Nº 3112 de fevereiro de 202045:11análise histórica
Quando se acendeu a primeira lâmpada em Portugal?
O episódio aborda dois temas principais: a história da eletrificação de Portugal desde 1878, destacando o papel visionário do engenheiro Ezequiel de Campos na defesa das energias renováveis; e os bombardeamentos aliados a Dresden em 1945, discutindo a moralidade da guerra total. Termina com uma reflexão sobre a contingência histórica e a inevitabilidade da independência portuguesa no século XVII.
Ideias principais
- A primeira iluminação elétrica pública em Portugal aconteceu em 1878 em Cascais, durante o aniversário do príncipe D. Carlos, com candeeiros emprestados pela Câmara de Lisboa.
- Ezequiel de Campos, conhecido como 'o Inesecuível de Campos', foi um visionário que defendeu energias renováveis desde o início do século XX, chegando a sacrificar os seus ideais democráticos para colaborar com o Estado Novo em prol da eletrificação do país.
- Os bombardeamentos de Dresden em fevereiro de 1945 mataram cerca de 25 mil pessoas e fazem parte de uma lógica de guerra total que visava encurtar o conflito através de violência extrema contra infraestruturas e população civil.
- A independência de Portugal após 1640 era provavelmente inevitável devido à conjuntura internacional favorável, à incapacidade espanhola de garantir a autonomia do reino português, e aos recursos próprios de Portugal incluindo o Brasil.
- Em 1706, o exército português conquistou Madrid e aclamou o arquiduque Carlos de Áustria como rei de Espanha, demonstrando a capacidade militar portuguesa de resistir e até desafiar a Espanha durante a Guerra da Sucessão de Espanha.
Resumo do episódio
Este episódio do podcast *E o Resto é História* abre com uma pergunta aparentemente simples, motivada pelo debate público em torno do IVA da eletricidade: quando se acendeu a primeira lâmpada elétrica em Portugal e como decorreu a eletrificação do país? O historiador Rui Ramos situa a primeira experiência de iluminação pública eléctrica a 28 de setembro de 1878, na esplanada da Cidadela de Cascais, durante as comemorações do aniversário do Príncipe Real D. Carlos. Os candeeiros foram depois instalados no Chiado, em Lisboa, e em 1880 a iluminação elétrica marcou também as celebrações do Centenário de Camões. Nas décadas seguintes, a eletricidade foi-se expandindo sobretudo sob a forma de iluminação e de tração dos elétricos, a partir de pequenas centrais térmicas a carvão importado, na sua maioria geridas por municípios ou seus concessionários. Em meados do século XX, Portugal tinha centenas dessas centrais, mas três delas produziam tanta energia quanto todas as restantes juntas, o que dá a medida da sua modéstia.
A figura central deste percurso é o engenheiro Ezequiel de Campos, nascido em 1874 e falecido em 1965, que defendeu desde 1911 a eletrificação do país com recurso a fontes renováveis - barragens nos rios Zêzere, Douro e Guadiana - em vez do carvão importado, antecipando ainda o aproveitamento do vento, das marés e da energia solar. As suas ideias eram vistas como utópicas e valeram-lhe a alcunha de «Inexequível de Campos». Republicano de esquerda, Ezequiel de Campos chegou a participar no governo de José Domingos dos Santos em 1924, mas acabou por colaborar com o Estado Novo - tornando-se procurador à Câmara Corporativa -, convencido de que Salazar poderia concretizar os projetos que a República ignorara. Confessou ter sacrificado os seus ideais de liberdade em nome do desenvolvimento. Foi apenas na década de 1940 que o ministro Ferreira Dias aproveitou essas ideias para lançar a construção das grandes barragens hidroelétricas, triplicando a produção de energia e tornando-a maioritariamente renovável nos anos 50. Paradoxalmente, a partir dos anos 60 o crescimento do consumo voltou a impulsionar as centrais térmicas, de modo que em 1990 cerca de 70% da eletricidade era produzida com combustíveis fósseis. A eletrificação total do território só se concluiu verdadeiramente nos anos 70 e 80 do século XX, com enormes desigualdades regionais a persistirem até muito tarde.
A segunda parte do episódio é dedicada ao bombardeamento de Dresden, em fevereiro de 1945, que matou cerca de 25 mil pessoas. Rui Ramos enquadra o ataque na estratégia aliada de bombardeamento sistemático das cidades alemãs, recordando que Hamburgo sofreu em 1943 uma destruição ainda maior. O objetivo declarado era destruir infraestruturas e desmoralizar a população civil, e a sequência das vagas de aviões foi deliberadamente planeada para impedir o combate aos incêndios. Os apresentadores reconhecem que o ataque levanta sérias questões morais, mas sublinham que Dresden não era uma cidade aberta declarada, que os Soviéticos haviam pedido apoio para a sua ofensiva e que analistas aliados ainda em janeiro de 1945 previam que a guerra pudesse durar até ao fim do ano. A discussão remete para o romance *Slaughterhouse-Five* de Kurt Vonnegut, sobrevivente do bombardeamento enquanto prisioneiro de guerra, e para o livro *História Natural da Destruição* de W.G. Sebald.
A última parte responde a uma pergunta de um ouvinte sobre o papel da contingência na história, usando como exemplo a Guerra da Restauração. Rui Ramos argumenta que Portugal dificilmente poderia ter perdido definitivamente essa guerra: a conjuntura internacional era favorável, com a Espanha dispersa em múltiplas frentes e a Catalunha como prioridade estratégica de Madrid; Portugal tinha uma dinastia própria com raízes em D. Afonso Henriques, os recursos do Brasil e o apoio inglês. Além disso, a Coroa espanhola já não conseguia garantir a autonomia que Portugal detinha sob os Filipes, o que tornava a submissão politicamente insustentável para a nobreza portuguesa. O episódio termina com a prom
Personagens
- D. Luís I
- D. Carlos I
- Ezequiel de Campos
- Raul Brandão
- José Domingos dos Santos
- Salazar
- José Sarmento Pimentel
- Ferreira Dias
- Kurt Vonnegut
- Joseph Goebbels
- W. G. Sebald
- Louis-Ferdinand Céline
- Michael Powell
- Emmerich Pressburger
- José Maria Pimentel
- Norman Davies
- Cardeal Richelieu
- D. João IV
- Filipe II de Espanha
- Filipe III de Portugal
- Filipe IV de Espanha
- Conde-Duque de Olivares
- Luís XIII de França
- Marquês de Minas
- Carlos de Áustria
- Filipe V de Espanha
- D. Afonso Henriques
- Matias de Albuquerque
- Marechal Masséna
Lugares/Países
- Portugal
- Alemanha
- Reino Unido
- Estados Unidos
- Itália
- Suíça
- França
- Brasil
- Espanha
- Países Baixos
- Holanda
- Bélgica
- Áustria
- Catalunha
- Andaluzia
Épocas
- século XIX
- século XX
- Estado Novo
- Primeira República
- Segunda Guerra Mundial
- século XVII
- Guerra dos Trinta Anos
- Guerra da Restauração
- Guerra da Sucessão de Espanha
- Invasões Francesas
Temas
- energia e eletricidade
- iluminação pública
- desenvolvimento tecnológico
- infraestruturas
- política energética
- guerra total
- bombardeamentos estratégicos
- crimes de guerra
- independência
- soberania
- guerra
- diplomacia
- relações internacionais
- monarquia
- império colonial
Eventos
- Primeira iluminação elétrica pública em Portugal
- Centenário Camoniano
- Bombardeamento de Dresden
- Blitz de Londres
- Bombardeamento de Hamburgo
- Ofensiva das Ardenas
- Revolução de 1640
- Tratado de Paz de 1668
- Conquista de Évora por tropas espanholas
- Conquista de Madrid pelo exército português
Guerras e conflitos
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra dos Trinta Anos
- Guerra da Restauração
- Guerra da Sucessão de Espanha
- Guerra do Vietname
- Invasões Francesas
Livros recomendados
- Slaughterhouse-Five (Kurt Vonnegut)
- História Natural da Destruição (W. G. Sebald)
- Norte (Louis-Ferdinand Céline)
- Vanished Kingdoms (Norman Davies)
Livros citados
- História Natural da Destruição (W. G. Sebald)
- Slaughterhouse-Five (Kurt Vonnegut)
- Norte (Louis-Ferdinand Céline)
- Vanished Kingdoms (Norman Davies)