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Nº 34624 de fevereiro de 202640:09resposta a ouvintes

Se isto não é o Bangladesh, o que é o Bangladesh?

O episódio explora a história do Bangladesh, desde a sua geografia de delta extremamente povoado até à presença portuguesa nos séculos XVI-XVII em Bengala, passando pela formação do Império Britânico na região, a partição religiosa de 1947 que criou dois Paquistões separados, e a sangrenta guerra de independência de 1971. Analisa ainda as diferenças culturais e linguísticas que separavam o Paquistão Oriental do Ocidental, a subsequente história política turbulenta do Bangladesh independente, e os padrões contemporâneos de imigração bengali.

Ideias principais

  1. O Bangladesh é um dos territórios mais densamente povoados do mundo (1.200 pessoas/km²), com 175 milhões de habitantes numa área apenas 50% maior que Portugal, devido às planícies aluviais férteis do delta do Ganges.
  2. A presença portuguesa em Bengala nos séculos XVI-XVII incluía comerciantes, piratas e missionários em Chitagong, deixando descendentes católicos que ainda hoje preservam nomes e identidade portuguesa, representando cerca de 0,3% da população actual.
  3. A partição de 1947 criou o Paquistão dividido em dois territórios separados por mais de mil quilómetros, unidos apenas pela religião muçulmana mas com línguas, culturas e identidades distintas (urdu no Ocidente, bengali no Oriente).
  4. A guerra de independência de 1971 resultou num dos maiores massacres do século XX, com estimativas de 300 mil mortos e 10 milhões de refugiados, terminando com a intervenção militar indiana e a criação do Bangladesh independente.
  5. Apesar da história traumática, o Bangladesh actual é mais rico que o Paquistão, tem a segunda maior indústria têxtil do mundo, e está a sofrer uma retração demográfica dramática com a taxa de fertilidade a cair de 5,5 para 1,9 em poucas décadas.

Resumo do episódio

O episódio parte de uma polémica política recente em Portugal - os cartazes do partido Chega com o slogan "Isto não é o Bangladesh" - para responder a uma pergunta enviada por ouvintes: afinal, o que é o Bangladesh? Rui Ramos e João Miguel Tavares percorrem a história desta região desde a Antiguidade até aos dias de hoje, explicando como um território com a dimensão de Portugal e meio chegou a albergar cerca de 175 milhões de habitantes, com uma das densidades populacionais mais elevadas do mundo.

O ponto de partida é a região histórica de Bengala, que está na origem do Bangladesh moderno. Geograficamente, trata-se essencialmente de um delta fluvial - onde o Ganges e outros rios desaguam na Baía de Bengala - com planícies extremamente férteis, mas também muito sujeitas a cheias devastadoras. Em 1998, dois terços do país ficaram submersos. Culturalmente, Bengala possuía já na Antiguidade uma língua própria, o Bengali, língua indo-europeia aparentada com o português e hoje falada por mais de 240 milhões de pessoas. A região foi também um importante nó das rotas comerciais entre o Médio Oriente e a China, e é apontada como possível berço dos algarismos que usamos hoje e do xadrez. A partir do século XIV, o poder político passou a ser muçulmano, embora a população fosse maioritariamente hindu, o que explica a posterior islamização de uma parte significativa dos bengalis.

Os portugueses chegaram a Bengala no início do século XVI, estabelecendo-se no porto de Chitagong - o "Porto Grande de Bengala" - com comerciantes, missionários, soldados e piratas. A presença portuguesa dependia tanto da autorização dos soberanos locais como de alianças complexas com poderes regionais, como o rei budista de Arakan, na atual Birmânia. Muitos dos "portugueses" da Ásia não eram nascidos em Portugal, mas sim mestiços ou convertidos ao catolicismo que se identificavam como portugueses por via da religião e da língua. Os Mogóis expulsaram os portugueses de Chitagong em meados do século XVII, com apoio holandês, mas deixaram uma pequena comunidade cristã que persiste até hoje no Bangladesh, concentrada num bairro de Daca chamado Portugola, com descendentes que ainda conservam apelidos portugueses.

A história moderna do Bangladesh é inseparável da partilha do subcontinente indiano em 1947. Quando os britânicos dividiram o seu império segundo critérios religiosos, os muçulmanos ficaram com o Paquistão, que era composto por dois territórios separados por mais de mil quilómetros: o Paquistão Ocidental e o Paquistão Oriental, correspondente a Bengala Oriental. Os dois territórios partilhavam a religião islâmica, mas pouco mais: línguas, culturas e elites eram distintos, e o poder político e militar estava concentrado no Ocidente. Quando, em 1970, as primeiras eleições gerais diretas deram a vitória ao partido bengali, a Liga Awami de Sheikh Mujibur Rahman, as autoridades paquistanesas recusaram entregar o governo. Seguiu-se uma brutal repressão militar com massacres em larga escala e dez milhões de refugiados. Em dezembro de 1971, a Índia interveio militarmente e o Bangladesh tornou-se independente.

A independência não trouxe estabilidade. Em 1974, uma grande fome matou cerca de um milhão e meio de pessoas. Em 1975, o próprio fundador do país foi assassinado num golpe de Estado, após ter instaurado uma ditadura de partido único. Seguiram-se décadas de governos militares e, quando houve democracia, esta assumiu uma forma dinástica, com duas famílias a revezarem-se no poder, incluindo a filha de Mujibur Rahman, que governou até 2024. Ramos nota ainda que a representação feminina na chefia do governo no Bangladesh é sobretudo um reflexo desta política dinástica e não de emancipação feminina propriamente dita. Quanto à emigração, calcula-se que cerca de nove milhões de bangladeses vivam no estrangeiro, incluindo cerca de cinquenta mil em Portugal. Apesar da ainda jovem estrutura etária da população, a taxa de fertilidade caiu para 1,9 filhos por mulher, abaixo do limiar de substituição, o que sugere que a tendência de declínio demográfico que já afeta o Japão, a Coreia e a China começa também a aproximar-se do subcontinente indiano.

Personagens

  • Rabindranath Tagore
  • Sheikh Mujibur Rahman
  • Sheikh Hassina
  • Babur
  • Gengis Khan
  • Tony Dias
  • George Lincoln da Costa

Lugares/Países

  • Bangladesh
  • Portugal
  • Índia
  • Paquistão
  • Bengala
  • Birmânia
  • Mianmar
  • Nepal
  • Goa
  • Reino Unido
  • Arábia Saudita
  • Médio Oriente
  • China
  • Turquia
  • Grécia
  • Espanha
  • Estados Unidos
  • Uzbequistão
  • Coreia
  • Japão

Épocas

  • século XVI
  • século XVII
  • século XVIII
  • século XIV
  • século XIX
  • século XX
  • 1947
  • 1971
  • Estado colonial britânico

Temas

  • colonialismo
  • império
  • comércio
  • religião
  • islamismo
  • hinduísmo
  • budismo
  • cristianismo
  • independência
  • partição
  • guerra
  • genocídio
  • imigração
  • demografia
  • desastres naturais
  • ditadura
  • política dinástica
  • indústria têxtil
  • navegação
  • pirataria
  • diplomacia
  • fome
  • socialismo

Eventos

  • Independência do Bangladesh
  • Partição da Índia
  • Renascença Bengali
  • Guerra Indo-Paquistanesa de 1971
  • Fome de Bengala de 1770
  • Fome de Bengala de 1974
  • Golpe de Estado de 1975
  • Massacre de Bengalis no Assam 1983
  • Ciclone de 1970
  • Ciclone de 1991
  • Eleições gerais do Paquistão de 1970

Guerras e conflitos

  • Guerra de Independência do Bangladesh
  • Guerra Indo-Paquistanesa de 1971
  • Cruzadas