← Arquivo

Nº 33906 de janeiro de 202659:34resposta a ouvintes

Rodésia: independência branca no coração de África

O episódio analisa a independência unilateral da Rodésia do Sul em 1965, declarada por Ian Smith para manter o poder nas mãos da minoria branca, num contexto em que França e Inglaterra aceleravam a descolonização africana. Discute-se porque é que esta solução foi única em África, porque nunca seria viável em Angola ou Moçambique, e como o regime rodésiano colapsou em 1980, dando origem ao Zimbábue sob Robert Mugabe, que destruiu a prosperidade herdada através de expropriações, massacres étnicos e má gestão económica.

Ideias principais

  1. A independência branca da Rodésia foi possível porque o território tinha autogoverno parlamentar desde 1923 e forças de segurança locais, ao contrário das colónias portuguesas governadas directamente por Lisboa com tropas metropolitanas.
  2. A população branca da Rodésia do Sul (300 mil) era composta maioritariamente por agricultores pobres de origem britânica que se identificavam profundamente com a terra, diferentemente das elites aristocráticas do Quénia que puderam regressar à Europa.
  3. Apesar da segregação racial, a Rodésia investiu fortemente na educação da população negra, alcançando em 1970 uma taxa de escolarização de 60% nas crianças negras, a mais alta de África, e mantendo até hoje a maior taxa de alfabetização do continente.
  4. O regime de Ian Smith resistiu durante 15 anos (1965-1980) sem reconhecimento internacional, enfrentando sanções da ONU e guerrilhas apoiadas pela União Soviética com 40 mil combatentes, números muito superiores aos que Portugal enfrentou em África.
  5. Robert Mugabe transformou a 'joia da África' numa catástrofe económica através de massacres étnicos (20 mil Nebedele em 1982), expropriação de agricultores brancos e destruição da agricultura, reduzindo o PIB do Zimbábue de 60% para 5% da média mundial.

Resumo do episódio

Este episódio de *E o Resto é História* toma como ponto de partida uma pergunta de um ouvinte sobre a Rodésia, país hoje conhecido como Zimbábue, que em 1965 declarou unilateralmente a independência face ao Reino Unido, mantendo o poder nas mãos da sua minoria branca. Os apresentadores propõem-se explicar por que razão este foi um caso singular em África, se uma solução semelhante poderia ter acontecido em Angola ou Moçambique, e por que razão acabou por fracassar.

Rui Ramos começa por contextualizar as independências africanas na segunda metade do século XX, explicando que França e Inglaterra decidiram, de forma relativamente abrupta no final da década de 1950, conceder a independência às suas colónias. Esta decisão resultou de um cálculo pragmático: manter o controlo implicaria reprimir movimentos independentistas cada vez mais organizados, com custos militares e políticos elevados, e ao mesmo tempo corria-se o risco de esses movimentos caírem sob influência soviética. Na chamada África tropical, onde havia poucos europeus e grandes populações negras, a transição fez-se com relativa facilidade, entregando o poder a líderes políticos locais já integrados em estruturas representativas.

A África austral era um mundo diferente. A Rodésia do Sul tinha cerca de 300 mil brancos numa população total de seis milhões, na sua maioria negros de língua Bantu. Estes colonos, chegados no final do século XIX através da British South Africa Company de Cecil Rhodes, eram sobretudo agricultores oriundos das classes populares britânicas, sem grandes propriedades ou redes de apoio noutros países. Ao contrário dos colonos quenianos, que pertenciam frequentemente à aristocracia e podiam partir sem grandes perdas, os rodesianos tinham construído as suas vidas naquele território ao longo de uma ou duas gerações e sentiam-no genuinamente como seu. Em 1923, a Rodésia do Sul tornara-se uma colónia britânica com parlamento e governo próprios, eleitos por sufrágio censitário que, na prática, excluía a maior parte da população negra. Quando em 1965 o governo de Ian Smith e da Frente Rodésiana percebeu que Londres se preparava para entregar o poder à maioria negra, declarou a independência unilateral, invocando a necessidade de uma transição gradual para «mãos responsáveis».

Os apresentadores sublinham que uma solução rodésiana em Angola ou Moçambique era improvável por três razões estruturais. Primeiro, os colonos portugueses viviam sob uma ditadura sem instituições representativas próprias, ao contrário dos rodesianos que dispunham de um governo eleito local. Segundo, a segurança desses territórios dependia de forças armadas metropolitanas, cujos comandos, após o 25 de Abril de 1974, optaram por negociar a independência directamente com os movimentos armados, ignorando os colonos brancos. Terceiro, a filosofia oficial portuguesa era de sociedades multirraciais, incompatível com qualquer forma de supremacia branca.

Quanto ao desfecho da própria Rodésia, o episódio detalha como o regime nunca foi reconhecido internacionalmente, viveu sob sanções e enfrentou uma guerrilha crescente protagonizada pela ZANU e pela ZAPU, representando respectivamente as populações Shona e Ndebele. Em 1978, Ian Smith chegou a um acordo com líderes negros moderados, nomeadamente o bispo Abel Muzorewa, constituindo um governo de maioria negra partilhada; mas a ZANU e a ZAPU rejeitaram o acordo e continuaram a guerra. Em 1980, num desfecho singular - que implicou uma breve recolonização formal pelo Reino Unido para legitimar o processo -, eleições livres deram a vitória a Robert Mugabe, que recebeu o que o líder tanzaniano descreveu como «a joia de África». Mugabe governou durante 37 anos, destruindo progressivamente a economia do país através de expropriações arbitrárias de agricultores brancos, colapso da produção agrícola, hiperinflação e repressão. O Zimbábue, que tinha um dos maiores PIB per capita de África e a maior taxa de alfabetização do continente, viu o seu rendimento cair para menos de um décimo do nível relativo de 1960. Os apresentadores concluem que os dirigentes da Frente Rodésiana acertaram no diagnóstico do que poderia acontecer, mas que a sua solução provavelmente agravou as circunstâncias que queriam evitar.

Personagens

  • Ian Smith
  • Luís Castelo Branco
  • Santos e Castro
  • Jorge Jardim
  • Harold Macmillan
  • Cecil Rhodes
  • Salazar
  • Robert Mugabe
  • Abel Musorewa
  • Joshua Nkomo

Lugares/Países

  • Rodésia do Sul
  • Zimbábue
  • Reino Unido
  • Portugal
  • Moçambique
  • Angola
  • África do Sul
  • Rodésia do Norte
  • Zâmbia
  • Quénia
  • Congo Belga
  • Nigéria
  • Senegal
  • Camarões
  • França
  • Inglaterra
  • Tanzânia
  • Índia
  • Indochina
  • Malásia
  • Indonésia
  • União Soviética
  • Estados Unidos
  • Ruanda
  • Libéria

Épocas

  • século XX
  • década de 1950
  • década de 1960
  • década de 1970
  • década de 1980
  • década de 1990
  • Segunda Guerra Mundial
  • pós-guerra
  • século XIX
  • século IX
  • século XVII
  • século XVI
  • Guerra Fria
  • fim do século XX

Temas

  • descolonização
  • independência
  • colonialismo
  • segregação racial
  • apartheid
  • guerra civil
  • guerrilha
  • ditadura
  • nacionalismo
  • imperialismo
  • missões religiosas
  • alfabetização
  • agricultura
  • comércio
  • mineração
  • Commonwealth Britânica
  • sanções internacionais
  • desenvolvimento económico
  • massacres
  • expropriação de terras
  • migrações
  • Guerra Fria
  • cristianismo

Eventos

  • Declaração Unilateral de Independência da Rodésia (1965)
  • independências africanas
  • ventos da mudança (Winds of Change)
  • bloqueio naval à Beira (1965-66)
  • massacre de Nebedele (1982)
  • eleições de 1979 na Rodésia
  • eleições de 1980 no Zimbábue
  • Revolução de 25 de Abril (1974)

Guerras e conflitos

  • guerra de guerrilha da ZANU e ZAPU
  • Segunda Guerra Mundial
  • guerras coloniais portuguesas
  • guerra civil no Zimbábue