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Nº 25208 de maio de 202451:43efeméride

Ruanda em 1994: o último genocídio do século XX

O episódio analisa o genocídio do Ruanda em 1994, quando 77% da população Tutsi (500 a 800 mil pessoas) foi exterminada em 100 dias por extremistas Hutu após o assassinato do presidente Habyarimana. Rui Ramos explica as raízes coloniais e pós-coloniais da divisão étnica, o papel da propaganda radiofónica, e a passividade internacional marcada pelo trauma da Somália. O massacre só terminou com a vitória militar da Frente Patriótica Tutsi liderada por Paul Kagame.

Ideias principais

  1. O genocídio do Ruanda foi um extermínio artesanal executado por vizinhos contra vizinhos, incluindo casos extremos de mães Hutu matando filhos de pais Tutsi, algo sem paralelo mesmo no Holocausto.
  2. A divisão entre Hutus e Tutsis precede a colonização europeia, sendo o Ruanda já um reino com estrutura hierárquica no século XVIII, contrariando a narrativa simplista de que foi uma criação colonial belga.
  3. A Rádio Televisão Livre das Mil Colinas (RTLM) foi instrumento central do genocídio, apelando continuamente ao massacre e celebrando os assassinatos durante três meses enquanto o mundo assistia.
  4. A comunidade internacional não interveio devido ao trauma da Somália (Batalha de Mogadishu, 1993), que levou Bill Clinton a estabelecer em maio de 1994 regras restritivas para intervenções americanas onde não houvesse interesses vitais em risco.
  5. O genocídio foi televisionado globalmente mas as divisões geopolíticas (França apoiando Hutus por interesses francófonos, Uganda apoiando Tutsis) e as limitações das regras de engajamento da ONU impediram uma resposta eficaz.

Resumo do episódio

## Ruanda, 1994: como foi possível o último genocídio do século XX

Este episódio é dedicado ao genocídio do Ruanda, ocorrido há trinta anos, entre abril e julho de 1994, quando em apenas cem dias foram assassinados entre 500 a 800 mil tutsis e hutus moderados. Rui Ramos e João Miguel Tavares partem de duas perguntas essenciais: como se explica este extermínio e por que razão a comunidade internacional não o impediu, numa era de globalização e de televisão por cabo a emitir em contínuo?

Para responder, os apresentadores começam por contextualizar o Ruanda: um país pequeno, do tamanho do Alentejo, densamente povoado, pobre, rural e montanhoso, situado no coração da África dos Grandes Lagos. A sua população estava dividida entre hutus, a maioria agricultora, e tutsis, uma minoria historicamente ligada à criação de gado e à aristocracia guerreira que governava o reino preexistente à colonização. Ao contrário de muitos outros países africanos, o Ruanda já existia como entidade política antes da chegada dos europeus. Os alemães chegaram em 1897 e estabeleceram um acordo com a monarquia tutsi; os belgas, que os substituíram a partir de 1916, encontraram esta divisão já instalada e governaram através da elite tutsi, acrescentando-lhe uma dimensão racial ao convencerem-se de que os dois grupos tinham origens étnicas distintas. O que os belgas fizeram, em suma, foi institucionalizar e aprofundar uma hierarquia preexistente, transformando os tutsis nos colaboradores privilegiados do poder colonial.

A inversão deste equilíbrio começou ainda durante o período colonial: a Igreja Católica belga tomou o partido da maioria hutu, promovendo a sua organização política. Em 1959 deram-se os primeiros massacres anti-tutsi e a independência, em 1962, foi conquistada sob bandeira hutu. Cerca de 300 mil tutsis fugiram para os países vizinhos, sobretudo para o Uganda. A partir daí, o Ruanda tornou-se uma ditadura de partido único hutu, que legitimava o seu poder apresentando-se como representante da maioria historicamente oprimida, sem necessidade de eleições livres. Em 1990, os tutsis exilados no Uganda formaram a Frente Patriótica do Ruanda e invadiram o país, desencadeando uma guerra civil que durou até 1993. A França interveio militarmente do lado hutu, temendo que uma vitória tutsi - de combatentes anglófonos saídos do Uganda - desestabilizasse o Congo e alargasse a influência anglófona na região. As Nações Unidas mediaram um acordo de partilha de poder em agosto de 1993, mas em abril de 1994 o avião do presidente hutu Juvénal Habyarimana foi abatido, e extremistas hutus aproveitaram o acontecimento para desencadear o extermínio sistemático dos tutsis, acusando-os do atentado.

O genocídio distingue-se de outros pela sua natureza artesanal e popular: foi executado com catanas e machetes, em grande medida pelos próprios vizinhos das vítimas, numa sociedade rural onde toda a gente se conhecia. Uma rádio criada pelo governo hutu, a Rádio Televisão Livre das Mil Colinas, funcionou como instrumento central de mobilização, apelando continuamente à população para matar tutsis e celebrando os massacres em tempo real. Igrejas onde os tutsis procuraram refúgio foram atacadas; freiras hutus chegaram a organizar massacres dentro dos seus conventos. Cerca de 77% dos tutsis do Ruanda foram mortos em cem dias.

Personagens

  • Juvenal Habyarimana
  • Violenne Baradouk
  • Joaquim Phoenix
  • Terry George
  • Paul Kagame
  • Bill Clinton
  • Mobutu Sese Seko
  • Ridley Scott

Lugares/Países

  • Ruanda
  • Uganda
  • Congo
  • Zaire
  • Tanzânia
  • Burundi
  • Bélgica
  • Alemanha
  • França
  • Somália
  • Estados Unidos
  • Etiópia
  • Bangladesh
  • Gana
  • Tunísia
  • Itália

Épocas

  • século XX
  • década de 1990
  • colonização europeia
  • pós-Guerra Fria
  • Segunda Guerra Mundial
  • Idade Média
  • século XVIII
  • século XIX

Temas

  • genocídio
  • limpeza étnica
  • guerra civil
  • colonialismo
  • descolonização
  • conflitos étnicos
  • intervenção humanitária
  • violência de massas
  • propaganda
  • catolicismo
  • independência africana
  • ditadura de partido único
  • missões de paz da ONU
  • geopolítica

Eventos

  • Genocídio do Ruanda
  • Julgamentos de Nuremberg
  • Queda do Muro de Berlim
  • Batalha de Mogadishu
  • Massacre de Srebrenica

Guerras e conflitos

  • Guerra Civil do Ruanda (1990-1993)
  • Primeira Guerra Mundial
  • Segunda Guerra Mundial
  • Guerra Civil da Somália
  • Guerra da Jugoslávia
  • Guerra Civil do Uganda
  • Guerra Civil do Burundi

Livros citados

  • Tu les obliges à mourir. L'enfanticide génocidaire au Rwanda