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Nº 3005 de fevereiro de 202043:02resposta a ouvintes

Será que Portugal pilhou mais ou foi mais pilhado?

O episódio debate a restituição de obras de arte coloniais aos países de origem, contrapondo o caso português à pilhagem sistemática nazi. Rui Ramos argumenta que Portugal foi mais pilhado (por espanhóis, franceses, piratas) do que pilhou, e que as coleções museológicas foram maioritariamente obtidas por compra e troca, não por saque. A segunda parte analisa Francisco Rolão Preto e o Nacional-Sindicalismo, movimento fascista que, paradoxalmente, se opôs a Salazar e acabou na oposição democrática.

Ideias principais

  1. As coleções coloniais em museus europeus foram obtidas ao longo de séculos por meios diversos (compra, troca, saque), não sendo comparáveis à pilhagem sistemática nazi da Segunda Guerra Mundial.
  2. Portugal foi repetidamente saqueado ao longo da história por espanhóis (1580), franceses (1807), piratas do Norte da Europa e piratas norte-africanos, perdendo mais do que pilhou.
  3. Francisco Rolão Preto e o Nacional-Sindicalismo representavam uma 'direita revolucionária' fascista que criticava Salazar por ser demasiado moderado e comprometido com princípios liberais.
  4. O movimento nacional-sindicalista, inicialmente inspirado no fascismo italiano e nazismo alemão, acabou por evoluir para a oposição democrática, conspirando com comunistas e republicanos contra Salazar.
  5. A proibição do Nacional-Sindicalismo em julho de 1934 coincidiu com o assassinato do chanceler austríaco Dollfuss por nazis, reflectindo o receio de Salazar de um levantamento fascista doméstico contra o seu regime conservador.

Resumo do episódio

Neste trigésimo episódio de *E o Resto é História*, Rui Ramos e João Miguel Tavares abordam dois temas distintos: a questão da devolução de artefactos coloniais presentes nos museus portugueses, e o percurso político de Francisco Rolão Preto, figura central do nacional-sindicalismo português nos anos 30.

A primeira discussão parte de uma proposta legislativa que pretendia inventariar as obras de arte e artefactos oriundos das antigas colónias em museus portugueses, com vista à sua eventual devolução. O ponto de partida é uma pergunta aparentemente simples: terá Portugal pilhado mais, ou sido mais pilhado? Os apresentadores concluem que a história aponta em ambas as direcções. Rui Ramos recorda que, durante séculos, o saque era considerado um direito legítimo em tempo de guerra. O episódio da entrada do Duque de Alba em Portugal em 1580 ilustra bem essa realidade: as tropas castelhanas, flamengas e alemãs saquearam os arredores de Lisboa durante três dias, levando consigo uma enorme quantidade de objectos vindos da Ásia e de outras paragens. Mais tarde, as invasões francesas de 1807-1808 resultaram num novo espólio, que os ingleses, ao negociarem a retirada das tropas de Napoleão, consentiram que estas levassem consigo. A isto somam-se os ataques de piratas do norte de África e do norte da Europa às armadas portuguesas. Portugal foi, portanto, bastante pilhado.

Contudo, os apresentadores questionam a ideia de que os acervos dos museus europeus tenham sido constituídos sobretudo através de roubos e saques. Rui Ramos argumenta que grande parte dos artefactos de origem extra-europeia foi adquirida por compra ou troca, e que foram os próprios europeus a atribuir-lhes valor artístico. O caso paradigmático são os bronzes da cidade do Benim, na Nigéria, saqueados pelos britânicos em 1897 como expedição punitiva, mas que ao chegarem à Europa revelaram uma qualidade técnica e artística equiparável à do Renascimento, transformando radicalmente a percepção europeia sobre as culturas africanas. Os apresentadores alertam ainda para o risco de devolver peças a regimes que as destruiriam - como sucedeu com os Budas do Vale de Bamiã, dinamitados pelos talibãs em 2001 - e sublinham a dimensão nacionalista, por vezes anacrónica, destas reivindicações. O caso dos mármores do Pártenon exemplifica a complexidade do tema: a Grécia moderna reclama apenas essas peças, reconhecendo implicitamente que não há base para uma reclamação geral de toda a arte grega dispersa pelo mundo.

A segunda parte do episódio é dedicada a Francisco Rolão Preto, a pedido de um ouvinte. Rui Ramos traça o percurso desta figura que começou como jovem integralista, adepto do movimento fundado por António Sardinha e inspirado na *Action Française* de Charles Maurras - uma corrente que propunha a defesa racional do catolicismo e da monarquia como pilares da ordem social. Na transição para os anos 30, e sob o impacto do fascismo italiano e do nazismo alemão, Rolão Preto abraçou uma versão portuguesa do fascismo, criando o Movimento Nacional-Sindicalista, conhecido como os Camisas Azuis, com toda a estética e aparato característicos desses movimentos.

A relação com Salazar foi desde o início ambígua e acabou por se tornar abertamente conflituosa. Os nacional-sindicalistas criticavam o Estado Novo por considerarem Salazar excessivamente conservador e pouco revolucionário. Em julho de 1934, quatro dias após o assassínio do chanceler austríaco Dollfuss por militantes nazis, o movimento foi proibido em Portugal - o que sugere que Salazar temeu um cenário semelhante ao austríaco. Rolão Preto foi preso, depois exilado, e ao regressar em 1945 passou para a oposição democrática, aliando-se a republicanos e comunistas contra o Estado Novo, chegando a apoiar Humberto Delgado em 1958. Morreu em 1977, tendo vivido o 25 de Abril com entusiasmo. Os apresentadores concluem com a nota de que a comissão que publicou o Livro Negro do Regime Fascista terá deliberadamente omitido os nomes de nacional-sindicalistas que estiveram presos políticos, por ser desconcertante para o público que também houvesse fascistas a resistir ao salazarismo.

Personagens

  • Joacine Katar Moreira
  • Emmanuel Macron
  • Duque de Alba
  • Filipe II de Espanha
  • António I do Crato
  • Rafael Valladares
  • Lord Elgin
  • Charles Maurras
  • António Sardinha
  • Francisco Rolão Preto
  • Benito Mussolini
  • Adolf Hitler
  • António de Oliveira Salazar
  • António Costa Pinto
  • Manuel Braga da Cruz
  • Margot Dias
  • Jorge Dias
  • Engelbert Dollfuss
  • Joseph Stalin
  • Humberto Delgado
  • Henrique Galvão
  • Luís de Almeida Braga
  • Alberto Monsaraz
  • Napoleão Bonaparte

Lugares/Países

  • Portugal
  • Espanha
  • França
  • Alemanha
  • Itália
  • Moçambique
  • Nigéria
  • Grécia
  • Áustria
  • Etiópia
  • Afeganistão
  • Polónia
  • União Soviética
  • Inglaterra
  • Brasil
  • Índia
  • Marrocos
  • Argélia
  • Flandres

Épocas

  • século XVI
  • século XIX
  • século XX
  • Estado Novo
  • Primeira República
  • Segunda Guerra Mundial
  • Renascimento
  • anos 1930
  • Revolução Francesa

Temas

  • colonialismo
  • pilhagem
  • arte
  • museus
  • restituição
  • guerra
  • fascismo
  • nacionalismo
  • integralismo lusitano
  • ditadura
  • nacionalsocialismo
  • corporativismo
  • oposição política
  • cultura
  • islão
  • cristianismo
  • monarquismo

Eventos

  • Batalha de Alcântara
  • invasões francesas
  • guerras napoleónicas
  • Revolução Francesa
  • expropriações de 1834
  • expedição punitiva ao Benim
  • destruição dos Budas de Bamiyan
  • destruição de Palmira
  • 25 de Abril de 1974
  • 25 de julho de 1934

Guerras e conflitos

  • Guerra Civil Espanhola
  • Segunda Guerra Mundial
  • guerras napoleónicas
  • invasões francesas

Livros citados

  • A conquista de Lisboa (Rafael Valladares)
  • Os Camisas Azuis (António Costa Pinto)