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Nº 21920 de setembro de 202342:48análise histórica

Quando é que os europeus começaram a fumar?

O episódio traça a história do tabaco desde a sua descoberta pelos europeus nas Américas no século XVI até à massificação do consumo de cigarros no século XX. Explora como o tabaco passou de planta medicinal e objeto de comércio colonial a produto de consumo global, com destaque para o papel da Primeira Guerra Mundial na popularização do cigarro. Analisa também a importância económica do monopólio do tabaco em Portugal, que representava um oitavo do orçamento do Estado em 1860.

Ideias principais

  1. O tabaco era usado comercialmente pelos nativos americanos antes da chegada dos europeus, o que despertou o interesse dos colonizadores não pelo consumo mas pelo seu valor comercial.
  2. Durante séculos os europeus consumiram tabaco principalmente mascando ou cheirando (rapé), não fumando, porque as variedades iniciais eram demasiado fortes para inalar confortavelmente.
  3. A Primeira Guerra Mundial foi o momento decisivo na massificação do cigarro: os cigarros eram fornecidos nas rações dos soldados para os tranquilizar nas trincheiras, e estima-se que 96% dos soldados britânicos se tornaram fumadores durante o serviço militar.
  4. A invenção da máquina de enrolar cigarros por James Bonsack em 1880 permitiu produzir 200 cigarros por minuto em vez de 4, tornando o cigarro 50 vezes mais barato e acessível às massas.
  5. Em Portugal, o monopólio do tabaco foi central na economia e na política durante séculos, representando um oitavo do orçamento do Estado em 1860 e estando envolvido em todas as grandes crises políticas, das guerras liberais à queda da monarquia e da Primeira República.

Resumo do episódio

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares percorrem a história do tabaco desde as suas origens americanas até à era do cigarro de massas, respondendo a uma pergunta aparentemente simples: quando é que os europeus começaram a fumar?

O ponto de partida é a chegada dos europeus às Américas no século XVI, onde encontraram populações indígenas que já cultivavam e usavam o tabaco há séculos - em cachimbo, com fins medicinais e rituais, mas também como objeto de troca e comércio. Este último aspecto foi decisivo para despertar o interesse europeu: numa época em que a viabilidade económica das viagens ultramarinas dependia da descoberta de produtos com valor comercial, o facto de o tabaco já circular como mercadoria entre os nativos sinalizava que havia ali algo aproveitável. Ao lado do ouro, da prata, das madeiras, das peles e do açúcar, o tabaco foi sendo integrado nas redes do comércio atlântico, com os mercadores europeus a criar artificialmente procura na Europa através de tratados médicos e de amostras enviadas a figuras da nobreza. É neste contexto que surge a história do embaixador francês em Lisboa, Jean Nicot, que em 1559 terá enviado folhas de tabaco à rainha Catarina de Médicis como remédio para enxaquecas - e a quem a posteridade atribuiu o nome da nicotina.

Porém, os apresentadores sublinham que durante muito tempo fumar não foi a forma dominante de consumo. Durante os séculos XVI, XVII e XVIII, o tabaco era principalmente cheirado sob a forma de rapé ou mascado; fumar em cachimbo existia, mas era secundário, em parte porque as primeiras variedades de tabaco eram demasiado fortes e pouco agradáveis de inalar. Só com o desenvolvimento, a partir do século XVIII, de tabacos mais leves e aromáticos - nomeadamente o tabaco da Virgínia - o acto de fumar se tornou mais confortável. O cigarro propriamente dito, isto é, tabaco enrolado em papel, é uma inovação tardia: a sua grande difusão só foi possível depois de 1880, quando James Bonsack inventou uma máquina capaz de produzir duzentos cigarros por minuto, contra apenas quatro feitos à mão, tornando o produto cinquenta vezes mais barato.

Mesmo assim, foi a Primeira Guerra Mundial o verdadeiro motor da massificação do cigarro. Nas trincheiras da frente ocidental, onde longos períodos de inactividade alternavam com operações de combate, os cigarros foram integrados nas rações dos soldados americanos a partir de 1917, com o argumento de que tranquilizavam as tropas e funcionavam como moeda informal e veículo de socialização entre combatentes de diferentes línguas. O general Pershing chegou a afirmar que os cigarros eram tão necessários quanto as balas. O resultado foi que, segundo algumas estimativas, 96% dos soldados britânicos terão passado a fumar durante o conflito. Desmobilizados e viciados, esses milhões de homens regressaram às suas sociedades e transformaram o cigarro no símbolo de uma nova cultura urbana - associado às pausas de trabalho, à vida nos cafés e salões, à passagem para a idade adulta, e depois, a partir dos anos 1920, também ao público feminino, com campanhas publicitárias que ligavam o tabaco a estilos de vida sofisticados. Nos anos 1950, mais de metade dos homens adultos americanos eram fumadores regulares.

Na parte final do episódio, a conversa desloca-se para Portugal, onde o monopólio do tabaco foi durante séculos um dos maiores negócios do país e uma fonte crucial de receita para o Estado. Em 1860, representava cerca de um oitavo do orçamento público. O sistema funcionava por concessão a privados, que adiantavam receitas ao Estado e lhe facilitavam empréstimos, tornando o contrato do tabaco um instrumento simultaneamente fiscal e financeiro. A disputa por esse contrato esteve presente em momentos decisivos da história política portuguesa, das Guerras Liberais à queda da Monarquia em 1910 e ao golpe de 1926, sendo frequentemente usada como arma de acusação de corrupção entre facções rivais. Rui Ramos acrescenta ainda uma curiosidade: o Infante D. Henrique detinha o monopólio do sabão em Portugal, e durante o século XVIII esse monopólio andou associado ao do tabaco, ambos extintos na fase liberal de meados do século XIX, embora o do tabaco tenha sido reposto nos anos 1880.

Personagens

  • Jean Nicot
  • Catarina de Médicis
  • James Bonsack
  • General Pershing
  • Maria Filomena Mónica
  • Infante D. Henrique

Lugares/Países

  • Portugal
  • Estados Unidos
  • Espanha
  • França
  • Inglaterra
  • Virgínia
  • México
  • Caraíbas
  • Peru
  • Turquia
  • Japão
  • Alemanha
  • Rússia
  • China
  • Iraque
  • Afeganistão
  • Vietname
  • Médio Oriente
  • Grécia

Épocas

  • século XV
  • século XVI
  • século XVII
  • século XVIII
  • século XIX
  • século XX
  • anos 1920
  • anos 1930
  • anos 1950
  • anos 1880

Temas

  • comércio colonial
  • história económica
  • história social
  • história militar
  • produtos coloniais
  • vício e saúde pública
  • monopólios estatais
  • publicidade
  • guerra
  • finanças públicas
  • corrupção política
  • industrialização

Eventos

  • chegada de Colombo à América
  • descobrimentos portugueses
  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • Plano Marshall
  • guerras liberais de 1832-1834
  • queda da monarquia em 1910
  • queda da Primeira República em 1926

Guerras e conflitos

  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra do Iraque
  • Guerra do Afeganistão
  • Guerra do Vietname

Livros citados

  • A Oeste Nada de Novo