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Nº 10728 de julho de 202149:23análise histórica

Quem foi Otelo Saraiva de Carvalho?

O episódio analisa a figura paradoxal de Otelo Saraiva de Carvalho, coordenador operacional do 25 de Abril, através de três paradoxos: o militar que derrubou a ditadura mas depois defendeu soluções antidemocráticas; o revolucionário que impediu involuntariamente a consolidação da revolução socialista do PCP; e o homem que evitou a guerra civil em Novembro de 1975 mas depois se envolveu no terrorismo das FP25 nos anos 80.

Ideias principais

  1. Otelo fez o plano de operações do 25 de Abril mas não foi o seu estratega nem líder - esse papel coube aos generais Spínola e Costa Gomes, cuja autoridade permitiu ao regime abdicar sem resistência
  2. O esquerdismo de Otelo em 1975 serviu para legitimar a descolonização e garantir-lhe protagonismo político, levando-o de major desconhecido a figura de capa da revista Time
  3. Otelo impediu involuntariamente a consolidação de um regime comunista em Portugal ao recusar aliar-se ao PCP, preferindo uma revolução popular mais radical que não tinha viabilidade prática
  4. O fracasso eleitoral do movimento otelista entre 1976 e 1980 (de 800 mil votos para 85 mil) conduziu sectores da extrema-esquerda à retomada da luta armada através das FP25
  5. Otelo foi frequentemente um homem fora de pé, arrastado por ondas que não controlava nem compreendia totalmente, o que não o desculpa mas ajuda a compreender os seus papéis contraditórios na história portuguesa

Resumo do episódio

Otelo Saraiva de Carvalho, falecido recentemente aos 84 anos, foi provavelmente a figura mais controversa dos primeiros anos da democracia portuguesa. Rui Ramos e João Miguel Tavares dedicam este episódio a tentar compreendê-la a partir de três paradoxos que estruturam a sua trajectória, evitando tanto a hagiografia como a condenação sumária.

O primeiro paradoxo prende-se com o lugar real de Otelo no 25 de Abril. Embora seja frequentemente apresentado como o grande arquitecto da revolução, Rui Ramos sublinha que a sua contribuição foi o plano de operações, não a estratégia política que tornou o golpe possível. Essa estratégia dependeu decisivamente de Spínola e Costa Gomes, cujo prestígio junto das elites do Estado Novo garantiu que a resistência fosse mínima. O próprio Otelo era, até julho de 1974, um oficial obscuro: quando Mário Soares o levou a Lusaka para as negociações com a Frelimo, nem o ministro nem o seu assessor sabiam quem ele era. Foi o comando do COPCON, o organismo militar que funcionava na prática como última autoridade em Portugal, que o transformou numa figura pública. O seu esquerdismo, que não era ideologicamente anterior a 1974, serviu dois propósitos simultâneos: legitimar a retirada de África entregando o poder a movimentos de libertação com quem os oficiais podiam identificar-se como companheiros de causa, e garantir que os capitães de Abril permanecessem protagonistas de um processo revolucionário que, de outro modo, os teria relegado para os quartéis e para o esquecimento.

O segundo paradoxo é o mais surpreendente: Otelo, principal defensor de uma revolução socialista popular, acabou por ser um dos maiores obstáculos à única via que poderia ter conduzido Portugal a um regime de influência comunista. Em 1975, face à divisão da esquerda militar entre os gonzalvistas próximos do PCP, o grupo de Melo Antunes orientado para um socialismo pluralista e uma extrema-esquerda radical com a qual Otelo se identificava, o comandante do COPCON tornou-se o árbitro da situação. Foi ele que, em agosto de 1975, contribuiu decisivamente para a queda do quinto governo de Vasco Gonçalves e para travar a consolidação da influência comunista nas Forças Armadas. Álvaro Cunhal tentou aliciá-lo sem sucesso. No 25 de Novembro, recusando desencadear uma guerra civil, entregou-se em Belém. O PCP nunca lhe perdoou este papel, reconhecendo nele um dos responsáveis pelo fracasso da sua tentativa de tomada do poder.

O terceiro paradoxo envolve as FP-25. O homem que em novembro de 1975 não quis derramar sangue foi, nos anos 1980, condenado por envolvimento numa organização de luta armada responsável pela morte de dezoito pessoas. Otelo negou sempre ter liderado ou sequer conhecer as acções das Forças Populares de 25 de Abril, argumentando que o seu nome fora usado. Os apresentadores recordam, porém, que o Ministério Público demonstrou que a Frente de Unidade Popular, o partido legal que Otelo liderava, e as FP-25 faziam parte da mesma organização. Esta deriva violenta foi em grande medida o produto de uma derrota política: os quase 800 mil votos das presidenciais de 1976 reduziram-se a 85 mil em 1980, e o colapso do movimento popular de extrema-esquerda empurrou os seus sectores mais radicais para a luta armada.

No balanço final, Rui Ramos propõe uma leitura que não absolve mas procura compreender: Otelo foi muitas vezes um homem arrastado por uma onda que não controlava, um major obscuro que de repente fumava charutos com Fidel Castro e aparecia na capa da Time sem ter previsto nenhum desses destinos. Talvez o derradeiro paradoxo seja que foram precisamente os seus papéis mais sombrios, em 1975 e nos anos 1980, que o impediram de cair no esquecimento e preservaram a memória do papel que desempenhou no 25 de Abril.

Personagens

  • Otelo Saraiva de Carvalho
  • António de Spínola
  • Francisco da Costa Gomes
  • Salgueiro Maia
  • Marcelo Caetano
  • Veiga Simão
  • Vasconcelos Coutinho
  • Melo Antunes
  • Álvaro Cunhal
  • Mário Soares
  • Samora Machel
  • Vítor Cunha Rego
  • Edward Kennedy
  • Jaime Silvério Marques
  • Carlos Antunes
  • Isabel do Carmo
  • Vasco Gonçalves
  • Pinheiro de Azevedo
  • Otávio Pato
  • Galvão de Melo
  • Fidel Castro
  • Jaime Neves

Lugares/Países

  • Portugal
  • Moçambique
  • Guiné
  • Angola
  • Cuba
  • Estados Unidos

Épocas

  • Estado Novo
  • Revolução de 25 de Abril de 1974
  • PREC (Processo Revolucionário em Curso)
  • década de 1980
  • maio de 68

Temas

  • revolução
  • golpe de Estado
  • descolonização
  • democracia
  • ditadura
  • guerra colonial
  • terrorismo
  • comunismo
  • extrema-esquerda
  • transição democrática
  • luta armada

Eventos

  • 25 de Abril de 1974
  • 16 de Março de 1974
  • 11 de Março de 1975
  • 25 de Novembro de 1975
  • eleições presidenciais de 1976
  • eleições presidenciais de 1980
  • negociações de Lusaka
  • verão quente de 1975

Guerras e conflitos

  • Guerra Colonial Portuguesa