Nº 5208 de julho de 202039:01resposta a ouvintes
Somos mesmo os mais velhos aliados de Inglaterra?
O episódio desmonta o mito da "mais antiga aliança do mundo" entre Portugal e Inglaterra, mostrando que o Tratado de Windsor de 1386 só foi recuperado em 1899 para fins políticos. Rui Ramos analisa séculos de relações luso-britânicas, demonstrando que a aliança nunca foi de amizade mas de interesses estratégicos mútuos, frequentemente desvantajosos para Portugal, desde as invasões napoleónicas ao Ultimato de 1890, perdurando apenas enquanto serviu objectivos geopolíticos britânicos de excluir potências rivais.
Ideias principais
- O Tratado de Windsor de 1386 era originalmente um acordo dinástico entre dois pretendentes (D. João I e o Duque de Lencastre) e não foi considerado base de uma aliança contínua até ao tratado de 1899, quando isso serviu interesses diplomáticos face à Alemanha.
- Durante a União Dinástica (1580-1640), Portugal e Inglaterra foram inimigos, com galeões portugueses na Grande Armada contra Inglaterra em 1588 e ataques ingleses a possessões portuguesas, desmontando a narrativa de amizade secular.
- A aliança só interessou realmente a Portugal após 1640, quando a Inglaterra se tornou a principal potência naval e mercado relevante (vinho do Porto), mas sujeitou Portugal a invasões dos inimigos continentais de Inglaterra (1801, 1807), sendo Portugal tratado quase como possessão britânica.
- O Ultimato de 1890 revelou o isolamento português quando tentou aproximar-se da França e Alemanha: nenhuma potência europeia apoiou Portugal contra a Inglaterra, demonstrando que não havia alternativa à aliança britânica até ao século XX.
- A popularidade duradoura de Amália e Eusébio deve-se ao seu talento genuíno e não à propaganda do Estado Novo, que apenas aproveitou figuras excepcionais para fins simbólicos (ascensão social, multirracialismo), tal como outras ditaduras europeias fizeram no pós-guerra.
Resumo do episódio
Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares partem de umas declarações do Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, feitas a propósito da exclusão de Portugal do corredor aéreo britânico durante a pandemia de Covid-19, para responderem a uma pergunta de um ouvinte: a chamada aliança mais antiga do mundo entre Portugal e Inglaterra é, de facto, uma relação de amizade recíproca, ou sempre foi uma relação assente no interesse?
O ponto de partida histórico é o Tratado de Windsor de 1386, assinado entre D. João I, ainda a consolidar o trono depois de Aljubarrota, e o Duque de Lencastre, que ambicionava o reino de Castela. Rui Ramos sublinha que este acordo não foi, na sua origem, um tratado entre dois países soberanos, mas antes um entendimento entre dois príncipes que disputavam tronos alheios e que se associaram por conveniência mútua. O mito da "aliança mais antiga do mundo" só se consolidou no final do século XIX, concretamente em 1899, quando um novo tratado confirmou retroativamente os acordos anteriores, incluindo o de 1386, como resposta à pressão alemã que ameaçava a influência britânica sobre Portugal e as suas colónias.
Durante séculos, os interesses estratégicos de Portugal estiveram muito mais alinhados com Castela do que com Inglaterra. Foi a aliança com a Espanha que sustentou a expansão ultramarina portuguesa nos séculos XV e XVI, e foi também a União Dinástica de 1580 que transformou temporariamente os ingleses em inimigos declarados: os galeões portugueses integraram a Grande Armada que atacou a Inglaterra em 1588. A aliança com Londres só ganhou verdadeiro peso a partir da Restauração de 1640, quando Portugal precisou de um aliado marítimo capaz de o proteger da Espanha e de garantir os seus mercados externos. Nesse contexto, o comércio do vinho do Porto e os tratados comerciais do século XVIII tornaram a relação economicamente relevante para ambas as partes.
Os apresentadores explicam também que esta aliança teve sempre um carácter assimétrico. O que interessava à Inglaterra não era Portugal em si, mas impedir que qualquer potência rival - fosse a França, fosse depois a Alemanha - ganhasse influência sobre o território português e, sobretudo, sobre as suas rotas atlânticas e colónias. O episódio do Mapa Cor-de-Rosa, em 1890, ilustra bem esta lógica: quando Portugal tentou aproximar-se da Alemanha e da França para obter apoio às suas pretensões africanas, descobriu que nenhuma dessas potências arriscaria um conflito com Londres por causa de Lisboa, e que a própria Inglaterra reagiu com uma ameaça de rutura que deixou Portugal completamente isolado. Por outro lado, os dois apresentadores reconhecem que Portugal também tirou proveitos reais desta dependência, nomeadamente na consolidação do seu império colonial em Angola e Moçambique, territórios que acabaram por ficar sob soberania portuguesa precisamente porque nem a Inglaterra nem a Alemanha queriam ver o adversário a ocupá-los.
A aliança foi perdendo o seu sentido prático ao longo do século XX: primeiro com a emergência dos Estados Unidos como principal potência naval, depois com a integração europeia, que deslocou os principais parceiros económicos de Portugal para a Alemanha, a França e a Espanha. A conclusão de ambos os apresentadores é clara: nunca foi uma aliança de amizade, mas de interesses complementares e muitas vezes desiguais. Os países não têm amigos, têm interesses - e a aliança luso-britânica é talvez o exemplo mais longevo e bem documentado dessa realidade na história europeia.
Personagens
- Marcelo Rebelo de Sousa
- D. João I
- Eduardo III de Inglaterra
- Duque de Lencastre
- D. Beatriz
- D. Fernando I
- Ricardo III
- Filipe II
- Isabel I de Inglaterra
- D. António I do Crato
- Francis Drake
- D. Catarina de Bragança
- Carlos II de Inglaterra
- Salazar
- Eusébio
- Amália Rodrigues
- Fernando Pessoa
- Simón de Oliveira
- Carlos Franco
- Eisenstein
- Rostropovich
- Stalin
Lugares/Países
- Portugal
- Inglaterra
- Reino Unido
- Espanha
- Castela
- França
- Alemanha
- Holanda
- Bélgica
- Brasil
- Angola
- Moçambique
- África
- Índia
- Açores
- Gibraltar
Épocas
- século XIV
- século XV
- século XVI
- século XVII
- século XVIII
- século XIX
- século XX
- Estado Novo
- Segunda Guerra Mundial
- pós-guerra
- anos 50 e 60
- Guerra Fria
Temas
- diplomacia
- alianças
- guerra
- comércio
- colonialismo
- expansão marítima
- propaganda
- cultura
- imigração
- turismo
- futebol
- fado
Eventos
- Batalha de Aljubarrota
- Tratado de Windsor (1386)
- União Dinástica (1580)
- Grande Armada (1588)
- Guerra das Laranjas (1801)
- Invasões francesas (1807)
- Ultimato Britânico (1890)
- Mapa cor-de-rosa
- Tratado de Tordesilhas
- Partilha de África
- Campeonato Mundial de 1966
- Incêndio do Chiado
Guerras e conflitos
- Batalha de Aljubarrota
- Grande Armada
- Guerra das Laranjas
- Guerras Napoleónicas
- Invasões francesas