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Nº 24228 de fevereiro de 202449:12resposta a ouvintes

Salazar foi corrupto ou não?

O episódio analisa se Salazar foi corrupto, concluindo que pessoalmente não o foi, mas que governou através de um sistema de favoritismo e clientelismo. Rui Ramos traça a evolução histórica da corrupção e do favorecimento em Portugal desde o século XVIII, explicando como os chefes políticos usavam recursos do Estado para criar redes de apoio. Apesar de Salazar não ter enriquecido pessoalmente, manteve no Estado Novo as estruturas de favorecimento que já existiam, embora sem a fiscalização da imprensa livre e do parlamento.

Ideias principais

  1. Salazar não foi corrupto no sentido de aproveitamento pessoal do cargo, viveu frugalmente e morreu sem património significativo, tendo apenas cerca de 50 mil euros em valores actuais.
  2. A corrupção e o favorecimento eram instrumentos políticos essenciais nos séculos XVIII e XIX, necessários para chefes de governo construírem redes de apoio através de 'criaturas', 'amigos' e 'partidários'.
  3. Figuras como o Marquês de Pombal e Costa Cabral precisavam de enriquecer e ostentar riqueza para serem respeitados pela aristocracia e pelas elites, tornando a corrupção uma questão política e não apenas moral.
  4. O Estado Novo manteve e possivelmente agravou o sistema de favorecimento através do condicionamento industrial e das organizações corporativas, mas eliminou os mecanismos de escrutínio como imprensa livre e oposição parlamentar.
  5. O sistema de cunhas e clientelismo criou em Portugal uma mentalidade de dependência de contactos em vez de meritocracia, o que provavelmente prejudicou o desenvolvimento económico e social do país.

Resumo do episódio

Este episódio parte de uma pergunta enviada por um ouvinte, Martim Fernandes Homem, que assistira a uma discussão nas redes sociais sobre se Salazar teria sido ou não corrupto, e queria saber se a imagem de ditador austero e incorruptível era real ou apenas uma construção propagandística do Estado Novo.

Rui Ramos responde de forma directa: não há provas nem indícios de que Salazar tenha alguma vez usado o cargo público para se enriquecer ou para obter contrapartidas pessoais em troca de favores. A oposição acusou-o de tudo ao longo de quarenta anos de governo, menos precisamente disso. O seu biógrafo oficial, Franco Nogueira, calculou que, à data da morte em 1970, o património de Salazar não ia além de uma modesta conta bancária e de uma pequena propriedade em Santa Comba Dão, equivalendo, em valores actuais e corrigidos pela inflação, a cerca de cinquenta mil euros - as poupanças típicas de um funcionário público. O facto de o seu espólio pessoal estar acessível a investigadores desde 1974 sem que nenhum indício de enriquecimento ilícito tenha sido encontrado reforça esta conclusão. A frugalidade de Salazar não era, portanto, apenas um mito fabricado pelo regime.

Porém, os apresentadores sublinham que a corrupção não se esgota no enriquecimento pessoal. Para contextualizar, Rui Ramos traça um percurso histórico que recua ao século XVIII. O Marquês de Pombal e, mais tarde, Costa Cabral no século XIX são exemplos de políticos que, chegando ao poder sem base social sólida, sentiram a necessidade de enriquecer e de ostentar riqueza para serem respeitados pelas elites com quem tinham de lidar. Neste sentido, a corrupção não era apenas um defeito de carácter, mas uma estratégia política de legitimação social num contexto em que poder e fortuna andavam indissociáveis. Já no início do século XX, Afonso Costa, líder republicano, era também associado a um estilo de vida abastado, embora nunca tenha sido formalmente acusado de irregularidades.

Mais do que o enriquecimento pessoal, o verdadeiro combustível da política portuguesa durante séculos foi o sistema de favores, cunhas e clientelismo. Ramos descreve como os chefes políticos reuniam à sua volta "criaturas" no século XVIII, "amigos" no século XIX e "partidários" no século XX, todos eles dependentes dos favores do poder em troca de apoio político e votos. Os chamados "influentes" ou caciques eram os intermediários locais deste sistema, pessoas com contactos em Lisboa capazes de conseguir isenções militares, empregos públicos ou obras para as suas aldeias. O estudo de espólios de ministros oitocentistas revela que a esmagadora maioria da sua correspondência era composta por pedidos de favores - o que mostra bem como o sistema funcionava na prática.

No que respeita ao Estado Novo, Ramos explica que, embora fosse uma ditadura, o regime também assentava neste sistema de clientelismo para se sustentar socialmente, mais do que apenas na repressão. A lei do condicionamento industrial e as organizações corporativas tornaram o favorecimento ainda mais estrutural, ao limitar o número de empresas e concessões disponíveis. Em 1945, um escândalo de tal dimensão envolvendo estas organizações obrigou a própria ditadura a abrir um inquérito. Vários ministros e figuras do regime foram acusados de corrupção em literatura clandestina, mas nunca o próprio Salazar. Este soube assim jogar em dois tabuleiros: manteve o sistema de favorecimentos que era indispensável ao exercício do poder, mas preservou uma imagem pessoal de integridade que lhe conferiu uma legitimidade adicional enquanto ditador.

Personagens

  • Salazar
  • Marquês de Pombal
  • Costa Cabral
  • Afonso Costa
  • Franco Nogueira
  • Marcelo Caetano
  • D. Maria I
  • D. José I
  • D. Maria II
  • Napoleão
  • Fontes Pereira de Melo
  • D. Rodrigo de Sousa Coutinho
  • José da Cunha Brochado
  • Henrique de Burnay
  • Marquês da Foz
  • Erzan
  • Duncan Simpson
  • Marco Alves
  • Pedro Jorge Castro

Lugares/Países

  • Portugal
  • França
  • Áustria
  • Espanha
  • Estados Unidos
  • Suíça
  • Panamá

Épocas

  • século XVIII
  • século XIX
  • século XX
  • Estado Novo
  • Primeira República
  • monarquia constitucional
  • monarquia absoluta
  • Segunda Guerra Mundial

Temas

  • corrupção
  • política
  • poder
  • clientelismo
  • favoritismo
  • ditadura
  • economia
  • justiça
  • administração pública
  • empresas
  • censura
  • liberdade de imprensa
  • desigualdade social

Eventos

  • escândalo Erzan
  • escândalo dos títulos do Panamá
  • inquérito às organizações corporativas de 1945

Livros citados

  • Salazar Confidencial
  • Salazar e os Milionários