Nº 2715 de janeiro de 202043:38análise histórica
Sabia que no Irão se usava mini-saia nos anos 70?
O episódio analisa a Revolução Iraniana de 1979 e a queda do Shah Reza Pahlavi, explorando como um regime modernizador e secularizante colapsou face ao islamismo xiita de Khomeini. Na segunda parte, discute-se a extinção das ordens religiosas em Portugal em 1834, um processo violento de secularização liberal que destruiu património cultural e deixou monges e freiras na miséria, com consequências que se prolongaram até ao século XX.
Ideias principais
- O Irão dos anos 70, cosmopolita e ocidentalizado, representava uma elite modernizadora que não refletia a sociedade maioritariamente rural e tradicional, criando tensões que alimentaram a revolução islâmica.
- Os regimes autoritários de modernização forçada no Médio Oriente (Shah do Irão, Ataturk na Turquia) seguiram o modelo japonês Meiji, mas criaram ressentimentos tanto na direita religiosa como na esquerda universitária.
- O Médio Oriente permanece multiétnico e multi-religioso, ao contrário da Europa que se homogeneizou culturalmente, tornando a democratização destes Estados historicamente muito difícil e propensa a conflitos entre maiorias e minorias.
- A extinção das ordens religiosas em Portugal em 1834 teve motivações económicas (apropriação de património), ideológicas (visão liberal contra o obscurantismo) e políticas (punição pelo apoio a D. Miguel), mas resultou em perdas culturais devastadoras.
- As consequências da extinção dos conventos foram terríveis: bibliotecas e arquivos perdidos, obras de arte queimadas (800 kg em 1853), freiras a morrer de fome no Mosteiro de Lorvão, e a destruição de uma rede de assistência social e educativa que o Estado liberal não conseguiu substituir eficazmente.
Resumo do episódio
Este episódio parte de uma imagem aparentemente desconcertante: fotografias de jovens iranianas de mini-saia em Teerão nos anos 70, facilmente encontráveis na internet. A partir dessa imagem, Rui Ramos e João Miguel Tavares exploram como o Irão chegou àquela modernidade cosmopolita e por que razão ela desapareceu de forma tão abrupta com a Revolução Islâmica de 1979.
Os apresentadores enquadram este processo num fenómeno mais amplo de modernização autoritária que caracterizou vários países não-ocidentais ao longo do século XX. O exemplo de referência é o do Japão da Era Meiji, mas no caso do Médio Oriente destacam-se figuras como Kamal Atatürk na Turquia e os Xás da dinastia Pahlavi no Irão. O pai do último Xá, ele próprio general do exército, tomou o poder nos anos 20 e impôs reformas radicais: proibiu o uso do véu, obrigou as mulheres de funcionários a aparecerem em público com traje ocidental e substituiu o calendário islâmico por um calendário iraniano com raízes na Antiguidade persa. Foi também ele quem exigiu às potências estrangeiras que substituíssem o nome «Pérsia» por «Irão». O seu filho, o último Xá, prosseguiu esta revolução modernizadora, concedendo o direito de voto às mulheres em 1963 e multiplicando o número de estudantes universitários. O regime estava, porém, cada vez mais encurralado entre um clero xiita hostil às reformas e uma esquerda universitária radicalizada, enquanto o próprio Xá governava doente, escondendo um cancro de todos, incluindo dos Estados Unidos, seu principal aliado. Quando a contestação explodiu em 1978-79, o regime desmoronou, e o Ocidente, subestimando a força do islão político, não previu que Khomeini e o clero teocrático fossem capazes de reverter décadas de modernização forçada, reimpostas o véu e revertendo as reformas sociais.
A partir daqui, os apresentadores alargam o olhar ao Médio Oriente em geral, chamando a atenção para a tendência ocidental de confundir árabe com muçulmano. Rui Ramos explica que a região foi historicamente dominada por dois grandes impérios multiétnicos e multireligiosos - o Otomano e o Iraniano - e que, ao contrário da Europa, nunca passou por um processo semelhante de homogeneização cultural e religiosa. No início do século XX, entre 20 e 25 por cento da população do Médio Oriente era cristã. Os Estados que sucederam estes impérios após a Primeira Guerra Mundial herdaram esta pluralidade, o que torna a democratização estruturalmente difícil: ela tende a traduzir-se em conflito aberto entre grupos. Os curdos são dados como exemplo desta complexidade - a maior população do mundo sem Estado próprio, dividida entre a Turquia, o Irão, o Iraque e a Síria.
Na segunda parte, os apresentadores respondem a uma pergunta de uma ouvinte sobre a extinção das ordens religiosas em Portugal em 1834. Rui Ramos explica que o decreto de Joaquim António de Aguiar - apelidado de «Mata-Frades» - atingiu apenas o clero regular, ou seja, os frades, monges e freiras que viviam em corporações, e não os padres paroquiais. As razões foram essencialmente três: um interesse económico na apropriação do vasto património acumulado pelos conventos ao longo de séculos; uma motivação ideológica liberal, que via nestes religiosos um modelo de ociosidade incompatível com a sociedade de cidadãos produtivos que queriam construir; e uma razão política, dado que boa parte do clero regular apoiara D. Miguel durante a guerra civil. As consequências foram devastadoras do ponto de vista patrimonial: bibliotecas, arquivos e colecções de arte foram reunidos em condições precárias no antigo Convento de São Francisco em Lisboa, e uma parte significativa acabou destruída ou queimada. Os frades foram literalmente postos na rua, muitos em situação de miséria. As freiras podiam permanecer nos conventos até morrer, mas sem admissão de noviças, e o Estado acabou por se esquecer de lhes pagar as pensões prometidas - como denunciou Alexandre Herculano em 1853, ao encontrar as freiras do Mosteiro do Lorvão a passar fome.
Personagens
- Reza Pahlavi (o último Shah do Irão)
- Reza Pahlavi (pai do último Shah)
- Khomeini
- Kamal Ataturk
- Jimmy Carter
- Saddam Hussein
- Bashar al-Assad
- Ciro (imperador persa antigo)
- Erdogan
- Joaquim António de Aguiar
- D. Miguel
- Marquês de Pombal
- Padre António Vieira
- Padre Manuel Bernardo
- Frei Luís de Sousa
- Frei Tomé Pinto
- Frei Agostinho da Cruz
- Alexandre Herculano
Lugares/Países
- Irão
- Pérsia
- Estados Unidos
- Turquia
- Afeganistão
- Egito
- Rússia
- Grã-Bretanha
- Japão
- Síria
- Iraque
- Líbano
- Jordânia
- Israel
- Portugal
- França
- Inglaterra
Épocas
- anos 70 (século XX)
- anos 20 (século XX)
- anos 30 (século XX)
- anos 40 (século XX)
- anos 50 (século XX)
- anos 60 (século XX)
- Era Meiji
- século XIX
- século XVI
- século VI a.C.
- 1834
Temas
- revolução
- religião
- modernização
- autoritarismo
- nacionalismo
- islamismo
- secularização
- ocidentalização
- guerra civil
- clero
- ordens religiosas
- liberalismo
- extinção das ordens religiosas
- património
- educação
- cultura
Eventos
- Revolução Iraniana
- Revolução Branca (Irão)
- Revolução Francesa
- Reforma Protestante
- Guerra Civil entre liberais e miguelistas
- Primaveras Árabes
- Primeira Guerra Mundial
Guerras e conflitos
- Guerra Russo-Japonesa
- Guerras com Israel
- Guerra Civil portuguesa (liberais vs miguelistas)