Nº 27302 de outubro de 202442:09efeméride
Revolta de Varsóvia: a grande tragédia de 1944
Episódio sobre a Revolta de Varsóvia de agosto-outubro de 1944, quando o exército polaco do interior se sublevou contra a ocupação nazi esperando o apoio do Exército Vermelho que avançava. Stálin ordenou a paragem do avanço soviético, permitindo aos nazis esmagar a revolta, executar 150 mil civis e demolir 80% da cidade. A tragédia ilustra como a Polónia foi duplamente traicionada - pelos nazis e pelos seus supostos libertadores soviéticos - e condenada a 45 anos de ditadura comunista.
Ideias principais
- A Revolta de Varsóvia foi simultaneamente uma luta contra a ocupação nazi e uma tentativa desesperada de afirmar a soberania polaca antes da ocupação soviética, seguindo o modelo da libertação de Paris por de Gaulle.
- O exército do interior polaco (Armia Krajowa) era uma força de resistência sem equivalente na Europa ocupada, com 400 mil ativistas e estruturas clandestinas que incluíam universidades e escolas secretas.
- Stálin ordenou deliberadamente que o Exército Vermelho parasse nos arredores de Varsóvia durante 63 dias, permitindo aos nazis massacrar a resistência polaca que ele via como obstáculo aos seus planos de anexação e controlo comunista.
- O massacre de Katyn (1940), onde os soviéticos executaram 22 mil oficiais e membros das elites polacas, demonstrava que a União Soviética era inimiga da Polónia independente tanto quanto a Alemanha nazi.
- Churchill chegou a pedir planos militares para uma guerra contra a URSS em defesa da Polónia (julho 1945), mas os comandos britânicos concluíram que era impossível, evidenciando a impotência ocidental face à dominação soviética da Europa de Leste.
Resumo do episódio
Este episódio de *E o Resto é História* é dedicado à Revolta de Varsóvia, ocorrida entre 1 de agosto e 2 de outubro de 1944, numa altura em que se assinalavam oito décadas sobre esse acontecimento. Rui Ramos e João Miguel Tavares propõem-se explicar não apenas o fracasso militar da insurreição, mas sobretudo a profunda injustiça política que a rodeou: pela segunda vez em cinco anos, a Polónia foi abandonada pelos seus aliados.
Para situar o episódio, os apresentadores descrevem o estado da guerra no verão de 1944. A oeste, os aliados anglo-americanos tinham desembarcado na Normandia em junho e avançavam em direção à Alemanha. A leste, o Exército Vermelho tinha lançado uma grande ofensiva e, em julho, já se encontrava em território polaco. A derrota alemã era uma questão de tempo, mas isso levantava uma questão decisivamente política: quem governaria os países libertados? Os americanos defendiam inicialmente que a ocupação alemã deveria ser substituída por uma administração militar aliada que organizasse eleições livres. Porém, os movimentos de resistência armada que tinham surgido por toda a Europa ocupada reclamavam para si a legitimidade de representar as respetivas nações. Foi exactamente o argumento do general De Gaulle em França, que exigiu ser reconhecido como chefe do governo provisório francês e insistiu que a libertação de Paris fosse protagonizada pelos próprios franceses, o que acabou por acontecer a 25 de agosto de 1944, com apoio americano.
Na Polónia, a situação era semelhante na forma, mas incomparavelmente mais grave no conteúdo. A Polónia era um Estado jovem, reconstituído apenas em 1918, com fronteiras contestadas pela Alemanha e pela Rússia, e com uma população multinacional. Desde 1939, tinha um governo no exílio em Londres e uma estrutura de resistência interior notável, a *Armia Krajowa* ou Exército do Interior, com cerca de 400 mil membros organizados clandestinamente, dos quais 40 mil combatentes armados e fardados. Esta força não estava pensada apenas para operações de guerrilha, mas para afirmar imediatamente a soberania polaca no momento da libertação. O governo polaco em Londres desconfiava profundamente da União Soviética - que tinha invadido a Polónia oriental em 1939, exterminado cerca de 22 mil oficiais e membros das elites polacas em Katyn, e começava já a prender sistematicamente os membros do Exército do Interior nas zonas que ia ocupando em 1944. Desconfiava também dos aliados ocidentais, que suspeitava estarem dispostos a sacrificar a independência polaca em nome da aliança com Estaline.
É neste contexto que, a 1 de agosto de 1944, o Exército do Interior se subleva em Varsóvia, sob o comando do general Bor-Komorowski. A lógica era análoga à de De Gaulle: libertar a capital, afirmar presença e tornar impossível que o futuro da Polónia fosse decidido sem os polacos. A insurreição teve um arranque impressionante - grandes áreas da cidade foram tomadas, incluindo o centro histórico, e uma enorme bandeira polaca foi içada num dos edifícios mais altos da capital. A população apoiou em massa os insurgentes, e entre os combatentes contavam-se cerca de 2 000 mulheres fardadas.
Mas ao contrário do que aconteceu em Paris, os alemães não se retiraram. Tinham planos para transformar Varsóvia numa praça-forte e enviaram forças das SS que, além de combaterem os insurgentes, massacraram a população civil - calcula-se que cerca de 150 000 civis foram mortos, com execuções em massa, como as do bairro de Wola, onde 40 000 pessoas terão sido fuziladas em dois dias. O Exército Vermelho, que estava nos arredores de Varsóvia desde 29 de julho, parou e assistiu. Não avançou, não prestou apoio de artilharia nem aéreo, e impediu os aliados ocidentais de utilizarem os seus aeródromos para abastecer os insurgentes. Após 63 dias de combate, com cerca de 15 000 mortos no Exército do Interior, o general Bor-Komorowski capitulou. Os alemães cumpriram então as ordens de Hitler e demoliram sistematicamente a cidade, destruindo 80% de Varsóvia, incluindo museus, bibliotecas e arquivos com todo o seu conte
Personagens
- Adolf Hitler
- Charles de Gaulle
- Franklin D. Roosevelt
- Joseph Stalin
- Tadeusz Bor-Komorowski
- Winston Churchill
- Lech Wałęsa
- Elżbieta Zawacka
Lugares/Países
- Polónia
- Alemanha
- União Soviética
- França
- Inglaterra
- Estados Unidos
- Ucrânia
- Bielorrússia
- Lituânia
- Roménia
- Hungria
- Checoslováquia
- Jugoslávia
- Austrália
- Japão
Épocas
- Segunda Guerra Mundial
- Guerra Fria
- Primeira Guerra Mundial
- período comunista (1945-1989)
Temas
- guerra
- resistência
- ocupação militar
- genocídio
- diplomacia
- política internacional
- traição
- libertação nacional
- ditadura comunista
- deportação
- execuções em massa
Eventos
- Revolta de Varsóvia
- Massacre de Katyn
- Desembarque da Normandia
- Libertação de Paris
- Batalha de Inglaterra
- invasão da Polónia
Guerras e conflitos
- Segunda Guerra Mundial
- Primeira Guerra Mundial
- Guerra soviético-polaca (1920-21)