Nº 24413 de março de 202458:36análise histórica
Também tu, Brutus? O assassinato de Júlio César
O episódio analisa o assassinato de Júlio César nos Idos de Março de 44 a.C., explorando as causas da sua morte e o contexto político da República Romana. Rui Ramos explica como César ascendeu ao poder através de conquistas militares (incluindo na Lusitânia e Galécia), tornando-se ditador vitalício, e como a sua concentração de poder levou um grupo de senadores, incluindo Brutus, a conspirar contra ele. O episódio discute ainda o legado político de César e como a sua figura influenciou o imaginário político ocidental durante dois milénios, do cesarismo napoleónico aos debates sobre repúblicas modernas.
Ideias principais
- A morte de Júlio César está excepcionalmente bem documentada para a Antiguidade graças a fontes como Suetónio, Plutarco e a correspondência de Cícero, que sobreviveram por serem usadas como manuais escolares de latim durante séculos.
- A República Romana era um regime de poder partilhado entre oligarcas que competiam violentamente por magistraturas eleitas, financiando campanhas através de corrupção directa e promessas de benefícios à plebe, num sistema altamente dispendioso que arruinava os candidatos.
- A expansão territorial de Roma criou comandos militares (imperia) que concentraram poder financeiro e militar em líderes como Pompeu e César, tornando-os dominantes no jogo político e minando o equilíbrio republicano baseado na divisão de poderes entre múltiplos magistrados.
- César conquistou a Lusitânia e a Galécia (Portugal) antes das suas famosas campanhas na Gália, usando esses sucessos militares como carta de recomendação política, e a sua morte não restaurou a República mas desencadeou novas guerras civis que levaram ao Império sob Augusto.
- A figura de César tornou-se o arquétipo fundamental do líder militar que destrói uma república para instaurar poder pessoal, influenciando debates políticos durante dois mil anos, desde Maquiavel e os pais fundadores americanos até à discussão sobre presidências imperiais e isolacionismo no século XX.
Resumo do episódio
Neste episódio, Rui Ramos e João Miguel Tavares debruçam-se sobre um dos acontecimentos mais célebres da história universal: o assassinato de Júlio César nos Idos de Março de 44 a.C. A conversa começa por uma questão aparentemente simples - como é que sabemos tanto sobre um homem morto há mais de dois milénios, que não fundou nenhuma religião nem deixou seguidores institucionais? A resposta passa pela feliz conjugação de fontes excepcionalmente ricas para este período: as obras dos historiadores Suetónio e Plutarco, a vastíssima correspondência e os discursos de Cícero, contemporâneo de César, e as próprias memórias militares que o general romano redigiu na terceira pessoa sobre as suas campanhas. A estas fontes escritas somam-se os bustos e esculturas que nos permitem, como para nenhuma outra figura antes do século XV, conhecer o rosto dos protagonistas. Shakespeare bebeu directamente nessas fontes para a sua peça, consolidando ainda mais o mito.
Os apresentadores contextualizam depois o ambiente político da República Romana: um regime de poder partilhado entre uma oligarquia de famílias tradicionais, com magistrados eleitos anualmente, um Senado vitalício de antigos magistrados e assembleias populares onde a plebe votava em troca de pão, espectáculos e promessas. Ninguém acumulava poder sozinho nem por muito tempo - até que a expansão territorial de Roma pelo Mediterrâneo criou uma nova realidade: os grandes líderes militares com impérium, à frente de legiões profissionais, com riquezas colossais provenientes das conquistas e com uma fama que dominava as eleições em Roma. É neste contexto que César emerge, primeiro com campanhas na Península Ibérica e depois na Gália, onde passou o Reno e invadiu a Grã-Bretanha, tornando-se numa figura de prestígio ímpar.
Quando o Senado, influenciado pelos seus inimigos e pelo antigo aliado Pompeu, lhe exige que abandone o comando militar, César percebe que regressar a Roma como simples cidadão significaria a perseguição judicial e o fim político. Em 49 a.C. cruza o Rubicão - expressão que ficou na língua como símbolo de um ponto sem retorno -, desencadeando uma guerra civil de quatro anos da qual sai vitorioso. Torna-se ditador vitalício, mantendo a aparência da República com o Senado e as magistraturas, mas sentado numa cadeira dourada e cunhando moedas com o seu rosto, privilégio reservado aos reis. É precisamente este equilíbrio ambíguo entre a forma republicana e o poder pessoal que alimenta a conspiração: um grupo de senadores, entre os quais Brutus, protegido de César, planeia assassiná-lo no Senado em 15 de Março de 44 a.C. Os conspiradores rodeiam-no, puxam das adagas e esfaqueiam-no vinte e três vezes. Ao ver Brutus entre os agressores, César terá dito - em grego, segundo Suetónio - as famosas palavras que a tradição fixou em latim: «também tu, Brutus?».
O episódio termina numa reflexão mais ampla sobre o impacto duradouro deste acontecimento na imaginação política ocidental. O nome César tornou-se título imperial, usado ininterruptamente durante mais de mil e quinhentos anos, dos imperadores romanos aos sultões otomanos, passando pelos Kàiser alemães e pelos czares russos. O conceito de cesarismo, cunhado no século XIX para descrever a ascensão de um líder militar que derruba um regime representativo - com Napoleão como exemplo paradigmático -, tem as suas raízes aqui. E a pergunta que obsidiou os republicanos desde Maquiavel até aos pais fundadores dos Estados Unidos - como evitar que uma república se destrua a si própria ao expandir-se imperialmente e ao gerar novos Césares - permanece, segundo os apresentadores, surpreendentemente actual dois mil e sessenta e oito anos depois.
Personagens
- Júlio César
- Marco Júnio Bruto
- Suetónio
- Plutarco
- Cícero
- William Shakespeare
- Alexis de Tocqueville
- Napoleão Bonaparte
- Mário
- Sula
- Pompeu
- Marco António
- Cleópatra
- Otávio
- Augusto
- Alexandre o Grande
- Nicolau Maquiavel
- Jean-Jacques Rousseau
- Ronald Syme
- Carlos V
- Filipe II
- D. Afonso Henriques
- D. Dinis
- Duque de Wellington
Lugares/Países
- Roma
- Itália
- Gália
- França
- Espanha
- Portugal
- Lusitânia
- Galécia
- Bélgica
- Suíça
- Alemanha
- Germânia
- Grã-Bretanha
- Holanda
- Balcãs
- Médio Oriente
- Norte de África
- Egito
- Grécia
- Constantinopla
- Império Otomano
- Bulgária
- Rússia
- Estados Unidos da América
- Cuba
- Índia
Épocas
- Antiguidade
- República Romana
- Império Romano
- século I a.C.
- século I d.C.
- Idade Média
- Renascimento
- século XVI
- século XVII
- século XVIII
- século XIX
- século XX
- anos 20 do século XX
Temas
- política
- guerra
- poder militar
- república
- ditadura
- império
- aristocracia
- oligarquia
- democracia
- corrupção
- assassinato político
- guerra civil
- expansão territorial
- conquista militar
- propaganda
- cesarismo
- educação
- escultura
- literatura
- teatro
Eventos
- Idos de Março
- assassinato de Júlio César
- conquista da Gália
- invasão da Grã-Bretanha
- passagem do Rubicão
- queda de Constantinopla
- independência americana
Guerras e conflitos
- guerra civil romana
- guerras da Gália
- guerras napoleónicas
Livros citados
- Comentários sobre a Guerra das Gálias
- The Roman Revolution