Nº 16905 de outubro de 202255:32resposta a ouvintes
Quando é que nasceu o sotaque brasileiro?
Episódio dedicado a responder perguntas de ouvintes sobre o Brasil, abordando três temas principais: porque o Brasil se tornou Império e não Reino em 1822, as diferenças entre a descolonização das Américas no século XIX e de África no século XX, e a origem do sotaque brasileiro. Rui Ramos explora a ideia de "antevisões imperiais" do Brasil, a demografia colonial comparada e a evolução linguística do português.
Ideias principais
- O título de Império em 1822 permitiu a D. Pedro distanciar-se tanto da monarquia tradicional europeia como aproximar-se dos modelos republicanos americanos, inspirando-se no precedente napoleónico de império nascido de república
- As descolonizações foram radicalmente diferentes porque as colonizações o foram: nas Américas, 300 anos de povoamento europeu massivo e doenças que dizimaram populações nativas criaram maiorias de descendentes europeus; em África, a colonização tardia (fim século XIX) e doenças hosteis aos europeus mantiveram pequenas minorias coloniais
- O sotaque brasileiro contemporâneo preserva formas mais antigas do português, enquanto o sotaque europeu (especialmente a redução de vogais) é uma inovação moderna a partir do século XVIII, invertendo a perceção comum de arcaísmo linguístico
- A elite que protagonizou a independência brasileira, exemplificada por José Bonifácio (que passou 36 anos em Portugal), falava um português aristocrático uniforme, sem distinções identitárias marcadas entre Brasil e Portugal, que só se desenvolveriam posteriormente
- A autossuficiência territorial, expressa na ideia de "largos domínios" e inspirada no modelo chinês de império fechado, foi central na conceção imperial brasileira desde o século XVI, antecipando a independência em séculos de reflexão colonial
Resumo do episódio
Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares respondem a três perguntas de ouvintes, todas elas suscitadas por um episódio anterior sobre a independência do Brasil, aproveitando também a coincidência com as eleições presidenciais brasileiras.
A primeira questão, colocada pelo ouvinte José Bonito, indaga por que razão o Brasil independente se declarou um império e não um reino. Rui Ramos parte de um livro do historiador brasileiro Evaldo Cabral de Melo para explicar que a ideia de um Brasil imperial tem raízes antigas: desde os primeiros séculos da colonização portuguesa, vários autores associavam a vastidão territorial e a riqueza de recursos do Brasil à noção de império enquanto entidade política autossuficiente, capaz de se bastar a si própria sem depender de outros poderes. Quando a corte portuguesa se transferiu para o Rio de Janeiro, no início do século XIX, essa ideia ganhou novo alento, chegando a surgir a comparação com o Império da China. Mas em 1822, aquando da independência, havia razões mais imediatas para a escolha do título imperial. Dom Pedro precisava de afirmar um Estado novo numa América que era toda ela republicana, e o império - ao contrário do reino - tinha uma tradição, vinda de Roma Antiga e renovada por Napoleão, de coexistir com instituições representativas de tipo republicano. Além disso, intitular-se rei pareceria uma usurpação do lugar do pai, Dom João VI. O título de imperador permitia-lhe, assim, afirmar simultaneamente a novidade do Estado brasileiro e o respeito pela linhagem dinástica.
A segunda pergunta, do ouvinte Rui Correia, questiona por que razão a descolonização africana, ao contrário da americana, não foi protagonizada por descendentes de colonos europeus. A resposta está nas diferenças profundas entre as duas colonizações. Nas Américas, quase três séculos de presença europeia, associados a migrações em massa e à devastação das populações indígenas por doenças como a varíola - para as quais não tinham imunidade -, criaram sociedades em que os descendentes de europeus eram maioritários. Em África, pelo contrário, foram os europeus a sofrer com doenças como a malária, o que travou a penetração colonial até ao final do século XIX. A presença europeia em África foi sempre numericamente marginal face às populações locais - o exemplo do Congo Belga, com apenas 39 mil europeus para 12 milhões de nativos em 1950, é ilustrativo - e de instalação muito recente. As independências africanas ocorreram após apenas algumas décadas de colonização efectiva, protagonizadas por elites locais formadas pelo próprio sistema colonial. As excepções, a África do Sul e a Rodésia, onde existia um povoamento europeu mais antigo e numeroso, foram precisamente acusadas de ilegitimidade por não representarem as maiorias nativas.
A terceira pergunta, do ouvinte João Moura, versa sobre o nascimento do sotaque brasileiro. Rui Ramos explica que, curiosamente, a questão deveria ser colocada ao contrário: não foi o português do Brasil que mudou em relação a um padrão original, mas sim o português europeu que evoluiu, ao reduzir e engolir vogais, afastando-se de uma pronúncia mais antiga que o Brasil terá conservado. Em 1822, a elite letrada que protagonizou a independência - cujo símbolo maior, José Bonifácio de Andrade e Silva, passou 36 anos em Portugal antes de regressar ao Brasil - partilhava uma norma culta comum que se reflecte também na imprensa da época, inteiramente indistinguível de um lado e do outro do Atlântico. Existiam já sotaques populares regionais, tanto no Brasil como em Portugal, mas numa sociedade sem escolarização de massas nem meios de comunicação, essas variações eram tão numerosas e diversas que não constituíam ainda a base de uma identidade nacional. O episódio termina com a curiosidade de que as telenovelas brasileiras das décadas de 1970 e 1980 levaram populações rurais portuguesas a reconhecer no português do Brasil expressões e entoações que ainda usavam nos campos, confirmando a tese da maior antiguidade do português falado no Brasil.
Personagens
- D. Pedro I (Dom Pedro)
- D. João VI
- Evaldo Cabral de Melo
- Augusto (imperador romano)
- Napoleão Bonaparte
- Agustín de Iturbide
- Maximiliano (imperador do México)
- Nelson Mandela
- José Bonifácio de Andrade e Silva
- Tupac Amaru II
- Rafael Bordalo Pinheiro
- Infante D. Henrique
- Carmen Miranda
Lugares/Países
- Brasil
- Portugal
- Estados Unidos
- México
- Peru
- Congo Belga
- África do Sul
- Rodésia/Zimbábue
- Haiti
- Espanha
- França
- Inglaterra
- China
- Suíça
Épocas
- século XVI
- século XVII
- século XVIII
- século XIX
- século XX
- 1822
- pós-Segunda Guerra Mundial
- anos 1950-1960
- Congresso de Viena
- Idade Média
- Roma Antiga
Temas
- independência
- colonialismo
- império
- monarquia
- república
- descolonização
- escravatura
- linguística histórica
- migração
- epidemias
- educação colonial
- identidade nacional
- soberania
Eventos
- Independência do Brasil
- Invasões Francesas
- Guerra de Canudos
- Congresso de Viena
- Revolução Francesa
Guerras e conflitos
- Guerra de Canudos
- Invasões Francesas
- Segunda Guerra Mundial
- Primeira Guerra Mundial
Livros citados
- Um Imenso Portugal (Evaldo Cabral de Melo)