é cético: em Portugal os apelidos foram sempre partilhados democraticamente entre os diferentes grupos sociais, e seria improvável que alguém adoptasse voluntariamente um apelido que o denunciasse.

A segunda parte do episódio responde à pergunta de outro ouvinte sobre se, ao longo da história portuguesa, houve alguma vez restrições à participação nas missas semelhantes às impostas pela pandemia de COVID-19. Rui Ramos recorda que em Portugal não houve proibições tão radicais como as da Revolução Francesa ou da Revolução Russa, mas assinala dois períodos de tensão significativa. O primeiro ocorreu após 1834, quando o governo liberal recusou reconhecer bispos nomeados durante o regime de D. Miguel, levando a uma espécie de cisma e à existência de missas clandestinas nas serras. O segundo foi o período republicano após 1910, com a Lei de Separação entre a Igreja e o Estado, que impôs severas restrições ao culto público, levou à prisão de centenas de padres e resultou até no encerramento de algumas igrejas em Lisboa em 1913. Os apresentadores contextualizam estas tensões numa lógica mais ampla: liberais e republicanos viam o catolicismo como um obstáculo ao progresso e tentavam substituir a religião estabelecida por formas de solidariedade civil laica, num padrão que se repete em vários momentos revolucionários europeus.

O episódio termina com uma breve incursão pela história do vinho do Porto, motivada pela pergunta de um ouvinte sobre o chamado Motim de Lamego de 1915. Rui Ramos explica que os produtores durienses lutavam pelo exclusivo da designação «vinho do Porto» face à concorrência dos vinhos produzidos no sul do país, cujos proprietários queriam misturar as suas aguardentes e vinhos nos produtos do Douro. Esta disputa económica teve também consequências políticas relevantes: os lavradores do sul tornaram-se apoiantes do republicanismo, enquanto os do norte se opunham aos governos republicanos, o que ajuda a explicar a adesão nortenha à breve restauração monárquica de 1919.

Personagens

  • Miguel Aires
  • Iria Gonçalves
  • Nuno Gonçalo Monteiro
  • Carlos Bobón
  • José Leite de Vasconcelos
  • Dom Afonso Henriques
  • Henrique de Borgonha
  • João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett
  • Cavaleiro de Oliveira
  • José Maria Souza Soares
  • Alexandre Herculano
  • António Sardinha
  • Costa Cabral
  • Sidónio Pais
  • Rui Guedes
  • José Relvas

Lugares/Países

  • Portugal
  • França
  • Inglaterra
  • Espanha
  • Rússia
  • Brasil
  • Japão

Épocas

  • Idade Média
  • século XI
  • século XII
  • século XIII
  • século XIV
  • século XV
  • século XVI
  • século XVII
  • século XVIII
  • século XIX
  • século XX
  • invasões bárbaras
  • Revolução Francesa
  • Revolução Liberal
  • Primeira República
  • Estado Novo

Temas

  • antroponímia
  • genealogia
  • nobreza
  • heráldica
  • religião
  • perseguição religiosa
  • separação Igreja-Estado
  • economia vinícola
  • comércio
  • revolta social

Eventos

  • Concílio de Trento
  • Revolução Francesa
  • Terror
  • Revolução Russa
  • Guerra Civil de Espanha
  • Revolução Liberal de 1834
  • Implantação da República
  • Lei de Separação da Igreja e do Estado
  • Mutim de Lamego
  • Milagre de Fátima
  • Monarquia do Norte
  • Independência do Brasil

Guerras e conflitos

  • Guerra Civil de Espanha

Livros citados

  • Livros de linhagens medievais