Nº 24121 de fevereiro de 20241h07análise histórica
Quando os holandeses invadiram o Brasil
Episódio sobre as invasões holandesas do Brasil (1624-1654), durante a união ibérica, quando a Companhia das Índias Ocidentais tentou conquistar o nordeste brasileiro, centro mundial da produção de açúcar. A reconquista portuguesa foi obra principalmente dos colonos locais - portugueses, índios e negros - numa guerra de guerrilha que derrotou o exército holandês. A capitulação de 1654 deveu-se sobretudo a razões económicas: a companhia estava em crise financeira e o Brasil deixou de ser rentável.
Ideias principais
- As invasões holandesas do Brasil foram uma consequência directa da união das coroas ibéricas (1580) e da revolta dos Países Baixos contra Espanha, que privou os holandeses do acesso aos produtos coloniais portugueses através de Antuérpia.
- O Brasil holandês não era uma colónia de povoamento mas uma empresa comercial privada gerida pela Companhia das Índias Ocidentais, cujo único interesse era o lucro do açúcar e do tráfico de escravos, ao contrário do império português que tinha também obrigações políticas, religiosas e de honra dinástica.
- A reconquista do nordeste brasileiro foi obra principalmente da população local - colonos portugueses, índios convertidos e escravos negros - com comandantes militares índios (Filipe Camarão), negros (Henrique Dias) e mulatos, numa guerra de guerrilha que derrotou o exército europeu holandês.
- O fracasso holandês deveu-se a três factores: não conseguiram ocupar Salvador da Bahia (base portuguesa de resistência), enfrentaram uma população católica hostil que os via como hereges, e a Companhia entrou em crise financeira com a queda do preço do açúcar na Europa.
- O mito de que um Brasil holandês teria sido mais desenvolvido (republicano, protestante, científico) é desfeito pela historiografia: a Companhia só queria açúcar e escravos, e mesmo o governo 'iluminado' de Maurício de Nassau era uma excepção aristocrática num empreendimento puramente comercial.
Resumo do episódio
Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares debruçam-se sobre um capítulo pouco conhecido da história luso-brasileira: a ocupação holandesa do nordeste do Brasil, que durou cerca de três décadas na primeira metade do século XVII, e que terminou formalmente com a capitulação holandesa em Janeiro de 1654. A questão de partida é dupla: como foi possível que os holandeses chegassem a dominar metade do Brasil colonizado, e como é que os portugueses acabaram por os expulsar, contra todas as probabilidades?
Para responder, Rui Ramos começa por contextualizar o que eram as Províncias Unidas dos Países Baixos no século XVII - não a pequena Holanda atual, mas uma república de sete províncias do norte dos antigos Países Baixos, que havia conquistado a independência face à Espanha a partir de 1568. Com uma frota mercante maior do que a de todos os outros países europeus juntos, com Amsterdão como principal praça financeira da Europa e com o domínio do comércio do trigo, da madeira e das pescarias do norte, as Províncias Unidas eram a grande potência comercial e marítima do século. A sua ligação ao Portugal e ao Brasil era já muito antiga: eram os holandeses que distribuíam os produtos portugueses pela Europa a partir de Antuérpia, e que financiavam boa parte das empresas comerciais lusas. Quando a guerra com a Espanha recomeçou em 1621, cortando o acesso dos holandeses aos portos ibéricos, a decisão foi ir diretamente às fontes - açúcar no Brasil, especiarias na Ásia - através das suas companhias comerciais privadas.
O Brasil interessava em particular pelo nordeste, onde os portugueses haviam desenvolvido o maior centro mundial de produção de açúcar, assente em cerca de trezentos engenhos movidos por trabalho escravo africano. Em 1624 os holandeses tomaram Salvador da Bahia, mas foram expulsos no ano seguinte por uma armada luso-espanhola. A partir de 1630, concentraram-se em Pernambuco, estabelecendo o Recife como capital do chamado Brasil holandês, que chegou a abranger seis capitanias do nordeste. Entre 1637 e 1644, o governo deste território ficou a cargo de Maurício de Nassau, aristocrata alemão aparentado com os chefes de Estado das Províncias Unidas, cuja presença rodeada de artistas e cientistas alimentaria mais tarde o mito de um Brasil holandês próspero e iluminado - mito que o historiador brasileiro Evaldo Cabral de Melo desmontaria numa biografia publicada em 2006, mostrando que Nassau, tal como a companhia que o empregava, não tinha outro objetivo senão maximizar a produção de açúcar com recurso à escravatura.
Os apresentadores explicam com detalhe por que razão o projeto holandês acabou por falhar, apontando três razões fundamentais. Primeiro, os portugueses nunca perderam Salvador da Bahia, que permaneceu como base de resistência no nordeste. Segundo, a população portuguesa estabelecida no Brasil - estimada em cerca de duzentas mil pessoas, incluindo índios convertidos e escravos integrados na sociedade colonial - nunca foi substituída por colonos holandeses, que eram apenas uma minoria de militares, burocratas e negociantes; a diferença religiosa entre católicos e calvinistas, agravada pela presença de comerciantes judeus sefarditas trazidos de Amsterdão, alimentou um ressentimento constante. Terceiro, e de modo decisivo, o Brasil holandês não era uma empresa de Estado mas sim um negócio da Companhia das Índias Ocidentais, uma sociedade por ações cotada em bolsa que, quando os rendimentos caíram e as despesas militares aumentaram por causa das revoltas dos colonos portugueses, começou a perder interesse no investimento.
As batalhas dos Guararapes, em 1648 e 1649, em que forças portuguesas mistas - com comandantes índios como Filipe Camarão, negros como Henrique Dias e mestiços como João Fernandes Vieira - derrotaram o exército holandês na selva e nos pântanos, e a reconquista de Luanda e São Tomé em 1648, que cortou o fornecimento de escravos ao nordeste, selaram o destino do Brasil holandês. Em 1654, o Recife capitulou. A Companhia das Índias Ocidentais ainda negociou uma indemnização com Lisboa em 1661, mas em 1674 faliu definitivamente. O episódio termina com uma reflexão sobre o mito do "Brasil holandês" entre int
Personagens
- Pedro Álvares Cabral
- D. Sebastião
- D. João IV
- Johan Maurits van Nassau-Zingen (Maurício de Nassau)
- Francisco Barreto de Menezes
- Filipe Camarão
- Henrique Dias
- João Fernandes Vieira
- André Vidal de Negreiros
- Salvador Correia de Sá
- Charles Boxer
- Jonathan Israel
- Jorge Borges de Macedo
- Evaldo Cabral de Melo
- António Sérgio
Lugares/Países
- Brasil
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- Antilhas
- Guianas
Épocas
- século XVI
- século XVII
- século XIX
- Dinastia Filipina
- Idade Média
Temas
- colonialismo
- guerra
- comércio
- escravatura
- açúcar
- religião
- catolicismo
- protestantismo
- calvinismo
- economia
- diplomacia
- capitalismo
- companhias comerciais
- missionação
- guerrilha
- povoamento
- mão de obra escrava
- antissemitismo
- xenofobia
- navegação
- especiarias
Eventos
- Descoberta do Brasil (1500)
- Restauração da Independência (1640)
- Independência do Brasil (1822)
- França Antártica (1555-1567)
- Ocupação holandesa de Salvador da Bahia (1624-1625)
- Primeira Batalha dos Guararapes (1648)
- Segunda Batalha dos Guararapes (1649)
- Capitulação holandesa no Recife (1654)
- Reconquista de Luanda e São Tomé (1648)
Guerras e conflitos
- Invasões holandesas do Brasil
- Guerra da Restauração (1640-1668)
- Guerra dos Trinta Anos (1618-1648)
- Revolta dos Países Baixos (1568)
- Guerra anglo-holandesa (1652-1654)
- Revolta dos agricultores portugueses em Pernambuco (1645)
- Segunda revolta em Pernambuco (1648)
Livros recomendados
- Nassau (Evaldo Cabral de Melo, 2006)
Livros citados
- Nassau (Evaldo Cabral de Melo)