Nº 25819 de junho de 202454:39resposta a ouvintes
“Shogun” e a história dos portugueses no Japão
O episódio analisa o período Namban (1540-1630), quando Portugal manteve relações comerciais e missionárias intensas com o Japão feudal. Os portugueses tornaram-se intermediários cruciais no comércio entre China e Japão, enquanto os jesuítas converteram cerca de 300 mil japoneses ao cristianismo. O período terminou com a unificação do Japão sob o Shogunato Tokugawa, que promoveu uma violenta perseguição aos cristãos e expulsou todos os estrangeiros, substituindo os portugueses pelos holandeses como únicos parceiros comerciais europeus.
Ideias principais
- A ideia de que os portugueses esconderam a existência do Japão é absurda: o Japão era conhecido na Europa desde Marco Polo, e os jesuítas publicavam constantemente relatos das suas missões em cartas impressas que circulavam por toda a Europa.
- O português era a língua franca do Extremo Oriente no século XVI, usada até pelos holandeses e ingleses para comunicarem com os japoneses, deixando palavras permanentes no vocabulário japonês.
- Os portugueses prosperaram no comércio asiático ao tornarem-se intermediários entre China e Japão (países em conflito), vendendo sedas chinesas por prata japonesa com margens de lucro de 300-400%.
- A perseguição aos cristãos no Japão sob o Shogunato Tokugawa foi talvez a mais violenta que o cristianismo sofreu em dois mil anos, mas ainda assim sobreviveram comunidades de cristãos secretos durante mais de 200 anos até ao século XIX.
- Os Tokugawa substituíram os portugueses pelos holandeses porque estes garantiram não evangelizar e porque eram mais poderosos comercialmente na Ásia do século XVII, demonstrando que o Japão unificado podia agora escolher os europeus, e não o contrário.
Resumo do episódio
Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares partem da popularidade da nova série *Shogun*, disponível em streaming, para explorar um capítulo fascinante e pouco conhecido da história portuguesa: a presença lusa no Japão durante o chamado período Nambã, que decorreu entre as décadas de 1540 e 1630. A pergunta de partida, colocada por vários ouvintes, é a de saber se os portugueses teriam mantido a existência do Japão em segredo para preservar o monopólio comercial. A resposta dos apresentadores é categórica: a ideia é absurda. O Japão era conhecido na Europa desde a Idade Média, referido por Marco Polo como Cipango, e estava representado em mapas europeus antes de 1500. Cristóvão Colombo ia precisamente à procura do Japão em 1492, e autores como Tomé Pires, Camões e Fernão Mendes Pinto escreveram sobre o arquipélago de forma amplamente divulgada. Os jesuítas, por seu turno, publicavam regularmente cartas detalhadas sobre as suas actividades no Japão, lidas em toda a Europa.
O contexto histórico que os apresentadores desenvolvem é o do Japão feudal do século XVI, um arquipélago com cerca de vinte milhões de habitantes, governado formalmente por um imperador religioso, o Teno, e por um comandante militar hereditário, o Shogun, mas na prática fragmentado entre senhores feudais regionais, os daimios, e os seus guerreiros profissionais, os samurais. Era a chamada Era dos Estados Combatentes, um período de guerra civil permanente. É neste Japão que os portugueses chegam por volta de 1543, usando Macau como base após dificuldades iniciais com a China. O seu papel económico central era o de intermediários entre a China e o Japão, duas potências que tinham cortado relações entre si. Os portugueses compravam sedas nas feiras de Cantão e vendiam-nas no Japão em troca de prata, multiplicando o investimento por três ou quatro vezes. Era um negócio extraordinariamente lucrativo, assegurado por uma única nau anual de grande porte que fazia a viagem entre Macau e Nagasaki.
A presença portuguesa não era apenas comercial. Os jesuítas, a começar por Francisco Xavier em 1549, lançaram uma missão de evangelização que chegou a contar com cerca de trezentos mil cristãos no fim do século XVI, duzentas igrejas e seminários para a formação de clero local japonês. Os missionários adaptaram os seus métodos à cultura japonesa, aprenderam a língua, e o padre João Rodrigues chegou a publicar a primeira gramática japonesa em 1604. O português tornou-se a língua franca dos europeus no Japão, ao ponto de os próprios holandeses comunicarem com os japoneses em português.
Os apresentadores explicam como esta influência acabou por se tornar uma ameaça aos olhos dos grandes unificadores do Japão. Oda Nobunaga, Toyotomi Hideyoshi e, finalmente, Tokugawa Ieyasu - figura central da série *Shogun* - temiam que os daimios cristãos, apoiados pelos missionários e pelos portugueses, pudessem usar essa rede para se revoltar contra o poder central em consolidação. Uma conversa em 1586, em que jesuítas ingenuamente se ofereceram para apoiar militarmente os planos de Hideyoshi, terá alertado este último para o poder que os europeus detinham dentro do Japão. A perseguição ao cristianismo que se seguiu foi, segundo os apresentadores, possivelmente a mais violenta que a religião sofreu em dois mil anos de história, como retratado no filme *O Silêncio* de Martin Scorsese.
O episódio termina com uma nota surpreendente: quando a liberdade religiosa foi restaurada no Japão em 1873, os europeus descobriram comunidades de cristãos secretos que tinham preservado a fé durante mais de dois séculos de perseguição severa, sem qualquer contacto com padres ou com o exterior, recorrendo a imagens dissimuladas e rituais clandestinos. Esta persistência subterrânea é, segundo Rui Ramos, o sinal mais eloquente da profundidade com que os portugueses se haviam inserido na sociedade japonesa - uma presença que os holandeses, que os substituíram no comércio de Nagasaki, jamais chegaram a ter.
Personagens
- James Clavell
- Richard Chamberlain
- Toshiro Mifune
- William Adams
- Tokugawa Ieyasu
- Marco Polo
- Cristóvão Colombo
- Tomé Pires
- D. Manuel I
- Giovanni Battista Ramusio
- Luís de Camões
- Fernão Mendes Pinto
- São Francisco Xavier
- Charles Boxer
- João Paulo Oliveira Costa
- Oda Nobunaga
- Akira Kurosawa
- Luís Fróis
- Toyotomi Hideyoshi
- João Rodrigues
- Martin Scorsese
Lugares/Países
- Japão
- Portugal
- China
- Inglaterra
- Holanda
- Espanha
- Índia
- Filipinas
- Coreia
- Macau
- Goa
- Nagasaki
- Kyoto
- Edo
- Malásia
- Indonésia
- Veneza
- Roma
- Lisboa
- Europa
- México
Épocas
- século XVI
- século XVII
- século XIX
- Idade Média
- período Namban
- era Tokugawa
- período Edo
- era Sengoku
- década de 1980
Temas
- expansão portuguesa
- evangelização
- comércio asiático
- missionação jesuíta
- perseguição religiosa
- relações luso-japonesas
- guerras feudais
- unificação do Japão
- isolamento japonês
- cristianismo secreto
- rivalidade colonial
Eventos
- chegada dos portugueses ao Japão
- expulsão dos jesuítas
- invasão japonesa da Coreia
- Batalha de Sekigahara
- perseguição aos cristãos no Japão
- estabelecimento do Shogunato Tokugawa
Guerras e conflitos
- guerra civil japonesa
- invasão japonesa da Coreia
- revolta dos daimios cristãos
Livros recomendados
- The Christian Century in Japan (Charles Boxer)
- Portugal e o Japão, o século Namban (João Paulo Oliveira Costa)
Livros citados
- Shogun (James Clavell)
- Os Lusíadas (Luís de Camões)
- Peregrinação (Fernão Mendes Pinto)
- Suma Oriental (Tomé Pires)
- As Viagens (Marco Polo)
- História do Japão (Luís Fróis)