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Nº 7623 de dezembro de 202039:56resposta a ouvintes

Quem é que introduziu o garfo em Portugal?

Episódio especial de Natal dedicado a responder a perguntas dos ouvintes mais jovens. Rui Ramos aborda três temas: a origem e importância social dos cafés na Europa e Portugal (séculos XVII-XX), a introdução do garfo e das maneiras de estar à mesa, a trágica história da Ponte das Barcas no Porto durante a Segunda Invasão Francesa (1809), e a lenda da Rainha Santa Isabel impedindo o confronto entre D. Dinis e o seu filho D. Afonso IV na Batalha de Alvalade (1323-1324).

Ideias principais

  1. Os cafés europeus, originários do Império Otomano via Itália no século XVII, tornaram-se no século XVIII espaços fundamentais de sociabilidade masculina, debate político e literário, funcionando como as 'redes sociais' da época.
  2. O garfo como talher individual de mesa generalizou-se na Europa apenas a partir dos séculos XVII-XVIII, sendo inicialmente um marcador de distinção social, com manuais oitocentistas de civilidade a ensinar a 'maneira britânica' versus a 'maneira francesa ordinária' de comer.
  3. A tragédia da Ponte das Barcas (1809) resultou do pânico de uma população que resistiu aos franceses com milícias improvisadas, tendo ainda na memória o massacre de Évora (1808), e que viu no general Bernardino Freire de Andrade um traidor, linchando-o dias antes em Braga.
  4. A resistência portuguesa às invasões francesas foi essencialmente popular e não militar profissional, com o exército regular desmobilizado e a população armada com chuços e foices a tentar desesperadamente travar o avanço francês até à chegada de Wellington.
  5. A história da Rainha Santa Isabel a impedir a Batalha de Alvalade não aparece em fontes contemporâneas de 1344, mas apenas numa crónica de 1419, sugerindo tratar-se de uma lenda edificante construída no processo de canonização, embora a rainha tenha efectivamente mediado conflitos entre pai e filho.

Resumo do episódio

Neste episódio especial de Natal, Rui Ramos e João Miguel Tavares dedicam o programa às perguntas enviadas por crianças, respondendo a três questões sobre história, todas elas com uma dimensão do quotidiano que facilmente capta a imaginação dos mais novos.

A primeira pergunta é sobre a origem dos cafés enquanto estabelecimentos. Os apresentadores explicam que o hábito de beber café nasceu em África, mas foi no Médio Oriente, sobretudo no âmbito do Império Otomano, que surgiram os primeiros locais públicos dedicados ao seu consumo, já no século XV. A bebida chegou à Europa pelo sul de Itália, graças às relações comerciais das repúblicas italianas com o Levante mediterrânico, e os cafés enquanto espaços de sociabilidade proliferaram pelo continente a partir do século XVII, chegando a Portugal por volta de meados do século XVIII. Rui Ramos sublinha que estes locais funcionaram como uma espécie de redes sociais da época: espaços exclusivamente masculinos onde se liam jornais, se ouviam novidades e se comentavam assuntos políticos e literários com uma liberdade que incomodava as autoridades. Em Lisboa, o chefe de polícia Pina Manique já se queixava em 1794 de que nesses cafés se falava da pessoa do príncipe com toda a liberdade. Ao longo do século XIX, os cafés tornaram-se espaços de referência para grupos políticos e literários, sendo associados até a correntes artísticas, como aconteceu com os surrealistas do Café Gelo nos anos cinquenta do século XX.

A segunda pergunta, enviada por uma criança de casa de João Miguel Tavares, questiona se foi Dona Filipa de Lencastre quem introduziu o garfo em Portugal. Rui Ramos distingue o garfo como instrumento de cozinha, que já existia desde os romanos, do garfo enquanto talher individual de mesa, que é uma inovação muito mais tardia. Foi na Itália do século XIV que o garfo e a colher começaram a ser usados individualmente para comer, em alternativa à prática de consumir os alimentos com as mãos. A difusão deste hábito seguiu uma lógica de imitação social: das cortes principescas para a aristocracia, e desta para as classes burguesas que aspiravam a parecer educadas. Os apresentadores evocam os manuais de civilidade do século XIX, nomeadamente o do autor Roquete, que recomendava o uso simultâneo de faca e garfo ao estilo britânico, classificando como ordinário o método francês de pousar a faca depois de cortar a comida. Esta história dos talheres é enquadrada na obra do historiador Norbert Elias sobre o processo civilizacional europeu.

A terceira e última pergunta interroga se foi mesmo a Rainha Santa Isabel quem impediu a batalha entre o rei Dom Dinis e o seu filho, o futuro Afonso IV. Rui Ramos contextualiza o conflito: entre 1319 e 1324, Dom Dinis e o infante Dom Afonso viveram uma guerra civil motivada pela desconfiança do herdeiro legítimo de que o pai pretendia favorecer um filho bastardo. A rainha mediou efetivamente o conflito em várias ocasiões. Porém, o episódio específico da Batalha de Alvalade, em que a rainha se teria interposto entre os dois exércitos prestes a combater, não aparece em nenhuma crónica contemporânea dos acontecimentos, nomeadamente na Crónica Geral de Espanha de 1344. O episódio surge apenas num texto de 1419, já inserido numa tradição hagiográfica que antecipava a beatificação da rainha, ocorrida em 1516. Rui Ramos conclui que, embora a mediação da rainha seja historicamente comprovada, a cena dramática de Alvalade pertence provavelmente à lenda, deixando em aberto, com espírito natalício, a possibilidade de que nem tudo o que não se prova deixa de ter acontecido.

Personagens

  • D. Filipa de Lencastre
  • D. João I
  • D. João III
  • Roquete
  • Norbert Elias
  • Maria Alexandre de Lousada
  • Bocage
  • Pina Manique
  • D. Maria I
  • D. João VI
  • Junot
  • Napoleão
  • Loison
  • Bernardino Freire de Andrade
  • Wellington
  • Bernadotte
  • D. Dinis
  • D. Afonso IV
  • Isabel de Aragão (Rainha Santa Isabel)
  • Afonso Sanches
  • João Afonso
  • Pedro Afonso
  • D. Afonso III
  • Bernardo Vasconcelos de Sousa

Lugares/Países

  • Portugal
  • Inglaterra
  • França
  • Itália
  • Brasil
  • Estados Unidos
  • Espanha
  • Egipto
  • África
  • Médio Oriente
  • Império Otomano
  • Galiza
  • Trás-os-Montes
  • Minho

Épocas

  • século XV
  • século XVI
  • século XVII
  • século XVIII
  • século XIX
  • século XX
  • Idade Média
  • Primeira República
  • Segunda Guerra Mundial

Temas

  • gastronomia
  • costumes sociais
  • vida quotidiana
  • guerra
  • resistência popular
  • política
  • literatura
  • conflitos dinásticos
  • santidade
  • civilização
  • etiqueta
  • urbanismo
  • comércio

Eventos

  • Invasões Francesas
  • Primeira Invasão Francesa (1807)
  • Segunda Invasão Francesa (1809)
  • Tragédia da Ponte das Barcas
  • Saque de Évora (1808)
  • Batalha de Braga (1809)
  • Batalha de Alvalade (1323)
  • Guerra civil entre D. Dinis e D. Afonso IV

Guerras e conflitos

  • Invasões Francesas
  • Guerras Napoleónicas

Livros citados

  • O Processo Civilizacional (Norbert Elias)
  • Crónica Geral de Espanha (1344)
  • Biografia de D. Afonso IV (Bernardo Vasconcelos de Sousa)