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Nº 18815 de fevereiro de 202342:11efeméride

Sexo nos EUA: o revolucionário Relatório Kinsey

O episódio analisa o impacto histórico dos relatórios Kinsey sobre sexualidade humana, publicados em 1948 e 1953, colocando-os no contexto das grandes transformações sociais do pós-Segunda Guerra Mundial. Rui Ramos descreve seis mudanças estruturais (urbanização, Estado Social, meios de comunicação, secularização, integração das mulheres no trabalho e baby boom) que criaram as condições para uma revolução sexual. O programa contrasta a abordagem estatística e descritiva de Kinsey com a perspectiva patologizante anterior, exemplificada pela obra de Egas Moniz.

Ideias principais

  1. Os relatórios Kinsey revolucionaram o estudo da sexualidade ao usar métodos estatísticos com milhares de inquéritos, normalizando comportamentos antes considerados patológicos através da sua frequência observada na população geral.
  2. O impacto de Kinsey só foi possível devido a seis transformações estruturais do pós-guerra: fim das sociedades rurais, expansão do Estado Social, meios de comunicação de massa, queda da prática religiosa, integração feminina no trabalho e baby boom.
  3. Ao contrário de Egas Moniz (1901) que tratava comportamentos desviantes como patologias a curar, Kinsey descreveu-os como variações estatísticas sem julgar pela norma da saúde ou integração social.
  4. Kinsey estimou que 10% dos homens tinham tido comportamentos homossexuais e que metade dos homens casados tinham relações extraconjugais, números que chocaram a sociedade americana dos anos 1950.
  5. A revolução sexual dos anos 60 resultou da confluência dos estudos de Kinsey com factores tecnológicos (pílula contraceptiva, penicilina) e culturais (cultura pop juvenil, televisão), criando simultaneamente libertação e nova compulsão sexual.

Resumo do episódio

Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares debruçam-se sobre o chamado Relatório Kinsey, publicado a 5 de Janeiro de 1948, e o seu significado histórico. O ponto de partida é a obra do biólogo americano Alfred Kinsey, intitulada *Sexual Behavior in the Human Male*, a que se seguiu, em 1953, um volume equivalente dedicado às mulheres. Ambos os livros se tornaram best-sellers, vendendo quase um milhão de exemplares nos Estados Unidos, e a sua publicação é apresentada pelos apresentadores como um acontecimento histórico genuíno, não apenas uma curiosidade científica.

Antes de entrar na obra de Kinsey propriamente dita, Rui Ramos traça um quadro alargado das transformações que sacudiram as sociedades ocidentais após a Segunda Guerra Mundial, argumentando que é impossível compreender a chamada revolução sexual sem perceber o contexto em que ela emergiu. Identifica seis grandes mudanças: o fim das sociedades rurais e a urbanização acelerada, que arrancou as populações dos seus enquadramentos tradicionais; a expansão do Estado social e a consequente observação estatística dos comportamentos; o crescimento dos meios de comunicação, em particular a televisão, que criou uma cultura popular partilhada; o declínio da prática religiosa regular, que retirou às igrejas a sua função de autoridade moral quotidiana; a integração das mulheres no mercado de trabalho por conta de outrem, alterando profundamente as relações entre os sexos; e, por fim, o baby boom do pós-guerra, que gerou uma geração jovem extraordinariamente numerosa, com uma cultura própria e uma relação nova com o corpo e a sexualidade.

Os apresentadores explicam depois o estado em que se encontrava o pensamento sobre sexualidade antes de Kinsey. Duas grandes correntes dominavam o campo: as religiões cristãs, que aceitavam a sexualidade essencialmente no quadro do matrimónio e da procriação, e a ciência médica do século XIX, que descrevia os comportamentos sexuais à luz de critérios de saúde individual e de integração social. Neste segundo modelo, os comportamentos que se afastavam da norma heterossexual eram classificados como patológicos e associados ao sofrimento e à decadência social. Para ilustrar esta visão, é citado o médico português Egas Moniz, que em 1901 publicou *A Vida Sexual*, obra muito popular em Portugal, na qual descrevia a homossexualidade como doença tratável, recorrendo ao latim sempre que as descrições se tornavam mais explícitas.

É neste contexto que a novidade de Kinsey se torna clara. Sendo zoólogo, e não psiquiatra, Kinsey não partiu de doentes de consultório ou de casos excêntricos registados por colegas, mas de um inquérito de larga escala: mais de cinco mil entrevistas para o volume sobre os homens e cerca de seis mil para o das mulheres. A partir desta amostra, chegou a conclusões que abalaram as convicções vigentes: a homossexualidade era muito mais frequente do que se supunha, afectando cerca de dez por cento dos inquiridos em algum momento da vida; a maioria das pessoas não se situava em categorias estanques de heterossexualidade ou homossexualidade, mas num contínuo entre esses dois pólos; e comportamentos como as relações extraconjugais eram igualmente muito mais comuns do que a norma social admitia. O impacto destes dados foi amplificado pela cobertura mediática intensa que Kinsey recebeu, tornando-o numa figura pública reconhecida em todo o país.

Os apresentadores reconhecem que o trabalho de Kinsey suscitou dúvidas metodológicas, nomeadamente quanto à representatividade da amostra e às relações que ele próprio terá mantido com alguns participantes, mas sublinham que tais reservas não anularam o impacto da obra nem invalidaram as suas conclusões fundamentais. Na década de 1960, outros estudos, como os de William Masters e Virginia Johnson, que observaram directamente a actividade sexual em laboratório, vieram reforçar esta tendência de escrutínio científico da sexualidade. O episódio conclui notando que a revolução sexual foi apenas uma faceta de uma transformação civilizacional muito mais vasta, e que a cultura de libertação que produziu trouxe consigo as suas próprias pressões e ambiguidades.

Personagens

  • Alfred Kinsey
  • Egas Moniz
  • Sigmund Freud
  • Michel Foucault
  • William Masters
  • Virginia Johnson
  • Cristóvão Colombo

Lugares/Países

  • Estados Unidos
  • Portugal
  • Europa
  • Inglaterra
  • Bélgica
  • Alemanha
  • Espanha
  • Grécia
  • França

Épocas

  • século XIX
  • século XX
  • pós-Segunda Guerra Mundial
  • anos 1940
  • anos 1950
  • anos 1960
  • Antiguidade
  • Império Romano
  • Primeira Guerra Mundial

Temas

  • sexualidade
  • ciência
  • religião
  • revolução sexual
  • urbanização
  • industrialização
  • comunicação social
  • Estado Social
  • juventude
  • baby boom
  • feminismo
  • homossexualidade
  • psiquiatria
  • psicanálise
  • estatística
  • medicina
  • contraceptivos
  • televisão
  • educação
  • cultura popular

Eventos

  • publicação do Relatório Kinsey
  • Segunda Guerra Mundial
  • maio de 68
  • baby boom

Guerras e conflitos

  • Segunda Guerra Mundial
  • Primeira Guerra Mundial

Livros citados

  • Sexual Behavior in the Human Male
  • A Vida Sexual (Egas Moniz)
  • História da Sexualidade (Michel Foucault)
  • E Tudo o Vento Levou