Nº 13326 de janeiro de 202240:42resposta a ouvintes
Quando nasceram os partidos políticos?
O episódio traça a evolução dos partidos políticos desde a Antiguidade Clássica até à democracia portuguesa contemporânea, respondendo à pergunta de um ouvinte sobre quando surgiram os partidos como forma de participação cidadã. Rui Ramos explica que embora facções políticas existam desde a Grécia e Roma Antigas, os partidos modernos tal como os conhecemos nasceram no século XVIII-XIX com os regimes representativos e o alargamento do sufrágio. O caso português é particular: após a instabilidade partidária da Primeira República e a ausência de partidos no Estado Novo, o sistema partidário actual foi deliberadamente construído após 1974 pelo MFA para assegurar estabilidade democrática.
Ideias principais
- Embora facções políticas existam desde a Grécia Antiga (Aristóteles estudou-as no século IV a.C.), os partidos políticos modernos surgem apenas no fim do século XVIII e princípio do XIX, com o estabelecimento de parlamentos eleitos e alargamento do sufrágio.
- A aceitação dos partidos como algo positivo e não apenas como facções prejudiciais aconteceu quando se percebeu que a dialética entre partidos conservadores e progressistas equilibrava ordem e progresso, permitindo alternância pacífica de poder sem revoluções.
- No início do século XX surge um novo modelo: o partido de massas (como o Partido Social-Democrata Alemão), que funciona como movimento social e antissociedade, com estrutura semelhante a uma igreja, com militantes, cotizações, burocracia e cultura própria, preparando a transformação da sociedade.
- Os regimes totalitários do século XX (comunismo soviético, fascismo italiano, nazismo alemão) só foram possíveis graças ao conceito prévio de partido de massas, transformado em partido único como vanguarda revolucionária e forma de organizar politicamente toda a sociedade.
- O sistema partidário português actual foi deliberadamente construído após 1974-75 pelo MFA para evitar a fragmentação da Primeira República, favorecendo partidos nacionais estáveis através de lei eleitoral específica, modelo que teve grande êxito e durou até 2019 com apenas quatro ou cinco partidos dominantes.
Resumo do episódio
O episódio parte de uma pergunta enviada por um ouvinte - quando surgiram os partidos políticos como modelo de participação cidadã - e aproveita a proximidade de eleições legislativas para explorar, com Rui Ramos a liderar a argumentação histórica, uma longa trajectória que vai da Antiguidade à democracia portuguesa contemporânea.
O ponto de partida é a constatação de que agrupamentos políticos existem desde que há pluralidade de opiniões e disputa pelo poder. Rui Ramos recua até Aristóteles, que no século IV a.C. já analisava a tendência das sociedades para se dividirem em facções com concepções diferentes de justiça e de governo. O filósofo usava a palavra grega *stasis* para designar simultaneamente a tomada de posição, o grupo que a sustenta e o conflito daí resultante - uma ambiguidade que revela bem a carga negativa associada desde cedo a este fenómeno. A palavra "partido", recorda Ramos, remete para uma parte, algo que se separou de um todo, e durante séculos foi sinónimo de facção, termo com conotação claramente pejorativa. Robespierre, por exemplo, acusava constantemente os adversários de facciosismo, exigindo unidade.
É apenas no final do século XVIII e início do XIX que a palavra "partido" começa a ser aplicada de forma mais sistemática a grupos políticos organizados, nomeadamente em Inglaterra com Tories e Whigs - ambos os nomes, curiosamente, atribuídos pelos adversários - e na Convenção Nacional francesa, com a Montanha e a Gironda. Em Portugal, os primeiros grupos a receberem essa designação foram o Partido Inglês e o Partido Francês na corte do príncipe D. João, distinguindo os que defendiam alinhamento com Londres dos que preferiam equidistância entre as grandes potências. Tratava-se, porém, de agrupamentos fluidos, sem militantes formais, dominados por notáveis com influência social prévia à sua adesão partidária.
Ao longo do século XIX, com a expansão do sufrágio e a consolidação dos parlamentos nas monarquias constitucionais, os partidos tornam-se não apenas inevitáveis mas também valorizados. Os apresentadores sublinham que a dialéctica entre um partido da ordem e um partido do movimento - conservadores e liberais - passou a ser vista como um mecanismo saudável: permitia estabilidade sem imobilismo, alternância sem revolução, e crítica organizada ao governo através de uma oposição institucionalizada. Portugal seguiu este modelo com o Partido Regenerador e o Partido Histórico na segunda metade do século. São os chamados "partidos de notáveis", cujos líderes detinham poder social antes de deterem poder partidário.
O episódio avança depois para um tipo de partido radicalmente diferente que emerge no final do século XIX e início do XX: o partido de massas. O modelo paradigmático é o Partido Social-Democrata Alemão, que funcionava menos como máquina eleitoral e mais como uma sociedade paralela, com burocracia profissionalizada, imprensa própria, cotizações dos militantes e uma cultura identitária que antecipava, segundo Ramos, tanto a experiência religiosa como a dos clubes de futebol. Em Portugal, o Partido Republicano Português desempenhava papel semelhante antes de 1910. Este modelo permitiu também compreender o surgimento, no século XX, dos regimes de partido único - fascismo, nazismo e comunismo soviético -, em que o partido deixa de ser uma parte da sociedade para se apresentar como a sua vanguarda total e exclusiva.
Personagens
- Júlio César
- Augusto
- Pompeu
- Aristóteles
- Robespierre
- Dom João VI
- Freitas do Amaral
- Álvaro Cunhal
Lugares/Países
- Portugal
- Inglaterra
- França
- Estados Unidos
- Alemanha
- Itália
- União Soviética
- Grécia Antiga
- Roma Antiga
Épocas
- República Romana (século I a.C.)
- Grécia Antiga (século IV a.C.)
- Idade Média
- século XVIII
- século XIX
- princípio do século XX
- Primeira Guerra Mundial
- Estado Novo
- Primeira República Portuguesa
- 25 de Abril de 1974
Temas
- democracia
- política
- partidos políticos
- regimes representativos
- sufrágio
- parlamento
- eleições
- ideologia
- socialismo
- fascismo
- comunismo
- liberalismo
- ditadura
Eventos
- Revolução de 25 de Abril de 1974
- Primeira Guerra Mundial
- fundação do Partido Comunista Português (1921)
- eleições de 1975
Guerras e conflitos
- guerras civis da República Romana
Livros citados
- A Política (Aristóteles)